Por Vinícius Fonseca*

De modo recorrente, procuro deixar claro aqui na coluna que os textos publicados não visam passar a imagem de que pessoas com deficiência são vítimas da sociedade e que, por isso, necessitam de algum tipo de clemência ou pena. Pelo contrário, na maior parte dos textos procura mostrar como estamos avançando em causas sociais, como ainda temos coisas a conquistar e, ao mesmo tempo, como já conquistamos muito. Como nós, PcDs, podemos ocupar papéis importantes no contexto e no convívio social.

Apesar dessa preocupação, não há como escapar de algumas coisas tristes que a realidade esfrega em nossas caras. Do que estou falando? Do mais novo caso de preconceito experimentado por uma família cujo um dos membros é pessoa com deficiência.

A história veio à tona na última semana, quando o goleiro Cássio, atualmente no Cruzeiro, revelou estar encontrando dificuldades para matricular a filha autista. Segundo ele, nenhuma escola estaria aceitando a menina em razão de sua condição.

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Cássio é figura pública. Fez história no Corinthians, foi peça fundamental na conquista do Mundial de Clubes pelo Timão em 2012, contra o Chelsea. Está em um dos maiores clubes de futebol do País. É figura relevante no esporte mais importante do Brasil há anos e tem um excelente patrimônio.

Nem a fama, nem o dinheiro, no entanto, conseguiram poupá-lo de vivenciar o preconceito e o aparente despreparo de nossas redes de ensino. Agora convido vocês a refletirem: se isso acontece com alguém como Cássio, imagine com pessoas desconhecidas…

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O preconceito é experimentado diariamente por famílias inteiras. Quando falamos de Cássio nesse contexto, não falamos do jogador, mas do pai que vê o direito à educação de sua filha ser cerceado. Não há outra explicação que não o preconceito.

Por que defendo esse ponto de vista? O Brasil tem entre 15 e 17 milhões de pessoas com deficiência, segundo os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com base nisso, não é difícil supor que muitas dessas pessoas são crianças e adolescentes em fase escolar. Ou seja, as escolas deveriam estar preparadas para esse público.

A tal da oportunidade

É assunto recorrente aqui a falta de oportunidades decentes para pessoas com deficiência no mercado de trabalho, assim como de melhores condições salariais e de vida digna para esse público.

Todas essas questões se entrelaçam e se sintetizam em casos como o experimentado por Cássio e sua família. Afinal, como esperar melhores condições de vida para alguém com deficiência se, mesmo quando o pai tem dinheiro para oferecer o melhor desde a infância, a criança não tem a tal da oportunidade?

De minha parte, só posso expressar aqui minha indignação e desejar sorte aos pais e familiares de pessoas com deficiência em suas lutas constantes contra esse nosso preconceito de cada dia.

*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos, com especializações em comunicação, gestão de pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com Deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente, ou quase…