Quinze mulheres privadas de liberdade participaram da oficina, traduzida em brincadeiras de resgate da alegria da infância
Cecília França
Qual era sua brincadeira favorita na infância? Do que você gostaria de ter brincado quando era criança e não conseguiu? Por que você não brinca ainda hoje? Brincar traz alegria e promove o riso, foco do trabalho da Grita Cia de Palhaças, grupo londrinense que levou a oficina Sensibilização pelo Riso para a Cadeia Pública Feminina de Londrina, na terça-feira, 26 de agosto.
Quinze mulheres privadas de liberdade passaram a manhã imersas em um universo lúdico do qual estão totalmente distanciadas. A oficina foi conduzida pelas atrizes Aneliza Paiva, que dá vida à palhaça Frida, Juliana Galante, a palhaça Adelaide, e Mariana Ferrari, a palhaça Cora. A Rede Lume acompanhou a atividade.
J., 35 anos, presa há três meses, ficou curiosa para saber a motivação das atrizes para a ação. “Quem colocou na cabeça de vocês ‘Vamos na cadeia’?”.
“Nossa cabeça mesmo”, brincou Aneliza, antes de responder: “Estamos fazendo cinco oficinas dentro desse projeto, uma com mulheres surdas, outra na casa abrigo para mulheres vítimas de violência, outra com adolescentes…então a gente quis atingir mulheres de diferentes faixas etárias e diferentes classes sociais”.
O projeto Sensibilização pelo Riso tem patrocínio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) e parceria com a Secretaria Municipal de Cultura.

Lembrança e respiro
Foram mais de três horas de atividades no pátio da Cadeia que envolveram movimentar o corpo, fazer sons, desenhar – e também um lanchinho especial. Entre a estranheza e o envolvimento, as detentas puderam resgatar lembranças da infância e do tempo de liberdade.
“Nós ‘tinha’ uma vida lá fora, né. Eu pegava pra brincar com os meus sobrinhos – tenho dez – então foi um pouco pra matar a saudade. Querendo ou não a gente recorda da rua. Aqui dentro a gente não tem conhecimento do que eles tão passando lá fora… e foi um pouco pra lembrar também da infância que a gente não aproveitou muito” contou L., 20 anos, uma das mais engajadas nas brincadeiras.
Para J., mãe de uma menina de 7 anos que ela não vê há quatro meses, a atividade representou uma oportunidade de sair do X – como são chamadas as celas. “Eu sempre participo, não gosto de ficar parada. A gente já fica tanto tempo parada lá dentro…A gente só sai pra tirar pátio, mas coisa rápida também”.
Ao fim, Aneliza agradeceu as mulheres, em nome da ‘Grita’. “A gente agradece demais a disponibilidade de vocês de brincar com a gente. É muito especial fazer esse momento de brincadeira porque não tem muito o que esperar, é brincar. A gente veio pra rir, pra brincar; é nisso que a gente acredita”.

“Ô Lili, me chama que eu vou”
Mariana Ferrari se emocionou durante a oficina, com a falta de espaço, com o excesso de mulheres e com as demonstrações de afeto.
“Eu fiquei imaginando: tem duzentas e poucas mulheres ali dentro. Elas falaram que revezam para tomar sol, para ir naquele espaço, mas é muito pequeno. Querendo ou não, a gente acaba se colocando ali, é um choque de realidade”. Ela continua: “E o tanto de afeto! Elas são muito afetivas, abraçam, dão risada e brincam. E riem de si mesmas na situação. Fazem piada com a própria desgraça”.
Os códigos usados pelas detentas também surpreenderam e emocionaram a atriz. “Eu achei linda essa coisa do ‘Lili’. Parece que está chamando uma mulher, né? Mas é a liberdade. Eu achei, assim… Não romantizando a situação, mas romantizando esse momento que a gente viveu ali com elas, foi muito especial”, finaliza Mariana.
Durante a atividade, por diversas vezes, uma das detentas gritava “Ô Lili!”, enquanto as demais respondiam “Me chama que eu vou”, em uma referência à almejada liberdade.
Leveza para mulheres cansadas
Aneliza explica como nasceu o projeto Sensibilização para o Riso: “A gente, primeiro, pensou no formato, que era de fazer um momento para mulheres e que não servisse para nada além da própria diversão, além de dar risada, além dessa leveza, pensando que as mulheres estão sempre cansadas, sobrecarregadas”.
Segundo ela, com cada turma as reações à proposta da “diversão sem propósito” têm sido diferentes. “Hoje a gente sai bem transformada, impactada com o que viveu. E surpresa. Porque a gente vem com uma proposta, que é essa para rir mesmo, para resgatar um pouco da infância, mas a gente não sabe muito bem o que vai encontrar. E com cada turma está sendo diferente”.
Juliana Galante acredita que o objetivo central da ação na Cadeia foi alcançado. “Não viemos ensinar nada. Quem é a gente para ensinar alguma coisa? Só de vê-las rindo e brincando com a gente, acho que é isso. E elas começarem a cantar porque deu vontade…pra gente é um presente poder ter esse espaço em que elas se sentem à vontade pra cantar. Eu acho que isso é o que a gente queria e o que a gente conseguiu”.
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