Moradores receberam intimações judiciais e convivem com a incerteza após 13 anos de ocupação; área servia como lixão a céu aberto
Paloma Ferraz, especial para a Rede Lume
Uma manifestação contra a reintegração de posse foi realizada na tarde do último sábado (13), na Ocupação do Jardim Cristal, na Zona Sul de Londrina (foto – Reprodução Instragram MAP). A SIAL Engenharia, proprietária do terreno, solicita a desocupação da área, onde moradores permanecem em insegurança habitacional.
A manifestação contou com o apoio de integrantes da Central de Movimentos Populares (CMP) e do Movimento Autônomo Popular (MAP). Foram recolhidas mais de 100 assinaturas contra a ação de reintegração de posse.
Nesta segunda-feira (15), moradores voltaram a se manifestar, mas em frente à Prefeitura de Londrina em busca de respostas. Recentemente, eles receberam mandados de citação – uma ordem judicial emitida pelo Poder Judiciário do Estado do Paraná – sobre a existência de um processo legal, convocando-os a apresentar defesa até dia 30 de setembro. A sensação é de incerteza.

Mariellen Roberto é representante da Ocupação, chamada popularmente de Solidariedade ou de Maravilha. Para ela, a solicitação de reintegração não é novidade. “A primeira liminar veio em 2018. Nós estamos agora na terceira ou quarta possível reintegração de posse”, comenta.
De acordo com Marielle, a SIAL teria sido incitada a fazer um depósito de R$ 100 mil; após o depósito, teriam, por direito, a posse. “Cem mil pra eles não é nada”, avalia a representante.
Para Luiz Camargo, representante do CMP, a união foca em um só objetivo: “Garantir a permanência de suas moradias, que estão ameaçadas por uma exigência de reintegração de posse da construtora SIAL, que não teve nenhum retorno por parte do poder público e seus secretários, na gestão anterior”.
Sobre o futuro das famílias que residem na ocupação, Luís comenta: “As falas das pessoas presentes foram com um único intuito: exigir do poder público um posicionamento, e encontrar soluções para que as famílias que ali residem não sejam jogadas nas valas.”
Assista ao vídeo na manifestação:
Lixão a céu aberto
Apesar das condições inadequadas e construções irregulares, o terreno já está ocupado há mais de 13 anos. De acordo com moradores, a região servia para nada mais do que um lixão a céu aberto, que foi descentralizado pelos populares que passaram a residir no local.
Além de queixas sobre o domínio da propriedade, estão os problemas que dominam a rotina dos moradores da ocupação. O ponto de ônibus mais próximo está há um quilômetro de distância. Em caso de emergência hospitalar, moradores relatam a dificuldade para a chegada de ambulâncias, que muitas vezes não atendem ao chamado devido a precarização geográfica.
“No inverno, ficamos impossibilitados de ficarmos aqui. Com as chuvas, fica pior ainda. A ponte fica inoperante e o acesso é mais difícil.”, conta Clodoaldo da Silva, morador da ocupação há quatro anos.
De acordo com a Cohab, em 2023 Londrina contava com 65 ocupações urbanas. Segundo dados do Ministério Público 2025, a cidade passa a contar com 67 ocupações.
“Estamo
s aqui nessa luta há muitos anos, tentando um lugar ao sol. Reivindicamos nosso direito de posse, de ficar em um cantinho”. Para Maura Francisco Lopes, moradora da ocupação há seis anos, a situação é precária.
“Água a gente ainda tem. Mas a luz é ruim. Ou ela vem bem fraca ou chega a queimar alguns equipamentos.” E continua: “A gente vive uma situação de vulnerabilidade, eu e os demais. A gente mora aqui não é porque a gente quer, é porque a gente precisa de um lar para criar os nossos filhos. Não temos apoio nem da prefeitura, nem da Cohab, nem de nenhum outro órgão governamental”, queixa-se Maura, que mora com outras sete pessoas em uma casa de três cômodos.
Incerteza
Ao receber a notificação judicial, Maura teve medo. “Tive medo. O oficial de justiça está notificando aos poucos, são muitas famílias por aqui. Existe aquele sentimento de ‘para onde eu vou?’, ‘para onde os outros vão?’, caso eles venham reintegrar a propriedade, que é deles.”
Ainda de acordo com populares, embora o processo de desocupação esteja vigente, grande parte das famílias ainda não foram notificadas oficialmente.
Paulo, conhecido como Mineiro na região, cultiva hortaliças e cria porcos e galinhas para seu consumo e consumo de amigos. Ele recebeu a notícia da desocupação no sábado. “Acabei de ficar sabendo, não tinha conhecimento disso”, relata.
O CMP estima que 120 famílias vivam na Ocupação.
“A gente tá aqui não é porque a gente quer. O único meio que encontrei de criar a minha família foi assim”, conta Thiago Aparecido da Costa, que reside há oito anos na ocupação.
