Decisão do delegado atende a pedido da defesa dos policiais e conta com anuência do Ministério Público; famílias recorrem ao TJ para manter local original do crime

Nelson Bortolin

A pedido da defesa dos seis policiais militares investigados pelas mortes de Anderbal Campos Bernardo Junior e Willian Jones Faramilio da Silva Júnior, e com a concordância do Ministério Público, o delegado Miguel Chibani Bakr Filho, da Delegacia de Homicídios de Londrina, suspendeu a reprodução simulada que estava marcada para esta sexta-feira (19).

É a segunda vez que o procedimento é adiado. A primeira ocorreu em abril, quando a Polícia Militar alegou estar envolvida na abertura da ExpoLondrina e, por isso, não poderia participar.

Ainda não há nova data definida. Atendendo também à defesa dos PMs, o delegado decidiu que a reprodução não será feita no local das mortes, às margens da PR-445, em frente à UEL. Deve acontecer em local fechado, com participação restrita a representantes do MP, das polícias e dos advogados das vítimas e dos investigados. Os PMs não são obrigados a comparecer.

Entre as vítimas está um terceiro jovem que, mesmo baleado por sete disparos, sobreviveu.

Reação das famílias

Coordenadora do Movimento Justiça por Almas – Mães em Luto na Luta e tia de uma das vítimas, Haydee Melo relata que, ao saber da decisão do delegado, as famílias ingressaram com mandado de segurança no Tribunal de Justiça do Paraná, pedindo a manutenção da data e do local da reprodução. O desembargador que analisou o caso, no entanto, negou liminar nesta quinta-feira (18). O mérito do processo ainda será apreciado.

Nós entendemos que a reprodução deve ocorrer no local original do crime, pois só ali se garante fidelidade à verdade real. É revoltante o que estamos passando. Lutamos porque acreditamos que nossos parentes são inocentes. E nos sentimos desrespeitados de novo pelo Estado”, afirma.

Haydee destaca que o inquérito aponta fragilidades na versão dos policiais, principalmente quanto às posições em que teriam atirado e à localização das vítimas após os disparos. “Fazer essa reprodução em um pátio fechado, num local totalmente diferente inclusive em termos topográficos, é, no nosso entendimento, prejudicial às provas”, completa.

As famílias ainda têm esperança de que o Tribunal determine a realização da reprodução no local do crime. Segundo Haydee, foi necessário recorrer porque o juiz de 1ª instância se recusou a analisar o mérito, alegando que a decisão sobre o local cabe apenas ao delegado.

O argumento da defesa

Os advogados dos policiais alegam que Londrina tem sido palco de atos hostis contra a PM e que o perfil no Instagram do movimento Justiça por Almas teria convocado manifestação para o dia e horário da reprodução. Isso, segundo a defesa, colocaria em risco a segurança dos militares.

Para Haydee, o argumento é frágil: “Parece piada. Os policiais, fortemente armados, deram 50 tiros nos três jovens. E nós é que ameaçamos a segurança deles. Se fosse realmente preocupação com segurança, bastaria a PM isolar a rodovia, colocar barreiras físicas e manter os manifestantes afastados. O que eles querem, na verdade, é atrapalhar as investigações.”

Relembre o caso

No fim da tarde de 6 de maio de 2022, Anderbal (21), Willian (18) e um sobrevivente foram abordados em um veículo Cruze branco a caminho do Catuaí Shopping.

A PM alegou que buscava um carro roubado na manhã daquele dia. Segundo a versão oficial, os jovens teriam apontado armas contra os policiais, que reagiram disparando 50 tiros. Anderbal e Willian morreram na hora.

O sobrevivente, hoje com 26 anos, afirmou em depoimento que, mesmo ferido, viu policiais “plantarem” armas junto aos corpos e ao seu lado. Disse ainda ter ouvido um PM afirmar que não chamaria socorro, pois os dois já estavam mortos e ele morreria em seguida. Bruno sobreviveu após longo período na UTI. Posteriormente foi preso por receptação e porte de arma, mas acabou absolvido de todas as acusações.

O inquérito foi arquivado a pedido do MP local, mas em dezembro de 2024 a promotora Camila Adami Martins, da Subprocuradoria-Geral de Justiça para Assuntos Jurídicos, determinou a reabertura das investigações, apontando pelo menos “excesso doloso” na ação policial.

Entre as inconsistências levantadas:

. perfurações nas portas do carro incompatíveis com a versão dos policiais;

. disparo à queima-roupa contra o motorista, não explicado;

. três armas entregues posteriormente por policial, sem apreensão imediata e sem nenhum sinal de sangue.

. denúncias de ameaças anteriores a uma das vítimas.

O promotor do Gaeco em Londrina, Jorge Barreto, disse à Rede Lume que, segundo a Polícia Científica, a regra geral é realizar as reproduções nos locais das ocorrências. “Contudo, nada impede a realização em outro local”, afirmou. Já o delgado não quis comentar.