Documento resgata perseguições a professores e estudantes e propõe reparações
Nelson Bortolin
Em clima de emoção, a Comissão da Verdade da Universidade Estadual de Londrina (UEL) entregou nesta sexta-feira (3) ao Conselho Universitário o seu relatório final, fruto de um trabalho iniciado em 2015. O objetivo da comissão foi resgatar a história da repressão do regime militar (1964-1995) dentro da universidade.
Com 487 páginas, o documento mostra que a ditadura esteve presente no cotidiano da UEL, criada em 1970. Seu primeiro reitor, Ascêncio Garcia Lopes, é tratado no relatório como um personagem que resistiu ao regime. Já o segundo dirigente da instituição, Oscar Alves, que tomou posse em 1974, deu início a um longo período de repressão, mantido por seu sucessor, José Carlos Pinotti, empossado em 1978.
Em março de 1975, foi implantada a estrutura que por muito tempo coordenou a repressão interna: a Assessoria de Segurança e Informações (ASI/FUEL), oficializada por resolução do Conselho Administrativo da universidade e elogiada pelo Ministério da Educação (MEC).
Embora apresentada como órgão de assessoramento para temas de segurança, a ASI atuava, na prática, como um braço repressivo do regime. Monitorava alunos, professores e funcionários, além de manter vínculos diretos com a Polícia Militar e outros órgãos de inteligência.
Cotidiano de repressão
O relatório recupera episódios emblemáticos, como o debate sobre a Constituinte que seria realizado em 1977, mas foi impedido pelo Exército e pela polícia. Também aponta a constante repressão ao jornal Poeira, do movimento estudantil, alvo de apreensões e do monitoramento de seus editores. O Diretório Central dos Estudantes (DCE) era frequentemente intimidado.
Em 1978, sob pressão para deixar de publicar o Poeira — com perda de anunciantes e restrições de gráficas locais —, os estudantes organizaram uma campanha e conseguiram comprar sua própria impressora offset. A conquista, porém, foi frustrada: a reitoria invadiu o espaço do DCE e confiscou os equipamentos, de forma arbitrária, fato comprovado por diversos depoimentos colhidos pela comissão.

Demissões e prisões
A Comissão destacou nove casos de docentes afastados por motivação política e ideológica. Além disso, registrou a prisão de seis integrantes da comunidade universitária.
Em mais de 300 páginas, o relatório reúne depoimentos de 15 pessoas — professores, ex-estudantes e servidores. Eles relatam perseguições, pressões psicológicas, vigilância da ASI/FUEL, prisões arbitrárias e também iniciativas de resistência, como greves, protestos e a criação de entidades docentes. Muitos enfatizaram o clima de medo e a autocensura que marcaram a vida acadêmica na época.
Recomendações aprovadas
A Comissão da Verdade apresentou uma série de recomendações, todas aprovadas pelo Conselho Universitário nesta sexta-feira. Entre elas:
• Preservar os documentos da Comissão no Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica (NDPH).
• Criar um marco simbólico no campus em homenagem à resistência democrática.
• Instituir um Grupo de Trabalho permanente para ampliar pesquisas e depoimentos.
• Conceder o título de Doutor Honoris Causa, in memoriam, ao professor Tsutomu Higashi.
• Realizar ato público de desagravo a perseguidos políticos.
• Criar um Observatório Permanente em Defesa dos Direitos Humanos.
• Revitalizar a sede do DCE, no centro de Londrina, como espaço de memória.
• Renomear o campus universitário em homenagem ao primeiro reitor da UEL, Ascêncio Garcia Lopes, reconhecido por sua defesa da instituição frente ao regime autoritário.
Para não repetir os erros no futuro
Em entrevista à Rede Lume, o presidente da Comissão da Verdade da UEL, professor Cesar Bessa, avaliou os resultados do trabalho. Para ele, a comissão, que continuará aberta, tem a função de “espelhar-se no passado para não repetir os erros no futuro”.
Bessa lembra que as Comissões da Verdade são fruto de uma legislação federal criada no governo da ex-presidenta Dilma Rousseff e têm caráter nacional, com a missão de reunir documentos e depoimentos sobre a repressão. “Pela memória, você faz o levantamento das violências sofridas em decorrência do arbítrio de uma sociedade que passou por uma ditadura. Foi o que fizemos na UEL”, afirma.

Ele destacou um dos episódios relatados no documento, em que a própria reitoria da instituição invadiu o Diretório Central dos Estudantes (DCE) para confiscar a impressora offset adquirida pelos alunos. “Chegaram a quebrar a parede do Diretório para confiscar a máquina. Esse é um exemplo claro de como a repressão buscava silenciar a produção de conhecimento e a liberdade estudantil”, lembra.
O professor relata que, na reunião do Conselho Universitário, foi aprovada uma proposta que não constava no relatório: um pedido formal de desculpas da universidade às pessoas perseguidas. “Foi uma decisão muito importante, emocionante, com a presença de ex-reitores e depoimentos carregados de emoção”, conta o presidente da comissão.
Bessa reforça que a criação de um espaço físico de memória é fundamental para que a comunidade acadêmica e a sociedade londrinense compreendam o papel da UEL no período da ditadura. “A universidade serviu como tentáculo da ditadura. É preciso reconhecer isso e criar referências simbólicas para que jamais se esqueça”, defende.
Para ele, o maior legado da comissão é manter a história acessível. “Toda a documentação ficará disponível ao público. É pela recordação que se constrói uma sociedade mais justa. Restaurar não é possível, mas é nosso dever reparar simbolicamente e garantir que os erros não se repitam.”
