Por Beatriz Herkenhoff*
Viver é um privilégio. Fazer parte do universo nos coloca em movimento harmonioso com a natureza, com o nosso planeta e com todos os seres viventes.
A consciência da nossa finitude nos tira da onipotência e da prepotência.
Não somos eternos. Nossa existência é breve.
Mesmo que vivamos 100 anos, temos um tempo limitado para dar o melhor de nós, para deixar pegadas de amor, para sermos fonte de luz, fé, alegria e esperança.
Queremos fazer a diferença nesse mundo, mas, muitas vezes nos sentimos impotentes.
Luzes e sombras dialogam em nós: amamos e somos amados, ferimos e somos feridos, acolhemos e somos acolhidos, abandonamos e somos abandonados.
Como lidamos com a dinâmica existencial plena de amor e de desamor?
Predomina em nós o impulso para o amor ou para o ódio?
Muitas vezes, somos corroídos pelo perfeccionismo, por pensamentos acelerados, persecutórios que nos acusam e culpabilizam.
As cobranças nos paralisam. O sono é interrompido por preocupações, pelo excesso de imagens e estímulos recebidos pelo nosso cérebro.
Leia também: A construção de redes de afeto
Onde foi parar a esperança que nos move a fazer o bem, amar em profundidade, viver a solidariedade, ser sensível àqueles que sofrem?
Nascemos puros, sedentos de amor e alegria. A criança nos cativa e envolve com a sua confiança, beleza, espontaneidade e certeza de que a vida vale a pena.
No entanto, gestos de rejeição, de maus tratos, de indiferença e abandono minam nossa vocação para amar.
Somos desafiados a enfrentar a fome, o preconceito, a luta pela sobrevivência, a desigualdade, palavras e gestos que diminuem a nossa autoimagem e afetam nossa autoestima.
Convivemos com olhares que condenam, julgam e desqualificam nossos dons.
Nossa vida é pautada por expectativas que não consideram nossa vocação existencial, que nos enquadram em modelos prontos, em padrões construídos socialmente e que ignoram a nossa essência.
Leia também: O futuro há de ser inclusivo
Uma sociedade que deposita os valores e as crenças no ter, no acúmulo de bens, na estética, na aparência e na riqueza.
Uma sociedade que não tem tempo para o outro, para brincar e cuidar das crianças, para olhar nos olhos, para desfrutar daquilo que as crianças nos dizem sobre o sentido da vida.
Adultos que terceirizam o cuidado com seus filhos porque não querem perder tempo com os desafios postos pelo amor.
Não têm tempo para visitar os mais velhos, para cuidar, amar, aprender com sua experiência.
As crianças representam a promessa de um mundo melhor e os idosos a sabedoria. Não podemos matar a beleza dessa convivência.
Se negamos nossa ancestralidade e nossa descendência, enfraquecemos a esperança, as raízes, os vínculos, os sonhos e os projetos.
Mergulhar na consciência da nossa finitude significa dar um sentido mais humano e solidário ao nosso cotidiano.
Como resgatar a crença em nós mesmos? Como curar as feridas e voltar a acreditar em nossa potência amorosa? Como romper com padrões que geram tristeza e sentimentos de desistência?
Como criar movimentos coletivos que redefinem valores, restauram a fé e curam asferidas?
Como fortalecer políticas públicas no combate à fome e na criação de equipamentos que oferecem tratamentos psíquicos, emocionais e mentais?
Como formar redes no enfrentamento dos adoecimentos da nossa sociedade?
Sou utópica?
Não, reflito sobre caminhos possíveis e necessários.
Ou sucumbimos ao desânimo, à autoimagem negativa, ao sentimento de impotência diante dos rumos da nossa sociedade ou resgatamos aquilo que nos foi tirado em nossa essência: a capacidade para amar,para ser fonte de luz, para servir e respeitar o outro.
Ou negamos o aquecimento global e ignoramos os caminhos que os seres humanos estão construindo para a destruição do nosso planeta ou assumimos nossa responsabilidade nas mudanças possíveis e necessária para romper com esse ciclo que gera o fim de nossa existência.
Esse diálogo existencial começa na mais tenra idade. Que valores e modelos passamos para os nossos filhos e netos? Que estilo de vida imprimimos em sua formação? Que cuidados e atenção oferecemos para que possam lidar com o sofrimento físico, espiritual, psíquico e mental?
Que gestos concretos podemos imprimir para ressignificar o sentido da nossa vida?
Como criar movimentos de resistência ao ódio, ao egoísmo e ao individualismo?
Como amar, cuidar e proteger nossas crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos?
São questões que tocam apenas a ponta do iceberg, mas que nos levam a ações mais profundas e efetivas que farão a diferençaem nossa passagem por esse mundo.
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55). Se preferir contribuir com um valor mensal, participe da nossa campanha no Apoia-se https://apoia.se/lume-se.
