Que pegadas deixamos em nossa passagem pelo planeta terra?

Somos únicos e singulares. Ao caminhar espalhamos sementes, plantamos flores, cuidamos e somos cuidados, geramos vida, partilhamos o amor.   

O que temos a oferecer que ninguém mais tem? Qual a nossa singularidade? Que dons recebemos e somos chamados a repartir? 

Por que não acreditamos em nossa potência e capacidade de transformação? Que palavras ouvimos na infância e adolescência que nos desqualificaram e paralisaram? 

Nosso planeta está ameaçado de destruição. Nossas florestas devastadas. Mares e rios poluídos. Nossa sociedade está cada vez mais fragilizada e doente. 

Matamos as fontes da nossa existência e bem viver.

Que pequenas atitudes podemos ter para mudar esta realidade?

A pandemia aumentou o isolamento e a solidão. A humanidade sofre materialmente, mas também psíquica e emocionalmente.

Somos desafiados a criar redes de afeto, de apoio, de solidariedade financeira e amorosa. Visitar mais, expandir o amor e a presença amiga. Telefonar, ouvir, acolher, chamar para um café, um passeio. Formar redes e nos colocar a serviço.

Abrir as portas de nossa casa. Criar novos grupos e resgatar os antigos. Estar atentos àqueles que nos rodeiam.

As redes de afeto agregam, unem, reconhecem, cuidam, estimulam, tornam a vida mais leve. O amor circula com mais intensidade, sem excluir, isolar ou discriminar. 

Na rede de afeto todos sentam em círculo, caminham de mãos dadas, buscam soluções conjuntas, cooperam ao invés de competir. Colocam-se de forma construtiva e ativa na dinâmica da vida.

Um obstáculo para que isso aconteça ocorre porque, muitas vezes, gravitamos em torno de uma única pessoa. Agimos como se o outro fosse o sol de nossa vida e nós fôssemos um mero satélite. 

Se dependemos da luz do outro, murchamos, esfriamos, desanimamos, estabelecemos relações de submissão e inferioridade.

Nas redes de afeto rompemos com essa lógica. Todos carregam o sol dentro de si. As ações conjuntas nos aquecem. O grupo tece uma colcha de retalhos com suas experiências e histórias. Todos têm luz própria, todos iluminam, criam, animam, amam e são amados.

Quando participamos de redes de afeto nos libertamos da contabilidade afetiva, em que dou X e espero receber X. Todos dão o melhor de si, mas, ninguém é devedor, tudo acontece na dinâmica da gratuidade e da circularidade. 

Em determinado momento preciso dar mais, em outros preciso receber mais. E isso equilibra o indivíduo, o grupo, as relações sociais, familiares e de trabalho. Fortalece os mecanismos de cuidado com o nosso planeta.

Posso ser generosa com o outro, mesmo que ele não seja comigo naquele momento, mas, a generosidade volta como um bumerangue.

Gratidão gera gratidão. Generosidade gera generosidade. Amor gera amor. 

Somos seres inconclusos, seres de uma asa só. A rede de afeto estabelece relações de complementaridade, nos tira da solidão, do egocentrismo, do individualismo e da autopiedade.

Tenho uma personalidade grupal e gregária. Não sei dizer se por herança ou por oportunidade. 

Durante minha infância, minha criança ficou desamparada e triste. Fui inserida numa rede de afeto com primos e familiares. 

Éramos solidários nas brincadeiras, nos momentos de queda, de ferimento, de doença, também nas comemorações, nos deveres escolares e nas colas durante as provas.

Na puberdade, minha adolescente ficou confusa e raivosa. Fui inserida numa rede de afeto constituída por jovens. O CAC – Comunidade de Amizade Cristã ajudou-me a encontrar o meu eixo. Viajávamos, éramos sensíveis ao social, fazíamos campanhas de solidariedade. Nos reuníamos para jogar vôlei e festar. Celebrávamos a vida à luz do evangelho.

No Científico (Ensino Médio), também construímos uma rede de afeto. Viajávamos e estudávamos em grupo. Reuníamos nas casas dos amigos para fazer um lanche, ver um jogo de futebol ou simplesmente pelo prazer de estar juntos. Saíamos numa kombi e parávamos em jardins da cidade para cantar.

Estudamos em escola pública e não fizemos cursinho para o vestibular. Nos transformamos em professores de nós mesmos. Aquele que entendia melhor de determinada matéria (matemática, física, inglês, português, química, história), dava aula para os demais sobre o conteúdo do vestibular. 

Essa vivência comprovou que a cooperação é mais forte do que a competição: 90 % da nossa turma passou no vestibular. Esta semana teremos um churrasco para comemorar 50 anos de amizade.

Durante a minha juventude e entrada no mundo adulto, fiquei sensibilizada e indignada com as mazelas sociais e as contradições da sociedade, fui inserida numa rede de afeto que se comprometeu com a luta por um mundo melhor. 

Fiz Serviço Social na Universidade Federal do Espírito Santo. A turma era composta por filhas de classe média, de camponeses, de operários, de imigrantes e de domésticas. Traziam na bagagem vivências duras de precariedade e de luta pela sobrevivência. Tinham que trabalhar para sustentar a família e garantir sua subsistência na cidade grande. Muitas eram as primeiras de sua linhagem familiar a ter acesso ao ensino superior.

Na universidade éramos consideradas solidárias, questionadoras, estudiosas, festeiras e ao mesmo tempo, comprometidas com a luta pela melhoria do Curso de Serviço Social e pelo fim da ditadura no Brasil. 

Formamos uma rede de afeto com mulheres fortes, guerreiras, corajosas que não desistiam com facilidade. 

Nos anos 1990, quando nasceu meu filho, surgiram muitas dúvidas sobre a maternidade, inseguranças e medo de errar. Criamos uma rede de mães que viviam desafios semelhantes. 

A partir de cinco anos nossos filhos circulavam entre as casas dos amigos, dormiam, viajavam, passavam férias.

Experiências marcantes de inclusão, pertencimento, identidade, amor, gratidão e enraizamento coletivo.

Vínculos que permaneceram. Nossos filhos voaram, moram em cidades diferentes, mas se encontram com frequência, viajam, fazem trilhas, alugam casas em ilhas paradisíacas, comemoram os aniversários. Apoiam-se também nos momentos difíceis. São mais do que amigos, são irmãos. 

Temos um grupo de 10 mães que continua se reunindo e se apoiando amorosamente.  

Na maturidade senti a necessidade de aprofundar a relação entre fé e vida, inseri-me numa rede de afeto que possibilitou essa busca coletivamente. 

Há 33 anos nos encontramos para celebrar a fé. A nossa história de união teve início nos anos 1970 quando lutamos por um mundo mais justo, humano e igualitário. Renovamos a fé e partilhamos nossas dores, angústias, medos, conquistas e alegrias.

Pertenço também a uma rede de afeto e resistência. Um grupo que se reúne para encontrar formas de contribuir com um Brasil mais igualitário, justo, humano e democrático. Estudamos, buscamos estratégias de participação e formação educativa em espaços da periferia. 

Aos 66 anos, sou classificada como idosa. Participo ativamente de diferentes redes de afeto, criamos as bases para viver com intensidade, densidade, qualidade de vida e esperança. Esse desejo e projeto não se restringe ao meu círculo, mas inclui o Brasil e o mundo. 

Não ficamos indiferentes, nem isolados durante a pandemia. Criamos muitas redes de solidariedade, dezenas de amigos disseram um sim generoso a todas as campanhas.

Os movimentos para formar redes de afeto são contínuos e infinitos. Podem ser pequenas ou amplos, o importante é que sejam tecidas cotidianamente e deem frutos. 

E o maior fruto é o amor, a justiça e a alegria de viver.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)

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