Por Sylvio do Amaral Schreiner*

Muitos pacientes chegam à análise carregando um pedido que, à primeira vista, parece simples: querem uma vida menos atormentada, menos sofrimento. Desejam, em suas próprias palavras, “paz de espírito”. No entanto, conforme o processo analítico se desenrola, o paradoxo se revela: quando finalmente se aproximam de um estado diferente do tormento de antes, algo inesperado acontece. Isso, longe de ser vivido como alívio, passa a ser experimentado como incômodo. O sujeito então, sem perceber, movimenta-se para destruir essa experiência. Cria um conflito desnecessário e a mudança tão desejada anteriormente torna-se insuportável de suportar.

É como se uma parte da mente não tolerasse mudanças, sentindo-se compelida a produzir ruídos, dramas e agitações. Assim, o sofrimento volta a ocupar seu lugar de protagonista. O sujeito, mesmo sem querer conscientemente, recria as mesmas situações dolorosas, como se precisasse retornar sempre ao terreno já conhecido. Esse “retorno ao sofrimento” oferece uma paradoxal sensação de familiaridade e segurança. A dor, por mais penosa que seja, é uma velha conhecida. A mudança de estado de mente, em contrapartida, é vivida como um território estrangeiro, que desperta ansiedade.

Foto: Salman Hossain/Unsplash

Muitos indivíduos acabam construindo suas identidades sobre o sofrimento. Ele passa a ser não apenas uma experiência dolorosa, mas também aquilo que organiza e dá contorno ao Eu. Sofrer se torna uma maneira de se reconhecer e de se justificar diante do mundo. Por isso, ao entrar em contato com momentos de bem-estar, muitas pessoas sentem como se perdessem algo essencial de si mesmas.

Essa contradição não está apenas no nível individual, mas também no social. Vivemos em uma cultura que, muitas vezes, valoriza mais o sofrimento do que o bem-estar. A vida só é considerada séria e legítima se estiver marcada por dores. Felicidade, calma e satisfação tendem a ser vistas como superficiais ou mesmo como algo a desconfiar. Como se o sofrimento fosse sinônimo de profundidade, e o prazer, de futilidade. Essa lógica cultural reforça a tendência inconsciente de cada um de nós a não se permitir usufruir de estados bons da mente.

A psicanálise nos ajuda a compreender que não é o mundo externo que constantemente nos machuca, mas nossa própria dificuldade em aceitar e sustentar estados de bem-estar. É como se houvesse um boicote interno, uma força psíquica que insiste em nos puxar de volta para o lugar familiar da dor. O trabalho analítico convida justamente a atravessar essa estranheza e a reconhecer que muitas de nossas dores são criadas ou intensificadas por nós mesmos.

O sofrimento é parte inevitável da condição humana. A análise não promete uma vida sem dor, mas pode ajudar a deslocar o lugar que a dor ocupa na vida psíquica. O sofrimento deixa de ser o único eixo organizador da existência e passa a dividir espaço com o prazer, com a calma e com a criatividade. Assim, o bem-estar, antes vivido como uma ameaça, pode ser reconhecido como um direito possível e legítimo.

Em última instância, a análise convida a descobrir que a vida não precisa ser uma sequência de problemas para ser significativa. É possível encontrar sentido também na leveza, no silêncio, na alegria. É necessário coragem de suportar o desconhecido que é viver bem, coragem de abandonar a identidade construída sobre a dor, coragem de permitir que o prazer não seja uma visita incômoda, mas um hóspede legítimo na casa da mente.

*Sylvio do Amaral Schreiner (CRP 08/11179) é psicoterapeuta e psicanalista membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Curitiba (SBPCuritiba), atendendo adolescentes e adultos em seu consultório em Londrina. É colunista da Folha de Londrina e escreve quinzenalmente na Rede Lume.