Por: Vinícius Fonseca*
Resolvi começar um texto com uma pergunta que muitos de nós, trabalhadores com alguma deficiência já ouvimos; a sua empresa é inclusiva?
As políticas de diversidade e inclusão têm ganhado cada vez mais espaço nas agendas das empresas. É bem verdade que se fizermos um recorte dos últimos meses, essa agenda tem sofrido questionamentos, mas quando olhamos os últimos anos podemos dizer que sim, ela tem tido espaço nas grandes organizações.
Geralmente essas políticas vêm acompanhadas do discurso seguinte: A diversidade e a inclusão são fundamentais, pois dão oportunidade para pessoas que pensam diferente e isso ajuda a empresa a trilhar caminhos nunca imaginados antes.
Essa talvez seja uma verdade, porém, não é mais verdadeira que a seguinte, diversidade e inclusão é um tema em alta e faz bem para o marketing.
Passar uma imagem de boa empresa, regrada e comprometida com questões sociais gera capital de imagem e isso tem impacto direto no consumo da marca e consequentemente no seu lucro. É preciso perder a inocência de achar que as empresas fazem da diversidade e inclusão uma bandeira por acreditarem em um mundo melhor.
Esse até pode ser o pensamento de alguns dos envolvidos no processo, no entanto, esse sentimento é só parte de algo bem maior, o lucro. Peço desculpas aos leitores que me acharem pessimista até aqui, mas mais vale uma verdade dolorida do que a doce fantasia da mentira.
Fiz essas considerações iniciais em razão do que me motivou a escrever o presente texto. Essa semana eu estava navegando pelo LinkedIn (essa coluna também pode ser lida lá), e me deparei com dois casos. No primeiro, uma moça contava que um parente havia sido demitido pela empresa, que alegou dificuldade de adaptação do colaborador, detalhe, o trabalhador tem Transtorno do Espectro Autista (TEA). No segundo caso uma pessoa cega alegava que havia sido eliminado de um processo seletivo para uma vaga para Pessoa Com Deficiência (PCD) justamente por ser cega.
No primeiro caso o post dizia que isso era absurdo e que era muito difícil ser TEA e que as empresas não estavam preparadas para esse público. Ela optou por focar apenas na dor da pessoa que lhe era conhecida e daqueles que compartilham da mesma deficiência. No segundo caso, a pessoa se queixava de ser excluído de um processo seletivo PCD sendo que era PCD e que as empresas não estavam preparadas para receber pessoas cegas.
O que talvez eles não tenham percebido? Que na verdade as empresas não estão preparadas para receber as pessoas com deficiência, independentemente da sua deficiência.
O ponto é mais simples do que se parece. As empresas, mesmo aquelas que se orgulham de ter a bandeira da diversidade e inclusão, na verdade promovem apenas a diversidade, no sentido de que têm colaboradores diversos, mas não promovem a verdadeira inclusão.
Primeiro porque não conseguem atender todas as deficiências. Segundo porque não fazem muitos esforços para tornar isso possível e se fazem, o fazem de maneira lenta.
Terceiro porque a julgar pela série de relatos que se tem espalhados pelo próprio linkedin, pessoas com deficiência são contratadas, mas raramente conseguem oportunidades concretas de desenvolvimento de carreira e crescimento profissional.
Qual a saída para tudo isso? Eu não tenho a resposta para isso, mas pensei o seguinte. Se nós que conhecemos pessoas com deficiência, ou somos pessoas com deficiência pararmos de focar apenas nas deficiências próximas a nós e nos uníssimos contra todo e qualquer tipo de discriminação.
Exigíssemos das empresas uma postura mais inclusiva de fato, talvez aí mudaríamos algo.
*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente, ou quase…
