Por Beatriz Herkenhoff*

As palavras são cravadas em nossa mente, corpo e alma.

Gravadas em nossos corações.

Geram sentimentos de pertencimento, enraizamento, reconhecimento, amor, aceitação e alegria.

Estimulam o crescimento, a independência e a autonomia.

Despertam a gentileza, a compreensão e a valorização do outro.

Acalmam, acalentam e adormecem.

Resgatam a potência do existir quando afirmamos para a criança:

Você é capaz, inteligente, competente, amorosa, linda, criativa, intensa, ética e cuidadosa.

As palavras fortalecem a fé. Percorrem lugares distantes para acolher, amar e construir.

Anunciam a paz, trazem a esperança e a certeza de que o amor vence.

Alegram o cotidiano das crianças com livros, filmes, peças teatrais e eventos culturais.

Ao mesmo tempo, as palavras são contraditórias.

Espalham amor e ódio.

Unem e dividem.

Acolhem e julgam.

São delicadas e abusivas.

Verdadeiras e mentirosas.

O que falamos e como falamos importa/Foto: Clem Onojeghuo/Unsplash

Também despertam sentimentos de indiferença, rejeição, abandono, invisibilidade, tristeza, desamor, distanciamento e desqualificação.

Explodem num grito de socorro e denúncia.

Palavras que ecoam com força em nossa mente e nos fazem acreditar naquilo que não é real:

Você não vai ser nada na vida”.

Você é burro, fraco, desajeitado, lento, confuso, desorganizado, feio, gordo, magro, pobre.” “Você é a vergonha da família.”

Palavras que machucam, paralisam, fazem eu duvidar de mim, de minha raça, do meu povo, de minhas competências e qualidades.

Palavras que ameaçam, submetem e subjugam.

Que ampliam o preconceito, a exclusão de cor, classe e gênero.

Que palavras são difundidas nos meios de comunicação e nas redes sociais que dividem e destroem?

Que palavras foram ditas que você repete inconscientemente?

Sou azarado, desorganizado, disperso, distraído. Nada do que faço dá certo” ou “sou capaz, vou vencer, vou superar os medos”, “vou recomeçar.

Acuso-me, culpo-me e rejeito-me a partir daquilo que falaram sobre mim e sobre a minha família?

Como apagar as palavras que magoaram?

Como neutralizá-las?

O que fazer com as palavras que reduziram minha autoestima e autoconfiança?

Como dar um salto qualitativo e perceber que aquelas palavras não falam sobre mim, mas sobre quem as pronunciou?

Como posso construir um novo repertório sobre as minhas capacidades e ser mais confiante?

Como posso ressignificar o passado?

Como reinterpretar a história?

Como reescrever a história?

Como posso presentear-me com palavras que o mundo me negou?

Como cuidar de mim e do próximo?

Como impedir que o outro tenha poder para definir quem sou e como quero ser?

Como fazer esse processo coletivamente?

Como reeducar mentes e corações?

Não importa o que dizem. O que eu digo? O que os grupos aos quais pertenço dizem? Quais palavras afirmo sobre mim que me edificam ou destroem?

Qual uso estou fazendo das palavras? Estou bendizendo ou maldizendo? Anunciando a verdade e o respeito ou a mentira e a maledicência?

Como fazer coletivamente todo esse processo e ressignificar o poder da palavra?

Que nossas palavras sejam fonte de amor, de luz, de empatia, solidariedade e transformação!

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)