Por Beatriz Herkenhoff*

A cada virada do ano estabelecemos novas metas, projetos e desejos de mudanças.

Queremos recomeçar sob novas bases. Romper com o que nos amarra e entristece. Agradecer por todas as conquistas e encher
nossa vida de esperança e certeza de que novas oportunidades nos aguardam.

Vivemos num mundo em que predomina a pressa, a competição, a busca desenfreada pelo sucesso e pelo corpo perfeito.

Seres humanos movidos pela ganância, pela falta de diálogo, por preconceitos, exclusões, corrupções, conflitos e guerras.

Nesse cenário tão devastador, somos convidados a viver o contraponto. Amar com generosidade, cooperar com aqueles que nos cercam, formar grupos de autoajuda, visitar e ser visitado.

Parar para ouvir, interagir, acolher, dialogar, valorizar, incluir e solidarizar. Criar alternativas coletivas de sobrevivência e
relacionamentos que contribuem com a paz e o respeito.

Atitudes que possibilitam a vivência do amor em sua plenitude.

Foto: Carlos Monteiro

Plenitude vem do latim plenus, que significa completo, cheio, inteiro, satisfeito.

Mas não é uma plenitude que se fecha em nosso egoísmo, prepotência, vaidade, agressividade, orgulho, complexo de
superioridade ou de inferioridade.

Quando estou inteiro transbordo um amor sensível, solidário, atento às necessidades humanas e às demandas da natureza. Um amor
que cura e transforma.

Nascemos plenos de amor. A experiência do bebê no útero é de plenitude em sua potência máxima. Mas ao nascer, sentimos os
impactos do desamor, da rejeição, do abandono e do vazio existencial.

O amor pleno passa a ser uma construção cotidiana, um aprendizado permanente, um eterno recomeçar, uma tentativa de
deixar rastros que façam a diferença em nossa passagem por esse mundo. Legados que edifiquem, agreguem e unam.

Ninguém vai nos completar plenamente, mas quando caminhamos de mãos dadas, encontramos inúmeras formas de nos fortalecer em
nossa capacidade de amar e servir.

O amor em sua plenitude questiona, desestabiliza, arranca do comodismo e mobiliza para o bem comum.

Para atingirmos a plenitude em nosso jeito de amar temos que mergulhar em nossas verdades e contradições. Ter humildade e coragem para admitir nossas limitações e nos aceitar com o nosso jeito de ser.

O amor pleno inclui o aprendizado do amor próprio. Cuidar do nosso corpo, da mente, das emoções e do nosso espírito.

Ter tempo para o exercício físico, para um acompanhamento terapêutico, para o descanso e para a vivência da fé.

Para amar o próximo, temos que nos amar em primeiro lugar.

Tarefa nem sempre fácil. Muitas vezes cuidamos do outro e não cuidamos de nós mesmos.

É necessário permitir que o amor crie raízes em nossas entranhas.

Só assim ele se expande e brota com força em tudo que fazemos, tocamos, pensamos, falamos, escrevemos e criamos com os
talentos que recebemos.

Quando somos comprometidos com a vida, estamos atentos àqueles que menos têm.

Não podemos amar o mundo e o próximo se o amor que há em nós está sufocado pela mágoa, pela autopiedade, pela apatia e pelo
desânimo.

Para amar o próximo como a nós mesmos, precisamos curar as feridas, renascer das cinzas, permitir que a potência de vida, de amor e de luz se espalhe e conduza nossos passos, decisões e tudo que nos cerca.

Ao vivermos o amor em sua plenitude, o isolamento incomoda, somos movidos a criar redes de apoio, de afeto, de resistência, de
fé, de lazer e de um mundo mais humano e justo.

Sim, a plenitude do amor se compromete com os desvalidos e abandonados que buscam um recanto para plantar, colher,
repousar, descansar e trabalhar com dignidade.

A plenitude não é alcançada individualmente, mas coletivamente.

O Amor pleno não é indiferente ao que acontece no mundo. Cria estratégias para a sobrevivência do nosso planeta.

O amor pleno é irrequieto, não se conforma com a fome, com a desigualdade e com o preconceito. Não maltrata as crianças, os
jovens e os idosos. Não estabelece fronteiras para o bem viver.

Quando somos instrumentos do amor de Deus, nossas atitudes se tornam plenas.

Sou pleno quando numa relação amorosa, amo e sou amado, dou e recebo prazer e alegria. Reconheço e sou reconhecido. Valorizo e
sou valorizado. Sou ético, respeitoso e inclusivo. Dou o melhor de mim e recebo o que o outro tem de melhor.

Ao mesmo tempo estabeleço limites, não me submeto a relações tóxicas e abusivas.

O amor murcha e deixa de ser pleno quando não respeita e não é respeitado. Quando age com violência, desqualifica, diminui e humilha o outro.

Como ser pleno se as nossas florestas, rios, mares, fauna e floras não estão vivendo em sua plenitude original?

Como ser pleno se os nossos povos originários estão sendo dizimados?

A plenitude não é dada, é construída.

Que o amor pleno que há em mim dialogue com o amor pleno que há em você. 

Que a plenitude do amor nos tire da solidão, nos leve a participar de redes de apoio, de afeto e de solidariedade.

Que o amor resgate a esperança, a humanidade, a paz, a igualdade, a justiça e o diálogo entre povos, etnias, raças e religiões.

Que nosso olhar e os nossos gestos amorosos transformem o mundo.

Desejo um 2024 pleno de amor, alegria, paixão, compaixão, misericórdia e compromisso com um mundo melhor.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)

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