Por Beatriz Herkenhoff*
Há 28 anos participo da Comunidade Ambiental (Comam). Pequena comunidade de fé, vida e partilha do afeto e da solidariedade.
Vinculada à Igreja Católica (Vitória, ES), a Comam tem um viés ecumênico, com a participação de outras denominações religiosas, como membros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana.
Celebramos de 15 em 15 dias para orar, partilhar nossos sonhos e desejos de um mundo mais humano e justo. Temos como referência os ensinamentos de Jesus na construção de um Reino de amor, justiça e paz.
Ao celebrar a vida, entregarmos nossa pequenez e impotência, vamos ao encontro dos mais empobrecidos e vulnerabilizados.
Olhamos nos olhos, valorizamos, reconhecemos, anunciamos, denunciamos, esperançamos e nos comprometemos.
Hoje vivemos o luto, a tristeza e a dor com a partida para a vida eterna do querido e amado padre Alberto Fontana. Nosso padre, pastor, confessor e orientador espiritual. Amigo presente em todas as horas.
Ficamos órfãos, paralisados, sem saber como agir, o que fazer, o que falar ou escrever.

Mas, Alberto nos preparou para vivermos esse momento com esperança e gratidão. Ele plantou sementes que se espalharam e deram frutos. Resgatou a nossa potência, fé e capacidade de amar. Com suas homilias e reflexões nos ensinou sobre o amor infinito e misericordioso de Deus.
Um Deus que nos aceita como somos, que não acusa, não condena, não aponta o dedo, não é vingativo e não gera culpa.
Um Deus de puro amor que está sempre de braços abertos para acolher os seus filhos.
Alberto contribuiu para que amadurecêssemos na fé, no compromisso com os irmãos e na partilha do amor de Deus, tendo as ações e ensinamentos de Jesus como norte.
Por isso não estamos sós. Ele nos ensinou que quando caminhamos de mãos dadas somos sustentáculo para o crescimento individual e coletivo.
Alberto esteve presente em todos os momentos difíceis da Comam. Quando alguns adoeceram, ele levou a sua benção, o sacramento da unção dos enfermos, a palavra de fé e de vida.
Esteve presente também nos momentos de alegria, batizou a maioria de nossos filhos e ministrou vários casamentos.
Sempre presente em nossos aniversários, telefonando, enviando bençãos e lindas palavras de amor.
Ele ouviu, orientou, suscitou questionamentos e um novo olhar sobre o nosso testemunho como cristãos. Estimulou o diálogo, o silêncio, a escuta e a negociação. O reconhecimento e a valorização do outro.
Nos convidava a semear o amor, a transformar o cotidiano, a lutar por um mundo melhor, a resistir à violência e ao ódio.
Não estamos órfãos. Pertencemos a uma comunidade de fé e afeto.
Alberto deixou um lindo legado de amor e nos convidou a dar continuidade.
Sabendo que não seria eterno, suscitou a nossa autonomia na condução das celebrações, a criatividade na vivência da fé e no comprometimento com a vida.
Há um ano, quando percebeu que sua vida estava próxima de uma passagem para a eternidade, nos ensinou a serenar e confiar no infinito amor de Deus quando a morte está próxima. Criou as bases para que seguíssemos em frente com a Comam, mesmo quando ele não estivesse mais aqui.
Juntos vamos dar continuidade ao seu legado. Fazer memória às suas contribuições. Entre tantas citaria: foi coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Vitoria e da Cáritas; Coordenador da Grande Avaliação da Arquidiocese de Vitória; Vigário Pastoral do Setor Aribiri-Ataide – Cavaliere, de 1984 a 1992. Mentor do Prêmio Dom Luis Fernandes instituído pela Lei Estadual n. 7844 de 25 de agosto de 2004 (uma forma de reconhecer quem luta pela justiça social e pelo respeito aos direitos humanos e pelo cuidado com o meio ambiente.
Comprometimentos que fizeram a diferença na vida da Igreja e das comunidades.
Falando particularmente sobre a Comam, foram muitos os ensinamentos e aprendizados. Alberto nos motivou a construir, acrescentar, edificar, resgatar e recomeçar.
Nos ajudou a pertencer, a criar raízes, a ir ao encontro do outro. A dizer não ao preconceito, à violência, à exclusão, à discriminação e à morte. A preservar nosso planeta, rios, mares, matas e florestas.
Alberto em sua simplicidade e humildade não permitiria que escrevêssemos tudo isso. Mas, como nos deu autonomia enquanto seres caminhantes na construção do Reino de Deus, escrever sobre os seus ensinamentos é uma forma de nos unir na despedida, de elaborarmos sua perda e darmos continuidade aos seus legados.
Padre Alberto presente para sempre em nossos corações e ações!
Gratidão por tudo! Receba nosso amor incondicional.
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
