Por Beatriz Herkenhoff*
São Francisco de Assis amou lindamente os pobres e os animais. Cuidou dos animais como se fossem seus irmãos.
São famosas suas histórias quando amansou um lobo feroz que atacava rebanhos. Também suas pregações para os pássaros e outros animais que reagiam como se estivessem entendendo.
Com suas atitudes, São Franciso motivou a compaixão e a proteção aos animais.
Observo que cresceu o número de pessoas que adotam animais. Mas, infelizmente, aumentou também o número de cães abandonados.
Em Guarapari (e outras praias) tem muitos cães que estão andando em bando porque foram abandonados por seus donos. Meu coração dói quando os vejo.
Tem aumentado o número de organizações protetoras dos animais, bem como gestos de proteção e solidariedade.
Caminhando em Guarapari, no período de janeiro a fevereiro, todos os dias observava uma senhora que parava seu carro e colocava, na calçada da praia da castanheira, potes com água e comida. Os cães já ficavam esperando por ela todos os dias naquele horário.
Aproximei-me e em conversa descobri que era um gesto isolado, ela não pertence a nenhuma associação protetora dos animais. Mas fielmente circula pela manhã e à tarde em quatro praias distintas em Guarapari para alimentar os cães.
Thaís Girro trabalhou por longo tempo na ONG Dignidade Animal, em Maringá, no Paraná.
A ONG começou com poucos animais e hoje tem 300. Os cães são resgatados quando são atropelados ou abandonados porque ficaram velhos e doentes. Tem casos de cadelas que tiveram filhotes na rua.
Thais relata: “Somos comunicados e vamos recolhendo. No entanto, tem animais que nunca são adotados, principalmente os idosos, os que são feios ou os que estão doentes. E passam a morar na ONG”.
Como eles têm gastos com ração, medicamentos, castração, internação e tratamento de animais debilitados e cobertores no inverno, os voluntários buscam o apoio da sociedade, por meio de bazares beneficentes.
Fico muito sensibilizada e tocada por essas histórias. Por gestos de amor e dedicação aos animais.
Minha primeira e única experiência com um animal de estimação foi quando presenteamos meu filho Stefano com um gato. Ele já tinha 12 anos, era um desejo antigo e achamos que estava na hora de atendê-lo.
Pretinho nasceu em dezembro de 2002 e chegou em nossa casa em março de 2003, com apenas três meses. Ficamos encantados com sua beleza, um bebê com pelos pretos e brancos. Raça não definida.
Transformou a dinâmica da nossa casa. Sempre alegre, brincalhão, esperto, amoroso. Curioso, corria para todos os cantos, explorava tudo. Saltava como um atleta, ora aparecia no alto da geladeira e das estantes, ora desaparecia e tínhamos que descobrir seus esconderijos.
Sempre amou beber água corrente do tanque. E hoje, com 20 anos, ainda tem agilidade para dar um salto e saciar sua sede. Quando está a postos, mia alto para abrirmos a torneira.
Pretinho nos envolveu por inteiro, gerou responsabilidade, exigiu cuidados, possibilitou brincadeiras criativas. Gostava de deitar em nosso colo. Mas, como bem diz Stefano, tinha personalidade forte, por isso não gostava que o agarrássemos. Subia espontaneamente, livremente, nunca quando o pegávamos.
E na medida em que foi crescendo, já não optava pelo colo. Sentava silenciosamente ao nosso lado. Ficava em sintonia. E nos acompanhava quando mudávamos de cômodo para fazer tarefas diferenciadas.
E quando as visitas chegavam, se apossava de suas malas. Era preciso um malabarismo para tirá-lo.



Pretinho nunca deixou que déssemos banho ou cortássemos suas unhas. Por isso, levávamos ao petshop uma vez por mês. Ele nunca gostou de sair de casa. Desaparecia e se posicionava em lugares difíceis de pegá-lo. E quando conseguíamos colocá-lo na casinha, fazia um escândalo. Chorava com força. Quem ouvia achava que estava sendo torturado. Mas, ao chegar no pet, era manso e sereno durante o banho e, ao voltar para casa, não dava um pio porque sabia que o destino era seguro.
Nossa casa sempre teve muitas crianças circulando e Stefano, seus primos e primas, seus amigos e amigas reuniam-se em torno do Pretinho para brincar.
Stefano afirma: “Amo o Pretinho por tudo que ele é. Ele ensinou-me muito. Antes eu achava que todos os animais eram iguais. Pretinho sabe o que quer, é independente, odeia que forcem ele a fazer qualquer coisa. Quando isso acontece, reage arranhando”.
E justamente por essas reações repentinas, eu sempre alertava as crianças para brincar mantendo a distância. Mais tarde, descobri que todos os amigos de Stefano em algum momento foram arranhados por Pretinho. Ele era famoso no seu jeito de colocar limites!!!!!
Quando envelheceu, ficou mais dócil. Recentemente, fiz a noite do pijama aqui em casa com Ana Vitória (5) e Beatriz (11). Ana Vitória pegou Pretinho no colo e fez uma farra. Nós, morrendo de medo, avisávamos que ele poderia arranhá-la. E ela respondia: “Pretinho é muito bonzinho, ele não arranha, ele é fofo, só falta ser rosinha para ser mais lindo ainda”.
Em 2013, Stefano casou e foi morar em Salvador. Pretinho estava com 11 anos e decidimos que ele ficaria em Vitória. O gato é do território e em Salvador Stefano e Gabrielle iriam mudar inúmeras vezes e isso desestabilizaria o Pretinho.
Sozinha, construí uma rede de amigos e familiares para cuidar do Pretinho quando eu viajava. Pessoas carinhosas que amavam Pretinho: Penha, a zeladora, vinha todos os dias no início e final do seu expediente, Renato (pai de Stefano) aos sábados, D. Cândida (minha vizinha querida) aos domingos, e depois que ela faleceu, Roseane, outra vizinha querida, assumiu esse lugar. Rodeado de amor, ele ficava muito bem durante minha ausência. Sou grata a todos e todas.
E quando Stefano vinha a Vitória era uma festa. Pretinho o reconhecia e entrava em sintonia amorosa.
Stefano ficou muito impressionado quando fez uma cirurgia que exigia repouso e passou três meses em Vitória. Todos os dias, às 19 horas, Pretinho entrava em seu quarto e deitava no seu colo e ficava ronronando, como se estivesse mandando vibrações. Stefano afirma: “Depois li sobre o tema e vi que a atitude do Pretinho tinha efeitos curativos. Depois de mais de 10 anos sem subir em meu colo, ele passou a subir todos as noites, é algo meio sobrenatural, como se ele tivesse um sexto sentido”.
Decidi escrever esta crônica porque Pretinho completou 20 anos, sempre teve uma saúde perfeita. Nunca adoeceu. E de repente, nos surpreende com um tumor no intestino. Começamos a quimioterapia e ele está muito enfraquecido.
Oramos por ele e pedimos a proteção de São Francisco. Que ele não sofra. Pretinho vai fazer muita falta, faz parte da casa e da família. Estamos em processo de despedida. Stefano gostaria de estar aqui. Na realidade, está unido em sintonia de amor e gratidão ao Pretinho por tudo que ele nos proporcionou.
Todos os dias converso com Pretinho em meu nome, de Stefano e de Renato. Com seus olhos verdes, encara os meus e me responde: “Gratidão, fui muito feliz em sua casa. Muito amado e feliz”.
E eu tenho certeza disso. Demos o melhor em amor, carinho, atenção, alegria e liberdade. Demos a melhor ração e o melhor acompanhamento veterinário. Gratidão ao Dr. Thiago e Dra Karine por tanto amor e competência.
Justamente por tudo isso Pretinho viveu mais do que a média de idade dos gatos.
Quero encerrar com as lindas palavras de solidariedade da Thais Guirro: “Meus sentimentos, Bia, nesse processo de despedida. Os animais de estimação são como filhos. Nosso coração, nossos órgãos, nosso cérebro, nossas emoções sentem a perda como a de um ente querido. Os animais são seres muito evoluídos espiritualmente porque nos trazem paz, amor, carinho, fidelidade e gratidão”.
Que a minha experiência individual se transforme em coletiva. Que o legado deixado por Pretinho me leve a gestos concretos de amor em relação aos animais.
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX. A chave é o CNPJ 31.330.750/0001-55.
