De 2013 a 2022, a fotógrafa Vera Godoi dividiu seu tempo entre a redação de jornal e os registros das festas da Guarda de Moçambique, em Belo Horizonte: o resultado é o foto-livro “Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário do Bairro Alto dos Pinheiros”
Carlos Monteiro
Fotos: Vera Godoi
A fotógrafa Vera Godoi poetiza com imagens um tema sagrado de sua aldeia, daquelas que retratam o mundo. Durante longos anos – de 2013 a 2022 -, a mineira dividiu seu tempo entre o trabalho na redação de jornal e os registros das festas e encontros da Guarda de Moçambique, em Belo Horizonte. O resultado é o foto-livro “Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário do Bairro Alto dos Pinheiros”, lançado em agosto, com recursos da Lei de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte e editado pela Páginas Editora.
Quando ouviu os sons dos tambores, Vera tinha 6 anos e deles nunca se esqueceu. Adulta, começou a se interessar pela fotografia e a fazer dela a relação com o congado do Bairro Alto dos Pinheiros. “A cada ano tirava até mil fotos, capturando imagens das comemorações, rituais, cantigas visitas às casas de congadeiros e admiradores”, conta a fotógrafa, com anos de experiência no fotojornalismo e como professora universitária. Para ela, a presença das crianças no cortejo do Congado é um importante destaque, dando alegria e ternura às festas da Guarda de Moçambique.
Os ‘congadeiros’ estão espalhados nas páginas e suas cores são de dias de festa. As celebrações de coroação, as cantigas, a comida, as viagens, as bênçãos, os costumes que passam de pais para filhos só poderiam produzir um livro com energia tão alta quanto a fé do povo da Guarda. São belas fotos também na “troca de moeda”, quando as visitas são mútuas, e nas idas a Aparecida do Norte (SP), quando fica óbvia a vinculação do reinado à igreja católica. “Quando dois Rosários se encontram, une-se o céu e a terra, um só povo, um só coração, soa tambor, canta tambores”, diz o Capitão Geraldinho. A professora Leda Maria Martins assina o prefácio, e atesta o valor da publicação de Vera Godoi. “Os Reinados, também conhecidos como Congados, são uma das manifestações culturais mais ricas e expressivas dos saberes banto do nosso país”, diz ela.
O livro traz frases de membros da Guarda, como a de Elizangela Santana: “A bandeira levantada significa a ligação da terra com o céu e proteção de Nossa Senhora e de todo o povo que virá atrás dela”.




Os ‘congadeiros’ têm suas experiências pessoais retratadas no livro. “Em 1998, Capitão Raimundo, regente da Guarda, colocou Bandeira na minha mão e disse: agora você é bandeireira até Nossa Senhora permitir”, afirma, no livro, Marlene Fernandes dos Santos, na atividade há 23 anos. “Quando dois Rosários se encontram, une-se o céu e a terra, um só povo, um só coração, soa tambor, canta tambores”, diz o Capitão Geraldinho.
As belas fotos retratam os 14 ritos, como “Eu vou no rosário eu vou”, “Congá”, “Mesa sagrada” e outros, além de algumas viagens dos membros da Guarda. Um destaque é a visita a Aparecida do Norte, com imagens amplas ou de detalhes.
Vera Godoi já estava realizada com a fotografia, a arte que escolheu para sua vida, e agora se regozija com o livro, que foram distribuídos gratuitamente aos membros do Congado no lançamento. Ela quis, e conseguiu, eternizar em fotos a cultura de um povo no espaço urbano de uma capital de dois milhões e meio de habitantes. Afinal, desde os 6 anos tem contato com essa cultura do povo-preto, pela qual se apaixonou.
Os 14 ritos da Guarda de Moçambique, do Bairro Alto dos Pinheiros, ficam agora, no foto-livro, para sempre retratados, e uma cultura oral e familiar passa a ter um registro físico. Dentre tantos livros publicados para contar os costumes do povo brasileiro, este faz todo o sentido na eternização da memória brasileira.
*Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.
Leia também:
‘Lista de tarefas do mundo 2022’ promove 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU
A Rede Lume acredita em um jornalismo mais humano e diverso. Somos três jornalistas e sete colunistas que escrevem sobre assuntos diversos dentro da temática dos direitos humanos. Clique aqui para ajudar o jornalismo da Rede Lume.
