Lideranças denunciam ataques mesmo com decisão que suspendeu as reintegrações e garantiu assistência da Funai nas retomadas

Cecília França

No último dia 2 de agosto, o desembargador federal Luiz Antonio Bonat, do Tribunal Regional Federal da 4 região (TRF4), suspendeu a reintegração de posse de áreas da Terra Indígena Guasu Guavirá, no Oeste do Paraná, atendendo a um recurso da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da Advocacia-Geral da União (AGU). A decisão também garantiu assistência, pela Funai, às famílias presentes na retomada, o que havia sido proibido por liminar anterior em favor dos municípios de Guaíra e Terra Roxa.

A decisão, porém, não trouxe alívio para os Avá Guarani e lideranças seguem relatando ataques violentos. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), uma liderança Avá-Guarani contou que a comunidade Ara Poty já sofreu ao menos dois ataques a tiros desde que a decisão do TRF-4 foi proferida.

“Tem uma estrada de chão bem perto da retomada. Sempre que passam ali, atiram. E até hoje não parou. Os tiros acontecem a qualquer momento, a qualquer hora. Ontem [6 de agosto] à noite, pelas nove e meia, deram tiros bem próximos à nossa retomada. Depois que suspenderam a reintegração de posse, já deram tiros em cima de nós duas vezes. A camionete passa e atira”, relata a liderança.

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Ele conta que os ataques costumam ser rápidos, o que dificulta o registro das ações violentas em vídeo pelos indígenas, que estão sem poder se locomover.

“A gente nem sempre consegue gravar, porque é muito rápido. Eles atiram e já saem”, descreve. “O Avá-Guarani não consegue sair da retomada para procurar alimento para as crianças, materiais de higiene. Quando a gente sai, o proprietário já está em algum lugar caçando o Avá-Guarani, dando tiro em cima”.

A violência contra os Avá-Guarani tem sido contínua e disseminada contra todas as retomadas da região. Nesta quarta-feira (7), outra comunidade indígena da TI Tekoha Guasu Guavirá também sofreu ameaças.

Família teve barraco destruído

Na tarde de terça-feira (7), homens numa camionete destruíram o barraco de uma família Avá-Guarani do tekoha Ara Poty, uma das retomadas estabelecidas pelos indígenas no interior da TI Guasu Guavirá. A ação truculenta (foto em destaque) foi filmada pelos próprios fazendeiros, que afirmaram ter autorização da Funai para a retirada.

Segundo o relato de uma liderança ao Cimi, os fazendeiros que destruíram o barraco estavam acompanhados da Força Nacional, que se encontra na região desde janeiro de 2024. “Em torno das duas e meia da tarde, entrou uma camionete (na área de retomada), que veio acompanhada pela Força Nacional”, relatou a liderança. “Veio de repente e já chegou em um barraco. O proprietário conseguiu arrancar todo aquele barraco, colocou na camioneta e levou tudo. Foi um ataque. Naquele barraco mora um casal, quatro crianças e um idoso. Foi bem rápido. Quando fomos nos juntar para ver, a camionete saiu e foi embora. O casal ficou sem barraco. Foi um crime, queremos justiça”.

Assista ao vídeo no Youtube do Cimi.

Em suas redes, a Comissão Guarani Yvyrupa, que congrega coletivos do povo Guarani no Sul e Sudeste do país, também reafirmou o clima de tensão, mesmo após a decisão do TRF4.
“Embora a decisão seja importante e garanta a permanência das tekoha nos locais, as ameaças e o clima de tensão não cessam. Um exemplo é a destruição de um barraco na Tekoha Ara Poty por fazendeiros, denunciada ontem pela CGY.”
A Comissão lembra que o Tribunal, além de suspender a reintegração e devolver à Funai o direito a assistência, também suspendeu trechos que impediam a Itaipu Binacional de adquirir terras como medida de reparação aos Ava Guarani pelo alagamento de seu território durante a construção da usina.

O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) anunciou, em julho, para ter início em agosto, a criação de um Grupo de Trabalho sobre os conflitos no Oeste paranaense, tendo a Itaipu como uma das participantes.