Por Vinícius Fonseca
Em 23 edições e mais de 200 participantes passando pela casa mais vigiada do Brasil, pasmem, só uma participante até hoje se dizia declaradamente pessoa com deficiência
Começou o reality show com mais tempo no ar na televisão brasileira. Sim, estou falando da edição 23 do Big Brother Brasil ou BBB, para os mais íntimos.
Talvez uma dúvida ronde nossas cabeças agora: afinal a intenção desta série de textos não é falar sobre pessoas com deficiência, mercado de trabalho? Não deveria abordar assuntos mais sérios do que perder tempo com o que alguns poderiam classificar como “cultura inútil”?
Quando falamos de pessoas com deficiência, falamos também de espaços que elas podem ocupar. Se falamos de mercado de trabalho, também devemos falar de como o mercado deve enxergar esse público como consumidor.
Sim, eu classificaria a relação trabalho e consumo como uma via de mão dupla. Se uma pessoa com deficiência (PCD) trabalha, o faz para que outros e ela mesma possam consumir do fruto de seu trabalho.
O BBB nada mais é do que um produto da indústria do entretenimento. Isto posto, podemos analisar alguns aspectos interessantes da atual edição no que tange ao público PCD.
Para começar, a internet toda “pirou” ao ver os participantes se descrevendo de forma detalhada para que pessoas cegas ou com baixa visão pudessem imaginar como são os brothers e as sisters fisicamente. Ponto super positivo para a edição 23 do programa.
Entra ano e sai ano, existe um período no calendário brasileiro em que o BBB é assunto em todas as rodas de colegas que participamos. Seja uma roda para dizer que não sabem como existe quem ainda perde tempo com isso, seja para comentar as polêmicas das noites de festas regadas a músicas e bebidas.
Pessoas com deficiência não fogem à regra, mas, até o momento, parecia não existir, por parte do programa, a sensibilidade de pensar nesses indivíduos a frente de seus televisores.
Um outro aspecto relacionado não só às pessoas com alguma deficiência, mas a todas as minorias é a presença de uma sister, Sarah Aline, que trabalha como Analista de Diversidade e Inclusão.
Só quem tem um profissional desses nas empresas sabe a diferença que ele pode fazer para que uma organização tenha um ambiente mais diverso e com pluralidade de ideias, algo que pode garantir uma vantagem competitiva interessante à empresa.
Espero que ela possa durar algumas semanas no programa e use sua vivência profissional para fomentar discussões que lancem luz ao tema da diversidade e da inclusão, não só no ambiente de trabalho, mas também na vida em sociedade.

E aqui cabe uma crítica ao Big Brother Brasil e à indústria do entretenimento como um todo, afinal nem tudo são flores. Em 23 edições, foram mais de 200 participantes passando pela casa mais vigiada do Brasil e – pasmem – só uma participante até hoje dizia-se declaradamente pessoa com deficiência ou tinha o que podemos chamar de deficiência aparente.
Não bastasse a quase ausência de participantes PCDs no programa, a sister em questão era a atleta paralímpica Marinalva Almeida, ou seja, precisou ter um currículo invejável para garantir presença no reality.
O mundo do entretenimento é muito preocupado com a imagem e os padrões de beleza. Talvez tenha medo de expor algumas pessoas e algumas deficiências no ar e isso gerar algum desconforto. A mim não importa, sigo acreditando que o lugar da pessoa com deficiência é onde ela quiser e lugares como esses devem ser ocupados.
Problemas não são resolvidos escondendo da maioria sua existência e isso vale para tudo na vida, inclusive a participação de PCDs na vida em sociedade.
Seguirei vigiando!
* Vinícius Fonseca é pessoa com deficiência, jornalista, tecnólogo em gestão de Recursos Humanos com especialização em assessoria em Comunicação e M.B.A. em Gestão de pessoas. Também é escritor de poesias e contos, além de um eterno curioso.
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55)
