Integrantes do Coletivo Entretons escreveram cartas aos seus familiares, motivados pelo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. Nesta quinta, publicaremos mais uma dessas cartas
Quando penso na escrita para vocês, sobre esses segundos turbulentos, meu coração desesperado não sabe mais sorrir se não aflito. Para cada lágrima que me escapa, sinto a presença do consolo das suas palavras. O conforto que é estar próximo a vocês, não tem filosofia que de conta de materializar em um conceito. Meu maior medo é viver em um tempo de encontros guiados pelas doenças e mazelas que poderíamos ter ajudado a evitar, mas escolhemos ativamente sermos passivos ao que nos acontecia. Ao fundo escuto Fast Car, de Tracy Chapman, que me parece ser ofertada enquanto uma reflexão para esses momentos:
You got a fast car
Is it fast enough so we can fly away?
We gotta make a decision
Leave tonight or live and die this way
Esse trecho que pode parecer um escapismo da situação, é subvertido em minha mente enquanto convite a mudança de postura. O que Chapman me diz é: procure entrar nesse carro, para então voar ao local que almejamos, o qual a morte não seja a única possibilidade. Aqui então me lembro dos ensinamentos de vida de vocês, que sempre se movem para conquistar e concretizar seus sonhos. Mesmo com a derrocada que enfrentamos, vocês descobriram motivos para dança e música, essa atitude de se segurar na realidade e ver as saídas para não se deixar desmoralizar e não se perder, fascina-me. Hoje, estou escrevendo para que me escutem, mas gostaria que fosse o contrário, como vem sendo, eu estar deste lado oferecendo a escuta, pois aprendo mais e melhor, inclusive quais as marcas de vocês vivem em mim. A prática política, o manejo de chegar em acordos entre oposições e a habilidade de ser uma borboleta social, técnicas estas que vejo capenga no cenário atual, é a prática de vida de vocês. Creio que em alguns momentos foi para evitar ou reduzir a dor das várias violências que sofrem em seus corpos/mentes.
Lembro de vocês me dizendo que não se torna uma opção viver aprisionando e esquecendo as dores, mas de forjar redes de apoio para trabalhar/viver com/em formulando estratégias de sobrevivência. Tem um filósofo, que ao comentar sobre sua experiência com depressão, se vê romantizando uma condição mental cruel que quando não levada a sério nos condena ao fétero. Agora as epistemologias e práticas (logo práxis constantes) que são suas vivências, correndo o risco de ser redundante nesta escrita, não colocam a dor nesse local idealizado moral, mas como uma experiência humana que pode ganhar um significado tornando-se potência após seu enfrentamento. Acho muito mais interessante essa oferta de raciocínio poético cru, pois a melancolia sempre foi um suco doce que me vicia e neste caso, o frescor amargo das condições concretas postas, nos seduz a ser um corpo não em movimento, mas em deriva. Entendo, hoje, que esse estado vicioso apenas não seria vida. Vocês me diriam que preciso ser esperto, respirar e pensar, entendendo quais as formas de se combater e se mobilizar, para então me abraçarem entoando as palavras de ação:
Para frente Bruno, para frente ampla.
Atenciosamente,
Bubu.
*Entretons é um grupo de pesquisa e extensão de gênero, sexualidade, teoria queer, feminismos, decolonialidades, na perspectiva das interseccionalidades de etnia, raça, classe social, etarismo, entre outras. Formado por pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina – UEL e outres colaboradores de diferentes territórios de pesquisa e extensão, o grupo objetiva produções e ações implicadas com a realidades sociais diversas e seus movimentos.
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