Um total de dez cartas foi escrito pelos integrantes do Coletivo Entretons, motivados pelo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. Hoje, publicaremos as cartas 3 e 4

Carta 4:

Londrina, 03 de Outubro de 2022.

Querida mãe,

Pode parecer clichê direcionar esta carta para você, mas não poderia deixar de lado a mulher que mais me influencia, incentiva, cuida, ama e empodera. Minha mentora, professora e fortaleza, quem eu nutro cada dia mais admiração.

De você recebi e recebo todo amor e cuidado do mundo, que mesmo a senhora trabalhando mais que o humanamente possível, jamais me deixou faltar atenção. Quero lhe pedir desculpas pelos momentos em que lhe cobrei demais sem compreender totalmente a realidade árdua e torturante que você vivia e infelizmente ainda vive.

Como uma mulher negra, trabalhadora, a filha mais velha de uma família pobre, sei que desde muito cedo a vida te forçou a trabalhar por você e pelos outros à sua volta, o que até hoje ainda é a sua realidade. Trabalho esse que sempre nos gerou embates, no passado, pela minha vontade de mais atenção, hoje, pela minha preocupação com a sua saúde. Porém entendo que apesar de tudo, o trabalho é o que te move e te faz realizada, mas não se esqueça que se não se cuidar, não vai lhe restar forças para cuidar dos outros e eu sei o quanto você gosta de cuidar dos outros.

Graças aos seus ensinamentos, incentivos e pensamento crítico, pude estudar e entender um pouco mais dos motivos de suas escolhas e também imposições sociais em ti forçadas. Hoje, lendo Lélia Gonzalez, entendi que vivemos em uma sociedade onde as regras são ditadas por brancos, héteronormativos, ricos e eurocênticos que ditam que o lugar da mulher negra é trabalhando e servindo. Eu sei que você gosta do que faz, mas muito me entristece e revolta ver e entender que muitas vezes você acaba fazendo o trabalho de outros, em geral brancos e homens que acham que você deve fazer o que eles não querem fazer. Hoje eu entendo o macabro motivo e me revolto muito com isso.

Me revolto quando um atendente te trata mal, quando um médico te trata com desdém, indiferença e nojo ou quando um ultrassonografista acha que tem o direito de lhe assediar e lhe faltar com respeito na hora de fazer um exame. Me revolta quando um porteiro de um condomínio chique assume que você é uma empregada por conta de sua cor ou quando vendedores de lojas te seguem achando que é uma ladra. Me revolta quando toda vez é revistada como se carregasse drogas ou qualquer merda que essa gente podre pré-define o que mulheres negras carregam em suas bolsas. Mas acima de tudo, me revolta que isso são apenas algumas lasquinhas do que você já vivenciou e ainda vai vivenciar neste país. Me revoltar saber que mesmo lutando todo dia e ensinando as pessoas a serem antirracistas e críticas, ainda temos tantos governantes eleitos de extrema direita, ainda temos quase metade do país que ainda apoia um governo fascista e racista que é contra o seu lugar de fala, contra o seu empoderamento, contra a sua profissão, contra o seu sucesso e contra a sua existência.

Me revolta ver a sua impotência diante algumas situações, a sua dor, os seus traumas, me revolta não compreender como que uma pessoa tão carinhosa, cuidadosa, empática, amorosa, que ajuda e ajudou tanta gente, constantemente sofre e corre riscos simplesmente por conta de sua cor e gênero.

Domingo ainda está entalado e ainda ficaremos entaladas por mais alguns dias, da mesma forma como sempre nos sentimos entaladas e angustiadas nesta realidade que não te acolhe como mulher negra e não me acolhe como mulher LGBT+. Porém não te faltou esperanças, tanto nesta eleição, que sei que ainda venceremos, quanto na vida. Em nenhum momento você abaixou a cabeça, em nenhum momento você deixou de se reerguer e continuar sua caminhada mesmo após os mais terríveis empurrões e quedas. Você continua resistindo, existindo, esbanjando e compartilhando com todes essa sua força de vontade de viver e levar vida e esperança para quem precisa. Você me ensinou a não desistir dos meus sonhos, mesmo tendo tantos dos seus roubados ou desviados, você me gera forças para continuar mesmo quando muitas vezes você já não aguenta mais.

E vamos juntas seguir esse caminho da vida, uma apoiando a outra, agora talvez você me apoiando um pouco mais, mas um dia quero ser seu apoio. Assim como você me inspira, talvez eu consiga passar sua energia para mais alguém.

Por fim, acho que você seria o maior exemplo de feminismo para mim. Um feminismo que não exclui ninguém independente de gênero, etnia, cor, classe, orientação sexual, etc. e que se revolta com qualquer um que queira eliminar nossa força e existência.

Obrigada por existir em minha vida,

Marina.

Carta 5:

Londrina, 04 de outubro de 2022

Avó Ana,

Coração indignado. Tentando pular ondas de medo e desesperança e manter-me de pé. Não posso afogar. Por mim e todes cujas vidas são postas como descartáveis. Estes são os sentimentos penetras que insistem em fazer companhia desde o último domingo, após o resultado das eleições 2022. Fomos para o segundo turno, na liderança, é verdade, e com uma campanha muito bonita, mas confesso que me assusta ver mais de 51 milhões de pessoas ainda apoiarem a morte como programa de governo.

Em 2018, alegaram desejo de mudança. Hoje: mais de 680 mil vidas perdidas enquanto o candidato que tenta a reeleição imitava pessoas sem ar e rejeitava vacinas, mais de 33 milhões com fome, mais de 9 milhões de pessoas sem trabalho e outras 39 milhões na informalidade, o que explica tal respaldo? Apesar de compreender que a sociedade brasileira segue forjada no mito da democracia racial e (cis)tema hetenormativo, no tombamento dos corpos dissidentes, como mulheres, negros, indígenas, comunidade LGBTQIA+, pessoas com deficiência, dói. Dói muito.

Como podem compactuar com a conversão de escolas em quartéis? De universidades em feudos? Com a extinção da Amazônia e dos povos originários? Com as afirmações de que mulheres são “fraquejadas”, “devem ganhar menos porque engravidam”, “você não merece ser estuprada porque é feia”, e o corte de mais de 90% dos investimentos destinados ao combate da violência doméstica? Com as falas “prefiro um filho morto do que gay” e “o afrodescendente mais leve pesava 7 arrobas, não servem nem para procriar”, entre tantas outras violências escancaradas e empoderadas?

Meu amor, passei a madrugada de domingo para segunda encarando os números das pesquisas de intenção de voto e os que chegaram às urnas com a pretensão de entender o que levou a tamanha diferença de um dos lados. Você, que sempre me ajudava com a tabuada, sabe o quanto me distancio da matemática. Hoje percebo que foi uma fuga. Tentativa fracassada de achar algum conforto em uma suposta racionalidade, dona de todas as verdades. Ideia que nem acredito.

Sou filha das políticas públicas do Partido dos Trabalhadores, o mesmo que Lélia Gonzalez denunciou o sexismo, mas que contribuiu para escancarar os Brasis que existem dentro do Brasil. Os Brasis, que mesmo marcados pela ferida colonial – que tanta sangra em mim – não deixam de sonhar e criar mundos outros.

Chorei. Senti raiva. Busquei passagem para o Uruguai – de novo. Me senti covarde logo em seguida. Respirei. Estou tentando respirar. Olhar para o lado e ver minhas pessoas teimosamente tentando também, torna os dias possíveis. Tenho pensado muito em Paulo Freire, que aliás, tenho certeza de que vocês se encontram com frequência para um café com bolo de laranja, nunca mais encontrei um como o seu.

“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir”.

Permanecemos na labuta. Inspirada por uma família (de sangue e de alma) formada, sobretudo, por mulheres que mesmo tão doídas não se retiraram das lutas. Esmorecer não é uma opção. Também trago notícias acalentadoras: pela primeira vez, quatro mulheres indígenas e duas trans para a Câmara de Deputados. A duras penas, uma realidade mais diversa vai se construindo. Espero lhe contatar em breve dizendo que a “esperança venceu o ódio”.

Com amor e saudade sem tamanho.

Fran, sua companheira de cuidado diário às roseiras

*Entretons é um grupo de pesquisa e extensão de gênero, sexualidade, teoria queer, feminismos, decolonialidades, na perspectiva das interseccionalidades de etnia, raça, classe social, etarismo, entre outras. Formado por pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina – UEL e outres colaboradores de diferentes territórios de pesquisa e extensão, o grupo objetiva produções e ações implicadas com a realidades sociais diversas e seus movimentos.

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