Por Vinícius Fonseca

Olá, como vai você, caro leitor? O texto a seguir abre os serviços no ano de 2025 com um misto de surpresa e alegria. Quando me “ofereci” em 2023 e ouvi da turma da Rede Lume que eles só estavam esperando-me me oferecer para começarmos uma coluna sobre pessoas com deficiência, confesso, não achei que duraria tanto tempo. Menos ainda que ouviria de tanta gente elogios e apontamentos acerca do que escrevo aqui. 

Bom e já que ainda estou por aqui, nada melhor do que falar sobre a mais nova e merecida febre nacional, “Eu ainda estou aqui”; sim, estou falando do filme que rendeu o Globo de Ouro de melhor atriz em drama para Fernanda Torres e dirigido por Walter Salles, a quem eu carinhosamente chamo de Tony Stark brasileiro, em alusão à cena em que o homem de ferro se autodenomina gênio, playboy, milionário, filantropo. Um pouco vira-lata de minha parte, eu sei, afinal, o cineasta brasileiro tem totais méritos e não precisa de uma alusão norte-americana. 

Há que se enaltecer também que o filme é bem menos vira-lata que eu, quando faço a comparação citada acima. A obra é, na verdade, bem brasileira. Não é panfletária, como insistem uns e outros aí, ao mesmo tempo em que não deixa de retratar a turbulência pela qual o Brasil passava devido ao regime ditatorial que foi instituído em 1964 e perdurava nos anos 70, período retratado na película.

Talvez você se pergunte o porquê decidi falar do filme em uma coluna que trata de temáticas relacionadas às Pessoas com Deficiência e bem, a menos que você tenha vivido em uma caverna nas últimas décadas, ou realmente não saiba do que “Ainda estou aqui” trata, é preciso dizer que o filme se baseia no livro homônimo escrito por Marcelo Rubens Paiva, que é PcD. 

Para contextualizar, Paiva tem deficiência adquirida depois de sofrer um acidente durante um mergulho, o que o deixou paraplégico. Essa história é contada em outro de seus livros, Feliz ano velho, o livro mais vendido da década de 80 e que lhe rendeu o Prêmio Jabuti. 

Enfim, ver o livro de uma pessoa com deficiência ser adaptado para o cinema e tanto o livro quanto o filme serem capazes de comover tantas pessoas é algo incrível e corrobora com o que sempre digo aqui quando afirmo que nós, PcDs, podemos chegar longe em qualquer área de atuação, desde que acreditemos em nós mesmos e que outros também acreditem na gente. 

Voltando ao filme, com o meu conhecimento de um especialista de sofá, gostaria de dizer que a obra vale o ingresso e todos os prêmios que está recebendo mundo a fora. Salles nos convida a acompanhar a vida de uma família alegre e que vivia com a casa cheia de gente. O filme tem um início feliz e rico em cores, mas de repente tudo muda com a prisão de um pai de família, (Rubens Paiva, interpretado por Selton Mello), deixando Eunice Paiva – Fernanda Torres -, com crianças para criar e a missão de buscar informações do marido em meio ao conturbado Brasil do regime. 

O filme ganha tons mais sombrios e é possível ver a angústia, a incerteza e a força de uma mulher que busca se adaptar à nova realidade de sua vida, tudo isso com uma brilhante atuação de Fernanda Torres. 

O filme realmente merece muito estar onde está e merece mais. Torço agora para que o Oscar venha, ou ao menos indicações ao prêmio mais importante da indústria cinematográfica. 

Os poréns

Há, porém – e esse tema precisa ser abordado na coluna, porque é para isso que existimos – pontos a serem observados e questionados na obra. O principal deles, para nós PcDs, é o fato de Marcelo Rubens Paiva ser interpretado, já paraplégico, por um ator sem nenhuma deficiência, ao que dá-se o nome de cripface, quando uma pessoa sem deficiência interpreta uma pessoa com deficiência. 

Neste link uma influencer PcD fala um pouco mais sobre a sua visão sobre o tema e salienta ainda que o próprio Marcelo, em um passado não muito distante, defendeu a necessidade de melhores condições de trabalho e oportunidades para pessoas com deficiência. 

Particularmente eu entendo as escolhas da direção. O enfoque não era no acidente de Marcelo e cada deficiência pode deixar traços de sequelas diferentes, o que torna difícil encontrar um ator com as exatas características e trejeitos de Marcelo Rubens Paiva. Filme é, acima de tudo, um produto e visa lucro, há prazos de entrega, um cronograma a se cumprir, todos desafios que, talvez, possam indicar ser mais fácil colocar uma pessoa sem deficiência no papel e resolver logo a questão. No entanto, o ponto trazido pela influencer é muito válido e em algum momento teremos que substituir o cripface por “pessoas reais”. 

Outra questão

Apesar desse fato, que pode ser considerado um deslize, o filme cumpre bem o seu papel como obra cinematográfica e tem levado cada vez mais gente aos cinemas, o que levanta agora uma outra questão importante, a retomada do cinema brasileiro e a inclusão das pessoas com deficiência. 

Com o sucesso de Ainda estou aqui é normal imaginar que outros filmes nacionais devam ganhar a atenção do público brasileiro, mas os estúdios e distribuidoras e salas de cinema estão prontos para esse movimento? 

É bem verdade que temos, ao menos nos grandes centros, salas com alguma acessibilidade para PcDs, no entanto, como fica para uma pessoa surda que pretende assistir a um filme nacional, sendo que este não costuma ter sessões legendadas?

https://www.instagram.com/reel/DEvJMT_vjek/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

Por fim, não falei da primorosa trilha sonora do filme, mas aproveitando o gancho dos pontos de melhorias elencados acima, como diz a música de Erasmo Carlos que embala o filme: “É preciso dar um jeito meu amigo!”

*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente, ou quase…