Por Beatriz Herkenhoff*

O Brasil está literalmente ameaçado pelo fogo. Nossas florestas, fauna e flora estão sendo destruídas pelos incêndios.

Impossível não se sensibilizar e comover com os incêndios que destroem as florestas e afetam a qualidade do ar e a saúde da população.

Miguel Nocolelis afirma que “Somos a única espécie que conspira para sua própria extinção. Não existe nenhum outro organismo no mundo explorando seu habitat a ponto de não conseguir mais sobreviver nele.”

Fogo no Parque Nacional em Brasília/Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

De acordo com Paulo Artaxo (astrofísico da USP), as concentrações de gases de efeito estufa continuam a aumentar, apesar da ciência, alertar há mais de 50 anos, que a humanidade está numa trajetória perigosa do ponto de vista de mudança climática. 

Estudos da UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) demonstra que estamos emitindo 62 bilhões de toneladas de gás de efeito estufa para a atmosfera. No Brasil, 48% de nossas emissões estão associadas ao desmatamento e 27% são emissões da agropecuária.

Qualquer incêndio se caracteriza como criminoso, pois a legislação proíbe o fogo em todo território nacional, entretanto, as penas atuais são inadequadas para combater efetivamente aqueles que desrespeitam a lei e provocam incêndios.

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Diante dessas evidências ficamos desolados, abatidos e paralisados.

Nos perguntamos: aonde iremos parar? Existe uma luz no fim do túnel?

O que fazer? Como transformar a indiferença e a apatia em luta, resistência e esperança?

Como construir estratégias para conservar a natureza e combater o fogo?

A capacidade de lidar com a crise e sair dela fortalecido é um desafio coletivo.

O Governo Federal se uniu com os governos Estaduais, com representante do Poder Legislativo, Judiciário e com movimentos organizados da sociedade, para construir ações conjuntas no enfrentamento dos incêndios que se alastram. 

Em meio a tanta destruição, quero resgatar duas experiências de brigadas voluntárias e comunitárias no combate ao incêndio.

Em 2016 passei 10 dias em Corumbá, Pantanal, Mato Grosso do Sul. E em 2017, fiquei um tempo na Chapada Diamantina, Bahia. 

Em Corumbá, além de me encantar com sua beleza e a conservação da biodiversidade, tive a oportunidade de conviver com Ângelo Pachelo Cipriano Rabelo, presidente do Instituto Homem Pantaneiro (IHP). 

Rabelo coordena a Brigada anti-incêndio na Serra da Molar no Pantanal. A Brigada nasceu no início de 2010, quando vários proprietários se uniram para preservar o Pantanal, num esforço de otimização e conservação da natureza. 

A Brigada desenvolve uma série de ações desde o monitoramento da biodiversidade, implantação de tecnologias para prevenção e combate ao fogo, sistema de rádio e comunicação. E um conjunto de atividades que envolvem a população como agentes de conservação.

Rabelo relata que “em 2020, fomos fulminados pelo fogo que atingiu 90% de nossas áreas. A partir daí estabelecemos um novo mecanismo de prevenção ao fogo, utilizando a tecnologia com inteligência artificial. Um sistema inovador no Brasil e no mundo onde a ignição é detectado em três minutos.”

A Brigada cumpre o papel da prevenção e combate ao fogo e, simultaneamente, articula-se com a comunidade, ancorada no princípio da conservação, tendo como referência a ecologia do fogo e ações de restauração. “A partir dessas ações estratégicas, conseguimos reduzir o impacto do fogo em 80 a 90%” (Rabelo).

“Quando cessa o período das queimadas, a Brigada faz um trabalho educativo e preventivo nas escolas e nas comunidades” (Rabelo).

Minha segunda experiência, no conhecimento das Brigadas no combate aos incêndios, ocorreu em 2017, quando conheci a Chapada Diamantina, Bahia.

Chapada Diamantina/Reprodução Facebook Min. Turismo

Segundo maior parque nacional do Brasil, a Chapada é uma unidade de conservação que ocupa 152 mil hectares.

Fiquei completamente apaixonada e envolvida com sua beleza. Tive o privilégio de ter como guia Carlinhos (Carlos Henrique Soares Santos).

Desde o século XVIII e XIX, com a descoberta do ouro e diamantes, a mineração e o garimpo foram os motores econômicos da Chapada Diamantina.

Somente em 1996, a mineração foi proibida pela União e pelo Estado da Bahia. A partir de então foi desenvolvido o ecoturismo e o turismo de aventura.

Carlinhos relata que participou dessa transição, ele era garimpeiro e se tornou guia turístico na Chapada. 

Nesse período, formaram a Associação dos Guias e, em seguida, foi criada a Brigada de Resgate Ambiental de Lençóis (BRAL).

Inicialmente, os brigadistas foram treinados pelos bombeiros da região. Além do manejo integrado do fogo, realizam mobilizações, engajamentos da população e denúncias.

A Chapada conta também com a fiscalizaçãoe punição das irregularidades. Reúne instituições como o IBAMA, as APAs e o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da biodiversidade) que através de convênio com o Governo Federal fornece equipamentos de proteção específicos que suportam altas temperaturas, equipamentos como abafadores, sopradores, bombas de água, drones, botas especiais, entre outros.

A realização de processos educativos nas escolas e nas comunidades gerou uma transformação na mentalidade dos guias e da população local no sentido de maior consciência sobre a necessidade de proteger a natureza, suas nascentes, flora e fauna.

O papel das Brigadas comunitárias e voluntárias fazem a diferença, pois, na maioria das vezes, são elas que chegam primeiro ao local de combate.

Existem grupos de Brigadistas em todas as regiões da Chapada que trabalham em horários contínuos quando há incêndios. Os bombeiros da região combatem o fogo no período de 6 às 16 horas. E os brigadistas comunitários entram na Serra a partir de 16h até 6h da manhã. 

A população é convocada para dar suporte aos brigadistas durante toda noite, fornecem lanches, sucos e o jantar, além do apoio psíquico e emocional.

Uma experiência que envolve riscos, mas que possibilita a união, o respeito, asolidariedade e a consciência ecológica.

O Papa Francisco (na Encíclica Laudato Si) nos exorta a viver uma ecologia integral. “Nossa missão é proteger a terra, não dominá-la. No entanto, agimos pela lógica do lucro, desconsiderando os limites do nosso planeta” (Papa Francisco).

A ambição e ganância colocam a morte acima da vida! 

Esse tema é mais complexo do que expus aqui, mas possibilita questionamentos sobre como nos envolvemos para reduzir os efeitos estufa para a atmosfera.

Como preservamos o meio ambiente adotando práticas sustentáveis?

Como nos mobilizamos para denunciar as atividades clandestinas, como o garimpo, que causa desmatamento da Amazônia, maior floresta tropical do mundo?

Como o agronegócio na Amazônia e em outras regiões do Brasil concilia os interesses econômicos, ambientais e sociais?

Que possamos resgatar a esperança em tempos tão difíceis!

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)

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