Segundo associação de moradores do Flores do Campo, ocupação está organizada para atingir melhorias nas condições de vida

Texto: Cecília França
Entrevistas e fotos: Filipe Barbosa

Fogueira, pau de sebo, comidas típicas de festa junina. O arraiá do Flores do Campo, na noite do último sábado (27), movimentou as cerca de 700 famílias que vivem atualmente na comunidade. De acordo com os orgaizadores, a ocupação na zona Norte de Londrina, que completa oito anos no mês de setembro, vive seu melhor momento.

“A arrecadação (de comidas e bebidas) foi quase toda da comunidade, 10% foi doação. A comunidade está um pouco melhor, todo mundo empregado, todo mundo ajudando; foi uma coisa linda esse ano”, diz Simone de Oliveira, da Associação de Moradores do Flores do Campo.

“O evento de hoje é uma das coisas mais bonitas que aconteceu no Flores do Campo até hoje; 90% desses comes e bebes veio da comunidade. Desde segunda-feira a gente está pedindo no grupo, um ajuda com açúcar, outro com leite condensando, outro com refrigerante. Quando a gente viu, na sexta-feira tinha um monte de coisa”, conta Cleverson Aparecido de Andrade, o Binho, tesoureiro da associação.

De acordo com Binho, mais de 700 famílias vivem atualmente no Flores do Campo, totalizando cerca de 3 mil pessoas. “E não pára de chegar gente”, afirma.

Fogueira foi uma das principais atrações do arraiá do Flores do Campo

Imigrantes

Os imigrantes são muitos, vindos da Venezuela, do Equador, da Argentina, do Peru, do Chile, da Colômbia e do Haiti. Pessoas como Mônica, que vive no Flores há três anos.

“Sou de Colômbia”, conta ela a Filipe Barbosa, que acompanhou a festa com exclusividade para a Rede Lume.

A amiga venezuelana que acompanhava a festa com Mônica, diz que o arraiá, embora diferente das festividades da Venezuela, a fez se sentir em casa. “Un pedacito de Venezuela, un pedacito de la tierra de nosotros”, declara.

Sobre a principal dificuldade enfrentada por viver na ocupação, a colombiana Mônica não tem dúvida: “Falta de asfalto e transporte público”.

Binho diz que a principal necessidade no Flores do Campo atualmente é a falta de água. “Para quem mora na avenida principal a água só chega depois das dez da noite”, relata. Mas o transporte coletivo também ainda não chegou. “Tem que andar mais de 2 quilômetros (pra pegar)”.

Essa realidade dificulta em muito a vida das pessoas que trabalham, que são a maioria da comunidade, afirma Binho.

“98% das famílias que estão aqui trabalham, são pessoas que acordam cedo, como eu. Estou há 6 anos na mesma empresa. De manhã, quando eu pego o ônibus, vai um ônibus lotado só de gente do Flores do Campo, 6h20 da manhã”, diz Binho.

A coleta de lixo tem estado mais organizada após a criação da associação de moradores. De acordo com Binho, apesar de o lixo ser recolhido apenas na entrada da ocupação, a coleta ocorre três vezes por semana.

“Aqui é igual condomínio fechado agora, depois que a associação de moradores assumiu. Vivemos o melhor momento da ocupação, uma comunidade pacificada, não tem mais essa história de pedir autorização para a imprensa entrar; isso acabou”, afirma.

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‘Poder público aqui você esquece’

Segundo o tesoureiro da Associação de Moradores, todas as melhorias implementadas no Flores do Campo até hoje decorrem da união dos moradores, como a iluminação das ruas e a organização do lixo.

“Poder público aqui você esquece. O progresso, a melhoria do bairro, quem faz é a comunidade. A CMTU do bairro é a comunidade”.

Perguntado se os moradores temem a reintegração de posse dos imóveis, Binho é enfático: “Tememos! É o medo de todos aqui. Graças a Deus, depois da pandemia, tem uma decisão do ministro Barroso que não pode ter uma reintegração ‘do nada’, essa decisão deu um alívio para nós”.

‘Comunidade é tudo’

Para o casal Ana e Antônio Carlos, que vive junto no Flores do Campo há três anos, a união da comunidade supera as possíveis dificuldades. Antônio foi morar na ocupação um pouco antes e ela se mudou para lá após um incêndio destruir sua casa no centro da cidade.

“Para mim não tem dificuldade morar aqui não. A gente foi muito bem acolhidos. Como perdemos tudo, recebemos muitas doações. Não temos do que reclamar, só agradecer”, diz Ana.

Sobre a festa, o casal entende como resultado da união dos moradores. “Todo mundo unido, todo mundo representa um pouco que der e todo mundo fica satisfeito, porque Deus abençoa e não falta nada”, diz Antônio.

“Comunidade é tudo”, finaliza Ana.

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