Por Beatriz Herkenhoff e Helena Rosa*

No próximo dia 8 de junho, a Igreja Católica realizará a celebração de Corpus Christi.

E eu deixo vir à tona as lembranças de minha infância e adolescência quando participava dessa celebração em Castelo (ES).

O evento celebra o mistério de Eucaristia, o Sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo, instituído pelo próprio Jesus Cristo, quando, ceando com os Apóstolos, dividiu o pão e o vinho lhes recomendando comer e beber porque ali estavam seu corpo e seu sangue.

Este fato foi registrado, na Renascença, por Leonardo da Vinci, no afresco que se encontra no refeitório da igreja/convento Santa Maria Delle Grazie, em Milão, Itália. Trabalho realizado entre 1495 e 1498.

A principal atração do Corpus Christi em Castelo são os lindos tapetes, confeccionados pelos fiéis para a realização da procissão ao final do dia.

Ficávamos encantados, impactados com tamanha beleza e criatividade. Produções artísticas com cores fortes, vivas e alegres, feitos de flores, areia, serragem, além de outros materiais que, devidamente coloridos e trabalhados, formavam imagens do Corpo de Cristo, de cálices, pães, vinhos e outros elementos que lembram o sacramento da comunhão, bem como mensagens de solidariedade, de amor, doação e comprometimento com a vida.

Em Castelo, a confecção de tapetes teve início em 1963. Atrai, atualmente, mais de 60 mil visitantes e envolve cerca de 500 voluntários. Cada tapete tem 1,2 mil metros de comprimento, composto por quadros e passadeiras.  

Afirmam historiadores que a tradição dos tapetes remonta a entrada de Cristo em Jerusalém, montado em um jumento. À medida em que avançava, discípulos, admiradores e até curiosos lançavam ao chão, como se forrassem, mantos e folhas de palmeiras.

A celebração de Corpus Christi surgiu na Igreja Católica na Idade Média com a realização de uma missa especial, procissão e adoração ao Santíssimo Sacramento.

Os tapetes de Corpus Christi têm origem portuguesa. Esse ritual desapareceu em Portugal, mas foi mantido nos Açores. No período da colonização, os imigrantes açorianos trouxeram esse legado para o Brasil.

A confecção de tapetes de rua é uma manifestação de fé, arte e cultura popular. Envolve estados e cidades do Brasil.

Muitas paróquias fazem tapetes belíssimos, mas quero citar algumas cidades que ganharam visibilidade e atraem turistas. No interior paulista, Matão (há 74 anos), Atibaia, Caçapava, São José do Rio Preto, Potirendaba, Bálsamo, Santana do Parnaíba e Mirassol (onde os tapetes são bordados).

Em Minas Gerais: Ouro Preto, Tiradentes, Sabará, São João Del Rei, Região Metropolitana de Belo Horizonte, Vale do Jequitinhonha e Diamantina.

No Espírito Santo, destacam-se Castelo (1963) e Paraju (desde 1910). No Rio de Janeiro: Cabo Frio (tapetes de sal) e Búzios. Em Tocantins, Palmas. No sul do Brasil: Flores da Cunha (RS, desde 1960), Florianópolis e Rodeio (SC).

Os tapetes são confeccionados de madrugada, com a participação de centenas de voluntários. Envolve crianças, jovens e adultos.

A experiência fortalece a cooperação, a solidariedade, o trabalho em equipe, a criatividade e o desabrochar de dons.

Em muitas cidades, artistas locais dão uma contribuição efetiva na confecção dos tapetes. São realizadas, também, oficinas para que essa tradição seja mantida de geração em geração.  

Os moradores dessas cidades passam a noite em claro. Um lindo processo que vira uma festa da comunidade, quando é garantido um café coletivo para os voluntários.

Todos abrem seu coração para acolher os visitantes que começam a chegar com o clarear do dia ou passam a noite na localidade!

De acordo com a realidade da região, inicialmente, os tapetes eram feitos de serragem e de sal colorido. Mas, com o tempo, cada cidade foi criando seus próprios recursos, com o uso de borra de café, areia, cascas de ovos, flores de diferentes cores, sementes, tintas, bagaço de cana, palha de arroz, tampa de garrafa, vidro triturado, entre outros.

Muitos municípios recolhem cestas básicas que são distribuídas para as famílias carentes. Em minha paróquia, na Praia do Canto, Vitória, ES, os tapetes são feitos com cobertores. Após a procissão, são lavados e doados às pessoas em situação de rua e famílias vulnerabilizadas.

Minha amiga Helena Rosa participa há mais de 30 anos da confecção dos tapetes de Corpus Christi, em Paraju, distrito de Domingos Martins, região serrana do Espírito Santo.

Lamento não ter aceitado seus convites. Sei que perdi oportunidades incríveis de vivenciar a emoção que envolve esse momento tão especial, rico, único, singular e surpreendente.

Com a palavra, Helena:

Quando adquirimos um sítio em Alto Paraju (ES), descobrimos uma das maravilhas daquela localidade. No sábado, depois da quinta-feira de Corpus Christi, a comunidade se envolve na confecção dos tapetes.

[…]

O que diferencia Paraju de outras localidades é que os tapetes são elaborados exclusivamente com flores e folhagens da região. Nas paradas da procissão são montados altares lindíssimos com antúrios, murtas, plantas exóticas e coloridas.

[…]

Na primeira experiência em Paraju, eu tinha uma filmadora e entrevistei moradores envolvidos na produção dos tapetes: crianças, jovens, pessoas de meia idade e velhos.

[…]

Foi muito emocionante observar as mãos calejadas tocando a delicadeza de uma flor, de uma pétala de açafrão, de urucum partido ao meio. Foi a experiência mais linda que já vivi.

[…]

Nunca mais perdemos a festa de Corpus Christi! Os moradores passam a semana organizando o material para que a confecção dos tapetes flua. Preparam as caixas com flor cipreste, flor de mel, pétalas de rosas e margaridas. Flores em tons de verde, amarelo e azul.

[…]

Em Paraju, a celebração é ecumênica. Reúne católicos, luteranos, moradores com e sem religião, artistas que moram no distrito. Todos se unem em torno de um único objetivo.

[…]

A partir de 18 horas, o trânsito é desviado. Famílias, pastorais, grupos de jovens, representantes da escola responsabilizam-se por um pedaço do tapete. O trajeto termina no campo de futebol onde é celebrada a missa no domingo.

[…]

No alto-falante cantos das igrejas católica e luterana. A campanha da fraternidade de cada ano é uma simbologia expressa em muitos tapetes. Palavras, frases, evocação de imagens são feitas em torno de uma visão mística do que foi a campanha da fraternidade. Conectado com a catequese da igreja e ao grito da evangelização e da profecia.

[…]

Essa cerimônia sempre acontece no período de frio intenso. A paisagem fica mais bela com pessoas agasalhadas, com luvas, gorros e casacos. Mais de 60 ônibus com romeiros do ES e de fora, visitantes viram noite, os hotéis ficam lotados.

[…]

Simultaneamente, acontecem forrós para ajudar a passar a noite fria e gelada. As casas improvisam pequenas cantinas com caldos quentes, quentão e canjicas.

[…]

Meia-noite, quando os tapetes são concluídos, o visual é impactante!  As flores de mel fazem o acabamento.

Helena nos faz um convite tentador:

Se vocês quiserem conhecer uma expressão genuína da arte, da religiosidade e do ecumenismo, venham a Paraju!

[…]

Venham festar, comungar, solidarizar, viver uma verdadeira eucaristia do corpo e sangue de Jesus, nosso Senhor, nosso irmão e nosso Deus. A eucaristia que se manifesta na vida de um povo que partilha generosamente o que tem em comum.

Aguardamos os relatos da experiência de vocês com os tapetes de Corpus Christi.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)

*Helena Rosa é animadora Laudato Si, membro da Pastoral da Ecologia integral e do Movimento Fé e Política

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Maria-Maria

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