Não. Terapia é um processo de cura que acontece entre o paciente e um profissional de saúde mental, como psicólogo e/ou psiquiatra.

Porém várias artes manuais, como bordados, tricô, costura e crochê — que é meu caso — podem auxiliar muito neste caminho do autoconhecimento e sofrimento mental.

O crochê entrou na minha vida aos cinco anos de idade. Minha mãe e minhas tias eram professoras e como complemento de renda teciam roupas de bebês. Na casa da minha avó elas se reuniam, toda tarde, em um quarto que funcionava como ateliê e onde eu transitava entre linhas e lãs, com fascínio e curiosidade.

Minha primeira percepção de diferenças entre classes sociais se deu por meio das cores. As mães brancas, moradoras dos bairros nobres da cidade, escolhiam enxoval em cores delicadas como o branco, rosa ou azul-claro, verde-água e amarelo-suave, enquanto as mães das periferias optavam por lãs de qualidade inferior, com cores berrantes como vermelho, que era a cor mais escolhida.

Ao perguntar o motivo desta escolha, ouvi de uma mulher preta: “Quero que meu filho seja visto”.

Somente anos depois tomei consciência da força desta frase e passei a usar o crochê como forma de elaborar pensamentos e desamarrar sentimentos.

Desenvolvi um crochê criativo onde não há erro e como na vida, os pontos não são desfeitos e sim refeitos como um longo aprendizado.

Às vezes uma laçada abraça a linha e seguem como dois pontos juntos, porque não se briga com agulhas, já que existe o risco de cairmos no sono de cem anos…

Hoje, estou no hospital com meu pai de 96 anos. Ele se hidrata com soro e eu me nutro de crochê. Gota a gota, ponto a ponto.

E nesta noite longa, teceremos o amanhecer


*Odette Castro é artista, escritora, ativista social. Através da sua experiência com a dor e o luto, mostra que é possível seguir em frente e ser feliz. Já foi servidora pública e também empresária. Hoje é cronista do cotidiano, criadora dos projetos “Uma flor por uma dor” e “Fale certo”, autora de “Rubi”, ativista de inclusão social, mãe e avó

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