Em situação de rua, Jeremias Ferreira passou em primeira chamada no vestibular da Universidade Estadual de Londrina para Letras

Nelson Bortolin

Jeremias Emídio Ferreira, 41 anos, não sabe ao certo quantas vezes enfrentou e venceu a morte. A primeira vez que esteve muito perto do fim (ou de fazer a passagem) foi aos 7 anos de idade, quando foi atropelado por um trem e ficou dias em coma na UTI. As demais experiências envolveram tentativas de homicídio praticadas contra Jeremias. Sempre por arma de fogo. Alguns tiros “pipocaram”. Outras balas “desviaram” do corpo dele.

Desde 2017, Jeremias alterna temporadas vivendo em situação de rua ou em abrigos, como a Casa do Bom Samaritano, de onde teve de sair recentemente. Para ele, mais que a morte, a dependência química é um inimigo bem mais difícil de vencer ou controlar.

Uma nova experiência, que ainda está por vir, é a esperança de Jeremias para mudar de vida. Ele passou no último vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e começa a estudar Letras-Português dia 17 de junho.

“Se eu falar para você que eu não digeri direito a grandiosidade da coisa, você acredita?”, perguntou ele à Rede Lume numa conversa, dia 24 de janeiro, no Centro Juvenil Vocacional (CJV), ligado à Igreja Católica.

Jeremias Emídio Ferreira: “Deus me protege, me livra, faz muito tempo”

Naquela noite, junto com outros quatros amigos que vivem com ele na parte externa da UPA do Jardim do Sol (zona oeste de Londrina), Jeremias foi convidado para jantar no CJV. Foi ali que, durante todo o ano passado, ele se preparou para a universidade por meio do Cursinho Pré-Vestibular Comunitário e Gratuito Passo a Passo para a Universidade (PPU), oferecido pela instituição.

Conheça a seguir um pouco da história do futuro universitário:

Apesar das vicissitudes da vida, Jeremias, que nasceu em Japira (PR) mas foi criado em Sorocaba (SP), tem certeza de que é protegido por Deus. Ele cita o atropelamento como sua primeira experiência mística. “Estava saindo para a escola, tinha 7 anos. Meu pai falou para eu tomar cuidado porque sonhou que ia acontecer alguma coisa ruim comigo.”

A profecia se cumpriu. Minutos depois, ao cruzar a linha férrea, trajeto que ele fazia todos os dias, deixou-se atropelar pela locomotiva. “Naquele dia, eu pensei que iria ficar na linha para ver o trem passar do meu lado. O trem sempre vinha buzinando às 7 horas da manhã. Não sei o que me deu. Vi aquele monstro vindo para cima de mim, o pessoal gritando, eu fiquei em posição fetal e travei.”

Quando acordou na UTI, dias depois, a primeira coisa que ouviu foi o pai falar: “Eu não te avisei?”

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O vício

Aos 15 anos, Jeremias começou a beber e fumar maconha. Logo depois, conheceu o crack. As brigas violentas no mundo das drogas eram uma constante.

A primeira vez que lhe apontaram uma arma, ele gelou. O agressor estava bem perto, mas os tiros pipocaram “O canhão batia, o tambor girava, mas não saía bala”, recorda.

O jovem conseguiu correr. Alguns tiros finalmente saíram da arma, mas nenhum o atingiu. “Deus me protege, me livra, faz muito tempo.”

Outra briga de rua foi determinante para que ele deixasse Sorocaba, em 2017. “Fui cobrar um dinheiro de um cara. Ele e outros me espancaram”, conta.

Jeremias foi para casa, pegou um facão e voltou para matar o homem. Quando estava muito próximo do objetivo, teve outra experiência mística. “Ouvi uma voz que perguntou o que eu iria fazer da minha vida. Para quem não crê, é loucura. Para mim, é o poder de Deus.”

Jeremias deixou o homem vivo e teve de sair da cidade, pois foi jurado de morte.

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Primeira noite na rua

Jeremias conseguiu deixar Sorocaba com o dinheiro do acerto que fez com o ex-patrão e algumas economias. A quantia foi suficiente para a passagem rodoviária até Curitiba e para custear um mês de pensão na capital paranaense. “Acabou o dinheiro e eu tive que começar a correr o trecho.”

A primeira das muitas outras noites que Jeremias passaria na rua foi numa praça de Curitiba. “Ali eu trombei com um andarilho que me convidou para ir a Ponta Grossa. Fomos a pé. Levamos três dias.”

Com o amigo, Jeremias aprendeu que fome seria difícil ele passar. “Esse cara me explicou que, quando a gente pede comida nos estabelecimentos, as pessoas dão, não porque querem ajudar, mas para ver a gente ir embora logo.”

Em Ponta Grossa, ele assentava tijolo por R$ 60 o dia. Até hoje, faz bicos na construção civil.

O destino seguinte foi Santos (SP), onde o estudante tentou a vida no porto. A estadia na cidade paulista foi muito difícil. Jeremias crê em energias. “Em Santos, ela é muito pesada.” O “astral ruim” e as drogas o levaram para o inferno e ele teve outra experiência de “quase-morte”.

Depois de quatro dias sem comer, só bebendo água e cheirando cocaína, começou a ver vultos. Tentando fugir dos “decaídos”, pulou o muro de uma propriedade privada e foi recebido por um homem armado.

“Sempre tive aquela visão de que, se chamar por Jesus Cristo, ele vai me ajudar.” O homem sacou a cartucheira e atirou várias vezes, segundo Jeremias. “Não pegou um chumbo em mim. É misericórdia mesmo. É Deus protegendo esse indivíduo, para que, eu não sei.”

O estudante diz não gostar de contar essas histórias porque as pessoas pensam que ele é louco. Durante a conversa com a Lume, sempre com vocabulário rico e raciocínio rápido, Jeremias transpareceu sobriedade.

Rumo a Londrina, mandado por Deus

Ainda em 2017, Jeremias mudou para Londrina. A escolha do destino, ele também atribui ao Divino. “Estava de joelho pedindo ajuda a Deus e veio a expressão: ‘Londrina’.”

Desde então na cidade, o estudante alternou períodos vivendo em abrigos e outros, na rua. Ele teve de deixar a Casa do Bom Samaritano há poucos dias, depois de discutir com uma educadora.

Jeremias segue fazendo bicos na construção civil e não consegue emprego fixo devido ao vício. Com ajuda do pessoal da igreja protestante que ele frequenta, conseguiu um tratamento em Rolândia. Passou seis meses internado em reabilitação. “Foi muito bom, mas uma semana depois de sair já estava no crack, na cocaína.”

Hoje, ele faz uso de mesclado, mistura de crack com maconha. “É uma redução de danos porque, com o crack purão, a brisa é muito maior.”

Jeremias e amigos em jantar no Centro Juvenil Vocacional (CJV)

O cursinho

A aproximação de Jeremias com o CJV se deu por intermédio de Lua Gomes, coordenadora do projeto Conexões Londrina e representante da Central Única das Favelas (Cufa) na cidade.  “Ela ficava sempre insistindo para eu ir para o cursinho. Eu dizia que não queria saber de mais nada na vida. Ela insistiu tanto e eu acabei indo em consideração a ela.”

No cursinho, ele se sentiu acolhido e passou a frequentar as aulas. Mas sofreu com a diferença entre o ambiente do CJV e o do abrigo onde morava. “Era uma coisa que me martelava todo dia. Saía de uma linguagem limitada e superficial e vinha para algo muito mais abrangente. Quando eu saia por aquela porta à noite, após o curso, dava vontade de chorar.”

O hábito da leitura, assim como o desejo de estudar Letras, ele tem desde criança. “Adquiri quando sofri o acidente de trem. Uma amiga da minha irmã me trouxe a coleção do Asterix.”

A Bíblia é um dos livros preferidos de Jeremias, mas ele lê de tudo. Na conversa com a Lume, citou algumas obras preferidas, entre elas, as de George Orwell. Recentemente, leu o Rei da Vela, de Oswald de Andrade, e o Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, ambos emprestados da biblioteca do CJV.

O futuro

Jeremias espera que a universidade abra novas possibilidades de trabalho para ele. “Tenho 41 anos. As forças físicas uma hora vão acabar”, afirma, ressaltando que não vai conseguir continuar na construção civil para o resto da vida.

Fazer a faculdade, para ele, também é uma forma de agradecimento. “No mínimo, no mínimo, eu tenho que demonstrar para essa galera aqui a gratidão pela força que me deram.”

O pessoal do CJV já começa a tratar com a UEL sobre a possiblidade de Jeremias morar na Casa do Estudante, quando as aulas começaram, em junho. Enquanto isso, ele e os quatros amigos que se conheceram no Bom Samaritano, seguem na área externa da UPA esperando uma vaga em abrigo.

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