Por Reinaldo C. Zanardi*

Foto em destaque: Marcha Despejo Zero, realizada em junho em São Paulo/Issac Fontana

Muitas análises já foram feitas sobre o resultado das eleições deste 2 de outubro, bem ao gosto da preferência sobre quem ganhou ou perdeu. Mais que candidato vencedor A ou B, chamo a atenção para um aspecto importante – deste e de outros pleitos que estão por vir: o conservadorismo.

Antes, é preciso entender o que significa o conservadorismo. De forma geral, trata-se de uma filosofia que defende a manutenção das instituições tradicionais – como família, religião – como mantenedoras da ordem social e política vigentes. Esses valores passam pelos costumes, tradições e convenções, com forte apelo moral.

Em uma provocação rápida, se um modelo de sociedade é conservador e conserva valores da branquitude, vai lutar contra a inclusão da negritude; se o valor é do patriarcado, vai excluir a mulher e a pessoa LGBTQIA+; se o valor é eurocêntrico, vai excluir os povos originários; se o valor é cristão, exclui outras formas de religiosidade.

O valor conservador é, por natureza, hermético e exclui os que não fazem parte do valor padrão. Mas isso não é homogêneo e na sociedade atual (ou sempre foi assim?), as fronteiras são borradas, porque a consciência do oprimido é usada contra ele próprio em favor do opressor. Por isso, há mulheres, negros e LGBTs que reproduzem valores machistas, racistas e LGBTfóbicos, respectivamente – ou todos juntos.

Com isso, voltemos aos resultados das eleições de ontem. Muitos governadores, senadores, deputados estaduais e federais venceram ostentando valores conservadores, mas que não ousam professá-los tão abertamente. Não é bonito, aliás é crime, defender a exclusão de segmentos sociais inteiros, mas o trabalho análogo à escravidão é uma realidade Brasil afora. O feminicídio é um fato. A homo e a transfobia são reais.

Os valores não professados ficam sob o guarda-chuva, por exemplo, da família, mesmo o candidato tendo casado três vezes e tendo filhos de várias mulheres; da liberdade, mesmo que ataque imprensa, judiciário e outras instituições; e de Deus, mesmo que faça arminha com a mão em um templo ou igreja. Isso não é mera contradição dos conservadores. É uma estratégia que apela para o medo pela busca e manutenção do poder.

O medo é uma arma muito eficiente, porque mexe com a subjetividade do indivíduo naquilo que ele considera mais sagrado, por exemplo, a religião. Uma informação falsa como a de fechamento de igrejas causa impacto imenso entre gente desinformada. As fakes news existem para fazer o indivíduo acreditar na mentira e, também, duvidar da verdade.

Assim, por que pautas de costume causam polêmica e mobilizam o eleitor mais do que as pautas econômicas como emprego digno, salário com aumento real e combate à fome? A resposta é muito complexa, mas um indício está no discurso religioso, que transfere para Deus a providência para os problemas terrenos.

Reze e ore com fé, que Deus providenciará um emprego. E as condições desse trabalho e de salário? Não importam. Trabalhe e vencerá. Falta alimento na mesa? Reze e ore com fé, que Deus providenciará a refeição, mesmo que isso signifique passar fome a maioria das vezes – a tal da insegurança alimentar. Assim, ter Deus no coração é mais importante que um prato de comida. Jejum, quando se come todo dia e é opcional, não pode ser invocado aqui.

Nesse sentido, o conservadorismo consegue ser muito eficiente. Quando aliado à direita (a do estado mínimo) enquanto força política-eleitoral, atua para retirar direitos, excluir os indesejados e doutrinar grandes contingentes de que seu sucesso e fracasso são resultado apenas do seu esforço individual, a partir de um plano divino. Não basta ser fiel, tem de ser obediente, porque ovelha dócil não arrebenta a cerca.

*Reinaldo Zanardi é jornalista, licenciado em Língua Portuguesa e doutor em Estudos da Linguagem. Professor do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL).