Para a entidade, modalidade precariza os estudos e desconsidera as diferentes trajetórias de vida escolar dos estudantes da educação básica
Mariana Guerin
Foto em destaque: SEED/PR
O Fórum Paranaense de Educação de Jovens e Adultos (EJA) publicou um manifesto contrário à implantação do ensino a distância (EAD) nos Centros Estaduais de Educação Básica para Jovens e Adultos (CEEBJAs) do Paraná. A entidade entende que a modalidade EAD “desconsidera a diversidade de trajetórias de vida escolar dos estudantes da educação básica e se configura como uma prática de precarização de estudos e de aligeiramento de certificações”.
O Fórum considera a Educação de Jovens e Adultos como um direito social inalienável e fundamental para o exercício da cidadania. “Somente pode ser assegurado por meio da educação 100% presencial, pois entende que a Educação de Jovens e Adultos refere-se não apenas a uma questão etária, mas à condição de classe e de identidade”, diz o manifesto.
“São homens e mulheres, trabalhadores/as empregados/as e desempregados/as ou em busca do primeiro emprego; filhos/as, pais e mães; moradores de periferias urbanas, favelas e vilas, campesinos/as, povos originários, dentre outros, que necessitam de atendimento escolar especializado, permanente e que respeite suas especificidades”, completa o documento.
Ao defender a EJA totalmente presencial, o Fórum se posiciona pela “superação do caráter de suplência que marcou e continua marcando a história da escolarização das pessoas jovens, adultas e idosas no Brasil, como é o caso do EAD, e luta, amparado em Freire (2001).”
“Pela construção de uma EJA como ação político-pedagógica que se desenvolve ao longo da vida dos sujeitos, tomando as suas práticas sociais como objeto de estudo, ‘visando a sua emancipação humana e consequentemente a apropriação dos bens materiais e imateriais historicamente produzidos pela humanidade’ pelo desejo de melhorar de vida ou por exigências ligadas ao mercado de trabalho, mas como condição para a construção de sua emancipação.”

A partir da publicação do manifesto, o Fórum Paranaense de EJA conclama os profissionais atuantes na modalidade a orientar seus estudantes e pessoas que desejam ingressar nos CEEBJAs para que façam suas rematrículas ou matrículas nas escolas que ofertam aulas 100% presenciais.
O professor Ivo Ayres leciona história no CEEBJA de Londrina, o Estado é responsável pela oferta do Ensino Fundamental 2, que corresponde do sexto ao nono ano, e Ensino Médio. “E a gente sempre defendeu que a EJA tem que ter um sistema próprio. Ele não pode e não deve ser igualado ao sistema de atendimento para crianças e adolescentes.”
“Nossos estudantes têm diversas trajetórias de vida escolar, diversas formas de apropriação de saberes, que não estão enquadradas num padrão como a gente coloca crianças e adolescentes, que acompanha o processo de escolarização, na mesma faixa etária.”
Conforme o professor, nas escolas da EJA encontra-se adolescente, jovem adulto, idoso, pessoas que ficaram décadas sem escolarização e outras que deixaram a escola há pouco tempo. “Tem diferentes níveis de aprendizado, diferentes níveis de apropriação de saberes e eles têm que ser tratados de forma específica”, diz.
Para Ivo, “nós temos que respeitar a diversidade e respeitar, também, a questão do tempo, que são eixos importantes. Eles não têm o mesmo tempo, não podem dedicar o mesmo tempo que dedica uma criança e um adolescente. Então, nós precisamos criar sistemas flexíveis, como já existia”, sugere o professor.
Ele recorda que existia a oferta de organização coletiva, quando um grupo de estudantes se matriculava e terminava junto e fazia o curso por disciplina. “Eles podiam se matricular em até quatro e quando terminassem as quatro disciplinas, faziam as outras. Se, por um acaso, num determinado dia da semana, ele não podia ir e nesse dia tinha uma determinada matéria, ele não poderia concluir aquela matéria, as demais ele dava sequência.”
Ivo Ayres cita que havia, também, a oferta da organização individual, para atender o público que não pode frequentar as aulas todos os dias e que hoje justifica a oferta de EAD. “Nós entendemos que a educação básica, em hipótese alguma, pode ser feita a distância.”
“A educação básica, e a EJA é uma modalidade da educação básica, tem que ser feita de forma presencial. Então, a desculpa de que não dá para atender é porque o governo do Estado vem desmontando o processo que nós estávamos construindo há anos de uma EJA flexível, de uma EJA que pudesse atender às necessidades dos educandos, de acordo com suas realidades, porém de forma presencial”, comenta.
Para o professor, com o EAD para a EJA, o governo estadual quer, mais uma vez, reduzir investimentos em educação. “A obrigação do Estado é oferecer a educação onde estiver, onde houver necessidade, onde houver demanda. Precisa ampliar a oferta da EJA e não reduzir, da forma como está sendo feito.”
Ele descreve que o governo do Paraná tem feito uma redução gradativa da oferta da EJA, fechando escolas, fechando turnos, exigindo um número de matrícula e de manutenção de estudantes que não é compatível com a realidade da EJA.
“Acabou com o sistema EJA próprio e enquadrou a EJA no formato que é voltado para crianças e adolescentes, ou seja, engessou a oferta da EJA, agora os alunos têm que cursar as disciplinas blocadas e se reprovarem em uma, reprovam em todas, como se como se fosse o ensino de criança e adolescente.”
Ivo cita ainda os horários rígidos, que exigem que um trabalhador comece a estudar às 18h20, saindo correndo do trabalho às 18h, para ficar na escola até 22h40. “É um absurdo, um abuso com relação a esses alunos trabalhadores que têm, muitas vezes, que acordar às 5, 6 horas da manhã para ir trabalhar.”
De acordo com o professor, o próprio sistema provoca grande desistência dos estudantes em cursar a EJA. “E eles acreditam, agora, que oferecendo a EJA EAD vai ser resolvido, não será. A EJA EAD nada mais é do que uma precarização da oferta de educação e um processo que vai acabar aligeirando as certificações.”
A campanha do Fórum Paranaense de EJA passa pelo compartilhamento do manifesto e pela coleta de depoimentos de estudantes que defendem a Educação de Jovens e Adultos totalmente presencial. “Diga não à EJA EAD. Que os educandos que não puderam estudar, voltem a estudar e que aqueles que estavam matriculados e que por algum motivo deixaram os estudos, que voltem a estudar nas escolas da EJA, de forma presencial.”
EJA deve ser presencial, diz aluno prestes a se formar
Luiz Carlos de Souza, 59 anos, trabalha como encarregado de depósito e há um ano e meio frequenta o CEEBJA de Londrina, onde está prestes a completar o Ensino Médio. “Já fiz o EJA antes e parei. Agora recomecei e estou terminando, no fim deste mês, meu Ensino Médio.”
“A minha rotina de estudo é simples. Eu trabalho durante o dia, sou encarregado de depósito e conferente. Trabalho o dia e à noite eu vou estudar”, conta Luiz Carlos, que frequentou as aulas sem dificuldades, mesmo estando perto dos 60 anos. “Tive bastante facilidade para entender as matérias. Quando o professor falava, eu já entendia a matéria. Sou muito bom estudando porque uso muito o cérebro no dia a dia”, avalia.

“O EJA é muito importante porque você tem um modo de estudo para pessoas acima de 40, 50 anos. Pessoas que deixaram de estudar e voltaram. Eu aconselho a todos que deixaram a escola a voltar a estudar, porque, hoje, a sociedade não perdoa.”
“Tem que ter, no mínimo, educação para você conseguir algo na tua vida. Não adianta você querer arrumar um emprego, se você não tem nem o Ensino Médio. Quem tem vai passar na tua frente. Falo sempre para a juventude, não pare de estudar”, aconselha Luiz Carlos, que completa 43 anos de trabalho na mesma empresa este ano.
Ele reforça que o EJA deve ser presencial. “Eu acho que as pessoas que fizerem o EAD não vão conseguir terminar. Se tiver uma idade mais avançada não consegue. Eles têm que ter presença na escola.”
“Mesmo com a professora ensinando na sala de aula, tem muitas pessoas, especialmente os mais idosos, com 50, 60 e até 70 anos, que não conseguem acompanhar se não for presencial. Para o EJA a melhor escolha é o presencial”, atesta o aluno.
“Cada um escolhe a forma que prefere, mas, na minha opinião, para as pessoas mais velhas, elas têm que ter um professor ali para explicar, para orientar, por que o EJA até pode ser para ao mais jovens, mas é, principalmente, para essas pessoas na faixa etária de 40 a 60 anos que estão querendo voltar estudar”.
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