Livro da advogada londrinense analisa masculinidade como sustentação do fascismo moderno
Cecília França
Como Jair Bolsonaro – não enquanto pessoa humana, mas enquanto persona política – foi possível enquanto Presidente da República? Mais: como o bolsonarismo segue sendo possível como método política de identificação massificada e agregador político? A advogada londrinense Emmanuella Denora partiu da busca por essas respostas para escrever sua tese de doutorado, agora lançada em livro. “Deus, Pátria, Família – A politicidade do cotidiano e a centralidade de gênero num mundo em rede” será lançado neste sábado (31), na Livraria da Vila do Shopping Aurora, com sessão de autógrafos a partir das 18h.
A obra já pode ser adquirida neste site.
Uma das conclusões encontradas por Emmanuella, professora de Direito Constitucional na UEL e Doutora em Direito pela UFPR, é a de que não se faz mais possível compreender e tentar achar respostas ao momento de corrosão da democracia liberal por meio de uma só área de conhecimento. “Não é possível apenas responder com o Direito, ou com a Ciência Política, ou com a Filosofia, com a teoria da comunicação, etc.”, exemplifica a autora.
“Se inicialmente a proposta era entender esse ‘neoliberalismo fio-dental’, que assumia uma postura ‘liberal na economia e conservadora nos costumes’, um liberalismo econômico superado de livre-mercado, e um Estado cuja função seria a adoção de uma moralidade e tutela privada de desejos e posturas religiosas secularizadas e unas, com o tempo, com a maturação da pesquisa e da ampliação de olhares no cotidiano, bem como a sedimentação internacional de alguns fatores, passei a perceber que ‘gênero’ e as disputas de seus sentidos, incluindo a distorção religiosa e delirante de ‘ideologia de gênero’, seria o fio condutor associativo disso que chamamos de ‘neofascismo’ ou meramente fascismo; segue o mesmo fio dos fenômenos históricos da década de 1930 na Europa, numa retomada de valores eugênicos, profundamente moralizantes e antimodernos”, explica Emmanuella.
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Centralidade no gênero
A divisão sexual que estrutura nossa sociedade torna-se ponto essencial de análise da obra, pois, segundo a autora, a divisão sexual é estruturante como um pressuposto de Estado, não meramente estrutural, e portanto as discussões econômicas não resolverão as questões que hoje enfrentamos. Não à toa, o livro tem como título o lema fascista “Deus, Pátria, Família”.
“Me utilizei dolosamente das aspas, com o lema fascista, para reiterar que o mérito e sobrevivência da racionalidade e da moral fascistizante é inerentemente pela via de uma tradição religiosa que parasita o Estado Moderno”, diz a autora.
Porque fascismo não é sobre economia em si. É uma linguagem secularizada da moral religiosa inserida em disputa como pauta de Estado, competindo regimes de verdade jurídica e tutela sobre sua ocupação. Atravessam a organização social que coloca a figura do homem branco heteronormativo como o sujeito universal e referencial de mundo”.


Sendo assim, a autora adota o termo “androcêntrico” para denominar o modelo político que vivemos. Ela ressalta que a masculinidade está em crise, e essa crise é respondida com violência, medo e ansiedades, que promovem a dinâmica fascista e beligerante.
“É um ricochete às poucas conquistas que grupos historicamente privados de direitos – como mulheres, pessoas trans, comunidade LGBT+ e racializadas – conquistaram”, conclui.
Diálogo com o presente
A obra de Emmanuella Denora dialoga com as diversas facetas do Brasil atual.
“Busquei articular e costurar as novas realidades sociais e digitais, com respostas que transbordam e borram os conceitos fechados e estanques, dialogando com o presente. Particularmente estou exausta das mesmas respostas, das mesmas pessoas, sempre dizendo que é a economia, quando o Estado é democrático de DIREITO. Nós somos um Estado que responde juridicamente em primeiro plano, e isso não pode ser escanteado”, defende.
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Para ela, apesar de amplamente utilizado, o termo “gênero” ainda é ponto de disputa. “Há quem o utilize hoje como variação aos feminismos, como se masculinidade não fosse também uma questão gendrada; ou como uma equivalência de sexo binário (marcação biológica) ou de sexualidade (orientação do desejo). Ou ainda (e esses são os mais preocupantes para a democracia) como ‘ideologia de gênero’, que é uma distorção religiosa, sem qualquer lastro real amplo, com fatos e debate público qualificado, em que fantasmas amplos – desde aborto legal a cirurgias obrigatórias de mudança de sexo em crianças, delírios sobre banheiros e cores de vestuário – passam a integrar o cotidiano, não meramente como um fato risível, mas como projetos de lei”, analisa.
Embora sem lastro na realidade, tais afirmações são catalisadoras de afetos, engajam, criam comunidades digitais e políticas. “É sobre valor moral”, explica Emmanuella.
Violência digital
Os dados coletados pela autora em sua pesquisa comprovam o que vem sendo noticiado como tendência: mulheres jovens são mais “progressistas” e homens são mais “reacionários”. “
“E isso não está sendo lido adequadamente pelo poder político institucional. Fenômenos masculinistas como os ‘legendários’, coaches religiosos, influenciadores de bets, e mesmo versões atualizadas de esposas troféu, feminilidade, ‘moda modesta’, submissão feminina, são resultados diversos de uma movimentação mais ampla e gregária de pertencimento e exclusão”, explica.
Dados de violência digital mostram como esses movimentos ganham materialidade com a violência, já que o principal “ódio” manifestado nas redes tem ligação com gênero (91%), sendo 82% como misoginia/violência contra a mulher/antifeminismo e 9% LGBTfobia. Racismo é 5%, e capacitismo/xenofobia interna contra nordestinos e indígenas a 4%.
“Isso não quer dizer que pautas raciais não sejam um elemento de ódio e nem um problema real, mas que as associações de ódios mais amplos e que implicam engajamento em violência são conduzidas pelo antifeminismo. As mulheres já foram o fiel da balança nas eleições ao Executivo Federal de 2018 e 2022. Mas a nível municipal e mesmo estadual, o que se revela é que há uma presença massiva de projetos de desmonte do Estado e de políticas públicas, de escassez do nosso tempo e de sobrecarga, com um fator de gênero que alcança a lógica de homens a direita, mas também a esquerda”, detalha.
“Há uma disputa sobre virtude e o papel da família, do feminino, da maternidade, e mesmo o lugar da mulher cis – como se a existência de pessoas e mulheres trans fosse uma violência intrínseca nas disputas do ‘um’ lugar patriarcal”.
Há um plano de fundo que é a problematização semiótica disso, de se pensar como o poder é pensado para ocupação dos espaços, a partir do referencial masculino, que a autora chama de androcentrismo político. Essa referência é mais ampla que o patriarcado, uma vez que centra a interpretação de mundo como um sistema em função desse sujeito ideal masculino.
“Quando a gente (mulheres) tenta ‘caber’ nos espaços, a tutela passa a ser ampla porque nosso corpo em si se torna um território de decisão e arbítrio, alheio a nossas demandas e necessidades, num código de existência e até de vestuário que tem classe e raça também como linhas demarcadoras, nos tantos capitais sociais que se atravessam. De modo que tudo que remeta ao feminino como desejo de consumo e objeto (um corpo a servir o belo masculinista) passa a ter que ser controlado e marcado”, acrescenta Emmanuella.
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A masculinidade, segundo a autora, não se pensa enquanto tal e, portanto, tem reagido com a violência e o controle inerentes à tradição universalista homogênea. “Eles reagem, claro, porque as estruturas sempre lhes serviram. Não é episódico que a política e mesmo o Direito sejam hostis às mulheres, porque não são reconhecidas como sujeitos públicos e aptas. Esse retorno à ‘tradição’ aqui não é isolado. Nem apenas uma tendência de rede social. É porque a tradição os beneficia. Se perceberam parte, e não todo. E querem voltar a lidar com o espelho – porque entre semelhantes é mais fácil estabelecer verdades e impô-las.”
A “tradição”, aponta a autora, “é o lugar quentinho da memória em que a mulher fica em casa cuidando, limpando, cozinhando, parindo, obedecendo”, mas não decidindo politicamente. “O ‘debate’ é papel social de gêneros e comportamento porque isso captura nossa energia do cotidiano e nos afeta diretamente, porque nos controla e nos coloca em competição conosco. O principal é a certeza de que o pequeno, o cotidiano, o ‘feminino’ e o ‘feminista’ não foge à lógica dos temas “maiores”. Porque o que temos em curso, mesmo num governo federal em tese progressista, é um ataque ao estado social. E quando se ataca o estado social, quem coloca no colo o acúmulo e a organização da vida somos nós, mulheres e vulnerabilizados em geral, e se devolve a escassez para resolução individual”, finaliza Emmanuella.
“Deus, Pátria Família” é o segundo livro de Emmanuella Denora, também autora de “(Re)Apropriando-se de seus corpos” (2018). É possível acompanhar toda a produção acadêmica da autora em seu perfil nas redes sociais (Instagram @manudenora)
