Você sabe, já tenho idade. Aos 89 anos já não faço muita coisa. Minha vista estava bem ruim por causa da catarata, mas a minha neta mais nova conseguiu médico pra mim e agora vejo um pouco. As coisas mudaram muito desde que fui deixando de enxergar.

Os meninos da Luzia tão tudo grande já. Uns moços bonitos, fortes, cabelos bem cortados…Passam aqui e falam: ‘bença bisa’. E eu digo: ‘Deus te abençoe e te guarde’. Antes bastava abençoar, mas agora tenho que clamar a Deus para guardar eles, porque os meninos pretos são mortos até indo buscar pão na padaria. Antes quem cometia crime era o criminoso, agora ser preto é o crime. A sentença tá na cor da pele. Se é preto, matam sem dó.

As meninas também já tão tudo moça feita, trabalham no comércio e em casa de família. Elas vão pra igreja de saia comprida. Dizem que é um jeito de afastar patrão, assim não mexem com elas. Mas a menina mais nova essa é diferente. Ela é boazinha, mas tem horas que ela me fala umas coisas que fico sem saber como pode ser tão afiada.

Ela achou o seu pente garfo, aquele que você trouxe da Bahia, e não larga mais. Sempre afofando o cabelo que tem pra mais de 10 centímetro de altura. Ela fala: É minha coroa, bisa. E dia desses caí na besteira de responder: Ah, que coroa o quê esse cabelo ruim aí. E ela brigou comigo. Disse que já foi o tempo em que cabelo bom era aquele cabelo lisinho e baixinho das moças clarinhas da televisão. ‘Hoje cabelo bom é cabelo que deixa ser quem a gente é!’. E saiu pisando firme.

Fico enfeitiçada com essa menina! Sabe ler e escrever e sabe da nossa história inteirinha, tem orgulho de ser quem é. Aquelas coisas que a sua avó ensinava pra gente lá no terreirão na Bahia, na Itobira, ela sabe tudo e disse que não vai deixar se apagar a nossa memória.

Outro dia ela quis me ensinar a escrever umas coisas, mas imagina, eu que não sei nem falar direito! E ela disse que a minha fala é ‘pretuguês’. E eu lá sei o que é isso? Ela explicou que escrever do jeito que eu falo não tem nada de errado. Mas acha que eu, uma preta velha, sem estudo e já sem muita função vou prestar pra escrever? Ela disse que isso é ‘escrevivência’.  Fico sem saber do que ela tá falando, mas as palavras dela mexem comigo, me enchem aqui dentro, sabe?

Ela diz que não preciso escrever se não quiser, que nós somos gente de passar a história falada mesmo. Outro dia agarrou me contar que foram os brancos que vieram com essa história de escrever e com isso eles escrevem o que querem, até da gente escrevem coisas. Chamam a gente de bandido, de desocupados… Imagina, bem nós que trabalhamos dobrado, nós que labutamos todos os dias de sol a sol.

Contei pra ela de uma vez que uma patroa veio me falar que preto era muito cheio de mimimi. Falei pra patroa que nós que somos pretos não esquecemos não que para os brancos vindos da Europa teve terra e boas vindas, para os nossos, que foram arrancados à força da mãe África, só teve escravização e sofrimento e continua, continua igualzinho.

Quando falamos desses assuntos os brancos sempre disfarçam um pouco, falam do absurdo que é o racismo, como se isso fosse um assunto nosso quando é assunto deles, foram eles quem criaram o racismo e são eles que se beneficiam dele todos os dias.

As gentes que se acham de bem fingem não ver o diferença que se faz entre um preto e um branco, dizem que não veem cor, mas não querem estar na pele de um preto nem por um segundo sequer, porque sabem que o mundo que é justo com eles é injusto com os pretos.

Quando falo isso a menina me abraça, fala que é intelectualidade preta, diz que entendo muita coisa, mas eu sou só uma preta velha. Passo o dia aqui mexendo nas minhas plantas, nas ervas pra curar tosse, verdura pra comer, à tardinha varro o quintal e enquanto minhas mãos trabalham fico pensando em como é que gente que tira vantagem em cima do sofrimento do outro pode deitar tranquilo a cabeça no travesseiro a noite pra dormir. Eles sabem que são privilegiados. A quem será que eles pensam que enganam?

Quando a gente entra nessas conversas a menina fala de feminismo negro e de umas mulheres lá que eu não conheço. Uma tal de Lelia Gonzales, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro… Diz que são tudo mulher preta. Sei lá de onde que ela conhece tanta mulher preta assim. Aqui na rua não vejo nenhuma dessas passar, ainda mais mulher assim, estudada. Aqui você sabe, nem escola tem. Tá pra mais de 30 anos que estamos aqui e o asfalto ainda nem chegou. Mas ela fala que é da tal da internet que ela conhece essas mulheres.

Vixi, isso de internet é muito pra minha cabeça, mas te falo, dentro dessa menina tem algo de diferente! Não contrario ela não. Deixo ela sonhar, porque é sonhando que a gente caminha. Foi sonhando que chegamos até aqui e se depender dessa menina nós ainda vamos muito longe.

* Ana Maria Alcantara é mulher preta, mãe, jornalista e feminista negra. Ligada no rolê de skincare nas horas vagas

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