Anúncio de não pagamento das bolsas Capes desesperou pesquisadores; hoje ministro anunciou que valores serão pagos até terça-feira (13), mas pasta segue com R$ 900 milhões bloqueados
Cecília França
Fotos: Filipe Barbosa
“Esperei um ano e quatro meses para conseguir uma bolsa, porque já estava sucateado antes. Aí, quando finalmente consigo, recebo só três meses (setembro, outubro e novembro) e agora para”. O desabafo é da moradora de Londrina, doutoranda em Economia Política Mundial pela Universidade Federal do ABC (UFABC), Gina Mardones.
Na tarde desta quinta-feira (8), o ministro da Educação, Victor Godoy, declarou que a situação de bloqueio de 200 mil bolsas da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) foi revertida e que os pesquisadores receberão até a próxima terça-feira (13). A bolsa tdeveria ter sido depositada ontem (7). Bolsistas contam que dependem do pagamento para custear despesas básicas e para manter suas pesquisas.
“O impacto pessoal é imediato: não conseguir pagar as contas básicas, como aluguel, luz, intranet, condomínio, etc. Em relação à pesquisa, a gente mais uma vez sai prejudicado, porque o bolsista Capes tem uma série de critérios que precisa seguir para receber a bolsa. Em termos de rendimento, não podemos, por exemplo, ter vínculo empregatício via CLT, nem contratos com PJ (pessoa jurídica). Assinamos um documento de dedicação exclusiva com a pesquisa e a universidade”, explica Gina.
Para a pesquisadora, há muita desinformação sobre o que é ser bolsista no País. Acredita-se que as bolsas são distribuídas de forma indiscriminada, o que não corresponde à realidade. No caso dos contratos que exigem exclusividade, como o dela, a cobrança é ainda maior.
“A cobrança por produtividade e qualificação é muito maior, já que precisamos manter a qualidade da pesquisa. Isso significa participar de congressos, que podem variar de R$ 100 a R$ 500. Se for presencial, tem o deslocamento. Precisamos correr atrás de cursos de idiomas, exames de proficiência. Às vezes precisamos de um material essencial para a pesquisa, um livro que não está disponível em pdf, e muitas vezes você só consegue importado. Eu, por exemplo, já cheguei a pagar pouco mais de R$ 200 em um livro nesse esquema, porque ele é fundamental para a minha pesquisa”, detalha.
Karime Peres é uma das 770 estudantes de mestrado e doutorado da Universidade Estadual de Londrina (UEL) afetadas pelo bloqueio das bolsas e relata o desespero vivido nesta semana. Ela pesquisa gênero no âmbito da economia política pelo Mestrado em Comunicação da UEL.


“Desde segunda-feira já há essa inquietação se a gente vai receber ou não, porque o governo de transição informou que não tinha dinheiro para pagar as bolsas da Capes esse mês. Eu pago minhas contas com o dinheiro da bolsa e é bem triste porque, ser bolsista me possibilitou fazer muitas coisas: as leituras, estar presente em espaços que enriqueceram minha pesquisa e esse desmonte da educação é para destruir essa criticidade que a gente adquire”, avalia.
A pesquisadora ressalta que o desmonte também desestimula outros estudantes a seguirem no caminho da pesquisa. Ativista, Karime lembra que há um projeto de sucateamento da educação, intensificado também no sistema público do Paraná.
“Não somente as bolsas, mas no Paraná a gente tem 27 escolas que podem ser privatizadas, tem o Hospital Universitário que também está correndo o risco de ser privatizado e isso ‘bate’ na gente, faz com que a gente repense toda uma trajetória de vida, de acreditar na ciência, na transformação social. Eu espero que esse novo governo olhe para a gente – estudante, pesquisador, que faz a ciência nesse país – e valorize. Porque só a educação é capaz de modificar minimamente a estrutura social”, conclui.
Estudantes de mestrado recebem bolsas mensais de R$ 1.500 e os de doutorado, R$ 2.200. O valor da bolsa não é reajustado desde 2013, o que significa uma defasagem de 75%, se comparado ao salário-mínimo (informações da Agência UEL).
Bolsas serão pagas, mas bloqueio no MEC continua
O ministro da Educação, Victor Godoy, anunciou na desta quinta-feira a liberação de R$ 460 milhões para despesas da pasta. Segundo informações do Portal G1, o valor é apenas um terço do total de R$ 1,36 bilhão que foi bloqueado do Ministério da Educação (MEC) em um decreto publicado em 30 de novembro.
O ministro diz que a verba atenderá “100% da bolsa assistência estudantil, bolsas PET, bolsa permanência Prouni”. A Capes receberá R$ 210 milhões para pagar 200 mil bolsistas.
Os demais R$ 900 milhões do MEC continuam bloqueados.
Universitários realizam novos protestos




O Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UEL realizou novas manifestaçãoes ontem (8) contra o bloqueio nas bolsas e o cenário de sucateamento da educação. Dois atos foram na sede da universidade e o último, às 18h, em frente ao Cine Teatro Ouro Verde, no Calçadão.
Para a presidenta do DCE, Stela Pinheiro, o processo atual é de desmonte.
“A gente está vendo os órgãos públicos serem pritatizados; dentro da universidade a gente já vê que o RU (restaurante universitário) está passando por um processo de privatização; a gente está vendo aí a retirada de bolsas, que é a retirada de direitos. Então a gente está tirando dinheiro da educação, da pesquisa, e é muito grave o que está acontecendo”, avalia.
Para Stela, apesar do caráter progressista do governo federal que assumirá em 2023, a resistência dos estudantes deve continuar, diante dos avanços do governo do Paraná contra a educação pública. Ela vê os universitários mais engajados na luta.
“Desde antes da eleição a gente está vendo uma mobilização maior. Agora a gente está vendo que a galera quer paticipar, quer construir Centros Acadêmicos… Então mesmo que as pautas não atinjam diretamente os estudantes (como os cortes de bolsas) eles agem, eles se sentem reconhecidos nas lutas”.
