E estas que hoje conto para vocês aconteceram, inacreditavelmente, numa manhã barulhenta do centro de Belo Horizonte (MG).

Entro no armarinho para comprar uma linha de seda azul-turquesa. A atendente se aproxima cordial e enquanto me mostra a mercadoria eu a observo. Uma mulher alta, exuberante e delicadamente sensual. Os cabelos presos num coque farto ressaltam os brincos compridos que combinam com a blusa amarela. Eu digo que ela é bonita. Ela sorri e me deseja um bom trabalho.

Então aparece uma mulher que me diz: “Esta preta é muito metida, você não acha”?

— Eu acho que a senhora é uma pessoa racista, digo.

— Racista eu?

— Sim. E lhe dou as costas.

histórias - dreads/Carlos Monteiro
Foto: Carlos Monteiro

Em frente a uma loja de calçados eu espero o sinal abrir para atravessar a rua.

Uma mulher, vendedora de balas, observa um sapato de salto. Comenta com a companheira que precisa comprar porque será madrinha de uma criança no domingo.

Uma senhora se aproxima e lhe diz:

— Aqui não tem nada para gente como você. Ali perto tem um brechó. Vai lá!

Então ela disse: “A senhora quer que eu te responda com a boca ou com a mão”?

E eu? Eu ri.

Toda vez que vou ao centro da cidade, não resisto ao caldo de cana com pastel frito de uma famosa lanchonete. Na fila do caixa, à minha frente, está uma mulher com dreads no cabelo.

A mãe, com sua criança no colo, põe a mãozinha do filho no cabelo da moça, como se fosse um experimento.

A mãe riu.

A moça disse: “Seu filho é criança e você o ensina a ser mal-educado. Que pena”!

Eu concordei em pensamento.

Eu queria contar histórias com finais felizes.

Talvez um dia, quem sabe…?

*Odette Castro é artista, escritora, ativista social. Através da sua experiência com a dor e o luto, mostra que é possível seguir em frente e ser feliz. Já foi servidora pública e também empresária. Hoje é cronista do cotidiano, criadora dos projetos “Uma flor por uma dor” e “Fale certo”, autora de “Rubi”, ativista de inclusão social, mãe e avó

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