Manifestação neste domingo (14), com apoio do Movimento Justiça por Almas, denuncia morte de Lucas Henrique Jorge Damasceno
Nelson Bortolin
Familiares de Lucas Henrique Jorge Damasceno, morto aos 32 anos pela Polícia Militar no último dia 8, no Jardim Vista Bela (Zona Norte), realizam uma manifestação no próximo domingo (14), na feira livre da Avenida Saul Elkind. O ato contará com apoio do Movimento Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta e terá início às 9 horas.
Segundo a PM, Lucas foi morto em confronto. Mas a família contesta: “Sete tiros no peito não é defesa, é execução”, afirma a mãe, a coletora de sangue Márcia Jorge de Oliveira.
A versão da polícia, de acordo com nota enviada à Rede Lume, é que “equipes receberam informações de que um indivíduo, integrante de organização criminosa e com oito mandados de prisão em aberto, estaria em um veículo Corsa de cor cinza”. O carro foi visto pela Rotam, que tentou realizar a abordagem.
“O passageiro apontou uma arma de fogo em direção aos policiais. Diante da injusta agressão, foram efetuados disparos pela equipe”, diz a nota.
A PM ainda alega que acionou socorro médico que “posteriormente constatou o óbito do indivíduo”. “Na sequência, os demais órgãos competentes foram acionados para as providências cabíveis”, acrescenta.
Versão da família
A família relata que Lucas ficou preso sete anos por tráfico de drogas. Em janeiro deste ano, ele progrediu para o regime aberto. Um novo mandado teria sido emitido, mas o jovem decidiu não voltar para a cadeia e seguir no emprego que havia arrumado em uma pizzaria.
A viúva, a chapeira Vitória Lopes de Souza, contou à reportagem que, na segunda-feira, levou o marido até um carro de aplicativo, pouco antes das 16 horas, para mais um dia de trabalho. “Ele pegou o Uber às 15h59. Às 16h02 me mandou um áudio desesperado, dizendo: ‘Amor, a Choque está atrás do carro, mandando parar o Uber’. No fundo, dava para ouvir a sirene”, relatou.
Vitória diz que costumava acompanhar os deslocamentos do marido pelo celular e sabia exatamente onde ele estava no momento da abordagem. “Fui até lá, a rua estava isolada. Os policiais estavam rindo, debochando. Filmei a cara de todos.” Ela também conseguiu o telefone do motorista do carro de aplicativo, mas relata que ele desligou ao descobrir quem ela era.
As mensagens que Lucas enviou de dentro do carro, segundo ela, desapareceram. “Acredito que foi a PM quem apagou”, acusa.
Revolta da mãe
A mãe de Lucas também foi ao local da morte e afirma ter sido humilhada pelos policiais ao tentar se aproximar do corpo do filho. “Eu disse: ‘Minha mão não é pesada, mas a de Deus é’. Um deles respondeu: ‘Pois é, pesou. Matamos seu filho porque você não foi mãe para criar direito’”, recorda.
Márcia diz que o filho estava tentando mudar de vida depois de tanto tempo na prisão. “Ele queria trabalhar, ser alguém. Ganhava R$ 100 por dia, gastava R$ 40 em Uber para não andar na rua com medo da polícia. Na mochila dele só tinha luva de pizzaria, remédios, fone de ouvido e dois pães com manteiga”, afirma.
A dona da pizzaria, Linda Oliveira, confirma que ficou abalada com a notícia da morte. “O Lucas foi indicação do irmão, chegou sem experiência alguma, porém, com uma vontade imensa em aprender. Ele aprendeu muito rápido, sempre educado, dedicado, proativo.”
Na segunda-feira, colegas estranharam sua ausência. “Ele era muito pontual ou antecipado. E então recebi uma ligação dizendo que ele tinha sido baleado. Viram em uma live que a esposa dele estava fazendo”, contou.
A empresária diz não saber como era Lucas fora do trabalho, mas faz questão de ressaltar: “Dentro da pizzaria, era uma pessoa boa.”
