Projeto Favela Library, patrocinado pelo Promic, realiza oficinas de graffiti na Biblioteca Itamar Assunção, no Conjunto Novo Amparo

Texto e fotos: Mariana Guerin

Num sábado nublado, me levantei cedo e parti para conhecer a Biblioteca Itamar Assunção, no Conjunto Novo Amparo, Zona Norte de Londrina. Na minha primeira vez cruzando sozinha as ruas do bairro, dei uma volta a mais para achar o prédio que abriga a pequena coleção de livros que o bibliotecário Leandro Palmerah reuniu para a comunidade.

Cheguei junto com a turma, às 9 horas: Palmerah estava apresentando o espaço para a artista Kenia Kuriki e os três alunos que iniciariam naquela manhã uma série de oficinas de graffiti. As aulas fazem parte do Favela Library, projeto de bibliotecas comunitárias patrocinado pela Secretaria Municipal de Cultura, por meio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), idealizado pelo bibliotecário.

Me apresentei e me “infiltrei” na aula. Ficamos eu, Duda, Lucas, Igor e Palmerah ouvindo Kenia contar um pouco sobre a história do graffiti enquanto mostrava o último livro publicado pelo coletivo CapStyle, de Londrina, do qual ela faz parte. A obra conta com desenhos de vários grafiteiros locais e de outros estados do Brasil, que deixaram suas TAGS no muro de um cemitério de Londrina.

A cada desenho, os olhos curiosos dos alunos brilhavam e eles até se reconheciam em alguns daqueles graffiti, encantados ora pelo tema escolhido pelo artista, ora pela combinação inusitada das cores. Num momento, Palmerah até abriu um dos livros de arte que tinha levado como referência, instigando ainda mais a imaginação dos três jovens, moradores do Novo Amparo.

Igor, Duda, Palmerah, Kenia e Lucas

“O desafio é olhar para tudo à nossa volta como se fosse um desenho”, determinou a professora Kenia, reconhecida por ser a única mulher no Coletivo CapSytle. Seu estilo carrega sua ancestralidade: nos muros do cemitério ela pintou, em parceria com uma amiga, um retrato de sua avó em meio a várias flores. Além de grafitar, Kenia é tatuadora.

Kenia e o retrato da sua avó

Kenia explicou que cada artista é único e transmite uma mensagem diferente com seu graffiti, que reflete suas origens, inspirações e possibilidades, dentro da sua realidade. Existe, também, uma tabela de cores que ensina as melhores combinações entre cores opostas e complementares, que facilita o trabalho do grafiteiro.

Ela lembra que quando começou a grafitar, nos anos 1990, não havia internet que possibilitava acesso fácil aos materiais de referência e os artistas costumavam comprar revistas para buscar inspiração e praticar o graffiti.

“Não precisa se prender só ao spray, você pode fazer com o material que você tiver, porque o graffiti é a intervenção urbana que vem do vandalismo, então não precisa ser, necessariamente, com spray, que é um material de difícil acesso.”

“Você não vai deixar de expressar os seus sentimentos, a sua arte, porque não tem spray. Então o látex funciona. Eu mesma comecei pintando com látex e pincel e hoje em dia estou aprendendo ainda a dominar o spray”, conta Kenia.

Do papel para o muro

Após ouvirem sobre arte, graffiti, cores, inspirações, as diferenças entre o uso do spray e da tinta, dos detalhes feitos com pincel e sobre as infinitas possibilidades profissionais que a arte pode proporcionar, os alunos receberam uma apostila com modelos de letras e números e deveriam escrever seus nomes, iniciais ou apelidos numa folha de sulfite. Este desenho foi transferido depois para o muro interno do prédio da associação de moradores do bairro, onde as aulas acontecem.

Pude perceber as dúvidas e inseguranças que acompanharam Igor ao tentar escrever sua TAG – que é a expressão pela qual o artista quer ser reconhecido, seja seu nome, seu apelido ou qualquer imagem ou palavra que o represente. Ele iniciou desenhando um smile no lugar do pingo no i em Igor, mas logo se arrependeu. Apagou e reconstruiu as letras até se dar por satisfeito. “Acho que gosto mais de desenhar letras”, concluiu.

Enquanto Duda permaneceu calada durante toda a aula e escolheu letras arredondadas combinadas a uma fonte mais marcada para escrever seu nome, copiando a apostila com a facilidade de quem parece já ter feito aquilo antes, seu namorado, Lucas, expressou pura intuição ao escrever o L do seu nome acompanhado de um desenho criado ali, na hora, sem esforço. Traço de artista.

De esboço na mão, os alunos puderam escolher uma cor de spray cada um para praticar no muro. Igor, bastante impulsivo, já mandou ver o spray logo de primeira e precisou da ajuda da professora para desenvolver seu desenho no muro. Enquanto Lucas e Duda riscavam lado a lado seus esboços no muro com uma pedra. Só depois do rascunho pronto eles começaram a colorir.

Cinza, rosa e amarelo foram as cores escolhidas e revezadas pelos amigos na construção do muro. E a professora Kenia acompanhando o pensamento de cada um, dando dicas de contornos e combinações de cores, explicando sobre como a distância influencia no traço mais fino ou mais grosso e em como construir sombras para destacar as letras.

As duas horas de aula passaram voando e era hora de ir embora. O trio levou para casa a apostila com exemplos de letras e números, folhas de sulfite e lápis para praticar até a próxima aula. Ao todo, serão quatro oficinas, sempre aos sábados de manhã.

Antes de me despedir, pedi para os jovens darem um depoimento sobre a experiência. Tímidos, eles deixaram a missão para Lucas, que topou gravar este vídeo para a Rede Lume.

Favela Library: “Projeto é revolucionário”, diz coordenador

De acordo com o coordenador do projeto, Leandro Palmerah, as oficinas promovidas pelo Favela Library têm como principal objetivo aproximar e desenvolver culturalmente os jovens e as crianças dos bairros marginalizados de Londrina.

 “O nosso projeto é revolucionário, pois ele dá a possibilidade do jovem, do adolescente e da criança terem acesso a um livro, a uma contação de história, entretenimento e muitas outras atividades culturais, como jogos, brincadeiras e a proximidade com a leitura, que é determinante para a redução do analfabetismo”, descreve.

Palmerah reforça o impacto positivo que iniciativas como o Promic podem ter em projetos como o Favela Library. “O Promic é de extrema importância, pois é ele que abre essas possibilidades de levar e montar uma biblioteca comunitária dentro de espaços que, por décadas, foram marginalizados e esquecidos pelo poder público.”

“Temos essas oficinas na Biblioteca Itamar Assunção, no Novo Amparo, mas também vamos realizar outras atividades na Biblioteca Black do Aquiles e na Biblioteca do Ciranda, no Avelino Vieira”, conta.

Para a artista Kenia Kuriki, a expectativa é de que as oficinas de graffiti consigam incentivar os participantes a transformarem suas vidas por meio da arte. “A arte tem o poder de transformar a vida e o ambiente, principalmente o graffiti, que é uma intervenção que nasceu das ruas.”

“Eu mesma conheci o graffiti no final dos anos 1990, através da cultura do hip-hop e desde então sempre acompanhei os principais artistas aqui da cidade. Foi só em 2015 que tive coragem de colocar a minha arte na rua. Então, para mim, é uma grande alegria poder trabalhar e promover o graffiti para essas crianças e adolescentes. Tenho certeza de que será muito especial”, diz.

 (Com informações da assessoria de comunicação da Prefeitura de Londrina)

*Mariana Guerin é jornalista formada em 2001, com experiência em reportagem e edição. Mantém a coluna Bocados de Histórias no site Rede Lume desde 2020 e adora escrever crônicas do dia a dia.

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