Por Beatriz Herkonhoff*
Outro dia encontrei uma amiga que tinha acabado de se aposentar e que me perguntou: “O que você anda fazendo com o seu tempo livre como aposentada?”
Na hora fiquei meio sem saber o que responder e ela acrescentou: “qual o seu hobby?”
Deu mais branco ainda. Pensei: “não tenho hobby. Não tenho habilidades manuais, não sei desenhar, não sei bordar, não sei pintar, não toco nenhum instrumento musical, sou desafinada, não
sei cantar, sou péssima em qualquer esporte e não sei cozinhar.”
Aí, meio titubeando saí do olhar negativo sobre minhas habilidades e respondi: “Amo escrever! A escrita ocupou um espaço que ficou vazio ao não ter que acordar cedo e sair para trabalhar.”
Todas as habilidades que citei acima também geram potência e sentido para a aposentadoria. Mas percebi que minha amiga não queria saber sobre o meu hobby. Ela estava perguntando sobre
como eu lidava com o vazio provocado pela aposentadoria.

Um vazio que ocupa uma dimensão existencial quando nossa mente não está mais focada no trabalho.
Ou quando ao longo de nossa vida não preenchemos vazios interiores que gritam e pedem socorro. Ou quando não diversificamos as atividades e os compromissos para além do trabalho.
Ela estava perguntando também sobre o vazio temporal. O que fazer quando o tempo passa a ter uma conotação mais livre, leve e solta e não sei como preenchê-lo?
Estava referindo-se ainda ao vazio deixado pelos amigos do trabalho que não estarão mais presentes em nosso cotidiano com suas brincadeiras e vínculos afetivos.
Como cultivar vínculos de amizade ao longo de nossa trajetória de vida? Como viver a beleza da cumplicidade, da confiança, da lealdade, do respeito e da presença amiga nos momentos alegres e
tristes? Como perpetuar essas experiências?
Percebi que não adiantaria falar sobre como ocupo meu tempo lendo, vendo bons filmes, ouvindo música, cuidando da saúde física e mental na academia, dançando, buscando a natureza, o verde
das florestas, o poder dos rios e dos mares, viajando, encontrando com pessoas significativas em minha vida.
Ela queria conversar sobre as habilidades para amar, acolher, solidarizar e incluir. Habilidades que preenchem os vazios deixados pela ausência do trabalho, que dialogam com os vazios deixados
pela incompletude humana.
O vazio sempre esteve presente desde o nosso nascimento, juventude e vida adulta. Mas as demandas do trabalho, a pressa, o estresse do dia a dia, as responsabilidades, as exigências para planejar e executar tarefas, não permitem que a voz interior se manifeste em sua essência e demandas.
Depositamos no outro, no trabalho e nos objetos a responsabilidade pelo preenchimento de vazios.
Vivemos freneticamente e não nos preparamos para incluir em nosso cotidiano tempo de qualidade e a conquista de plenitude em todas as áreas.
Tempo para o ócio, para o relaxamento, para nada fazer, para o descanso, para o diálogo interior, para o atendimento de nossas demandas internas e para o preenchimento de pequenos vazios
que vão se ampliando e abrindo buracos que geram sofrimento psíquico e espiritual.
Tempo para a convivência com amigos e familiares. Tempo para aprender com as crianças e com os jovens.
Tempo para refletir sobre as ausências, as frustrações e a solidão. E quando o trabalho deixa de existir, não sabemos o que fazer.
Vem a depressão, o desânimo e a falta de sentido para a vida.
A aposentadoria coloca-nos em contato com a solidão. Com vozes que eram caladas por falta de tempo.
Com mais tempo livre pergunto-me: Para onde vou direcionar a energia que gastava no trabalho? Como vou recomeçar? Como vou ressignificar a minha vida? Como vou criar novas dimensões que até então não existiam?
Como reinventar o meu cotidiano? Como construir um tempo de qualidade que suscite o prazer, a alegria de viver e a convivência fraterna?
Como envelhecer com alegria, colocando-me a serviço daqueles que menos têm?
Passei 30 anos ou mais de minha vida cuidando dos outros, de suas necessidades e demandas através do meu trabalho. Como aprender a cuidar mais de mim? Como colocar-me como
centro em meu projeto de vida?Com a aposentadoria, preciso realizar uma passagem do velho para o novo. Preciso imprimir nossos significados e sentidos para a minha existência.
Colocar-me em contato com o mais profundo do meu ser. Com o meu corpo que fala, com a minha psiquê que se manifesta, com a minha alma que se revela.
Preciso fazer isso apenas quando me aposentar ou durante minha trajetória de vida?
Será mais fácil aposentar e envelhecer com qualidade quando eu amar as pequenas coisas da vida e procurar dar o melhor de mim em cada etapa da minha existência.
Como construir vivências desde a juventude que vão além do prazer oferecido pelo trabalho? Como extrapolar as quatro paredes do trabalho desenvolvendo ações e gestos que toquem aqueles que me cercam? Como despertar a crença e a esperança num mundo melhor, com mais igualdade, justiça e que exigem de mim compromissos concretos?
O debate não deve se fechar no hobby que ocupará o vazio da aposentadoria, mas nos valores e crenças construídos que darão um sentido para a minha juventude, mundo adulto e
envelhecimento.
Como festar, esperançar e viver a gratidão permanentemente?
Questões que farão a diferença quando eu me aposentar.
Leia também: Quando a depressão nos paralisa, há tempo para ressignificar e recomeçar?
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
