A generosidade tem o poder de transformar nossas vidas.

Quando partilhamos o pouco que temos, saímos do individualismo e entramos em sintonia com aqueles que menos têm.

Não possuímos tudo, não somos portadores de todos os dons. Por isso, não podemos ser generosos em todas as áreas.

A generosidade individual multiplica-se quando faz parte de uma ciranda coletiva.

Somos limitados e necessitados da generosidade do outro para aperfeiçoarmos a vivência do amor e para construirmos um mundo mais justo.

A generosidade manifesta-se nas áreas: financeira, afetiva, cognitiva, intelectual e espiritual.

Na partilha dos bens, dos objetos e das roupas.

Na inteireza e na presença com qualidade.

No olhar, no toque e no abraço.

No jeito de amar e de colocar-se a serviço.

Nas relações com os filhos, com os pais e com os amigos.

Nas relações no trabalho.

Somos generosos quando: partilhamos nossos dons e conhecimentos; estabelecemos relações de cooperação e rompemos com a competição.

Somos generosos quando: paramos para conversar com uma pessoa em situação de rua; sentamos no chão para brincar com as crianças; incluímos o outro em nossas conquistas; reconhecemos e valorizamos aqueles que estão próximos e aqueles que estão longe.

A generosidade une, agrega e congrega.

A generosidade é uma entrega que supera as expectativas. Vai além daquilo que se espera de alguém.

A generosidade liberta e permite que o amor flua com leveza e abundância.

Mas a generosidade também pode gerar comodismo na pessoa beneficiada por essa virtude, impossibilitar que ela seja autônoma e impedi-la de desenvolver suas habilidades.

Quando a generosidade se transforma num relacionamento abusivo, adoece.

As necessidades do outro tornam-se prioridade. Aquele que recebe, passa a querer cada vez mais e fazer cada vez menos por si mesmo.

Quando não colocamos limites, impedimos o crescimento e a autonomia daqueles que amamos.

Outros elementos são obstáculos para estabelecermos uma relação saudável com a generosidade, como: o excesso de controle e de cobrança, a culpa, a baixa autoestima, o desejo de agradar, de ser reconhecido, de pertencer aos grupos e de afirmar nossa bondade.

Quando somos generosos, passamos a esperar que o outro diga sempre sim ao que lhe propomos, que atenda às nossas expectativas.

Por que muitas vezes precisamos ser aprovados? Porque nossa autoestima e nossa autoimagem estão baixas.

Nos sentimos superiores e melhores. Julgamos a atitude do outro, sua mesquinhez ou dificuldade em partilhar algo.

Para colocar em evidência nossa generosidade, desqualificamos o outro.

A culpa está presente em muitos gestos de generosidade.

Ao longo da vida carregamos culpas inconscientes que irão interferir em nosso jeito de ser e agir. Nos sentimos culpados e responsáveis pela felicidade do outro.

Desde a gestação absorvemos os sentimentos e emoções de nossas mães e pais.

Sentimos culpa

Pela separação dos nossos pais, por uma morte na família, por uma omissão.

Por suas tristezas, brigas, desencontros e frustrações.

Pelas decisões que nossos filhos tomam na vida.

Por termos feito o outro sofrer ao rompermos um relacionamento.

Por não correspondermos às expectativas que nossos pais depositaram em nós.

Por termos mais do que o outro.

Por termos violado nossos princípios, crenças e valores.

A culpa nos consome, angustia e paralisa.

Somos duros demais com nós mesmos.

Nos acusamos, apontamos o dedo para nossos erros. Não perdoamos nossas falhas.

Somos exigentes e perfeccionistas e pouco amorosos com nós mesmos em razão daquilo que não realizamos.

Sentimos culpa até quando o resultado é inevitável e fora do nosso controle.

A generosidade enfraquece quando é movida pela culpa.

Se não trabalhamos a culpa e o excesso de cobrança, somos tomados por sentimentos negativos, atitudes compulsivas, insônia, ansiedade e depressão.

Convido-os a dialogar com as razões, contradições e limites em relação aos gestos de generosidade.

Estamos cuidando do outro com nossa generosidade ou estamos salvando a nossa criança que foi abandonada e rejeitada?

Como libertamos nossa generosidade das amarras, cobranças, culpas e carências que nos engessam?

Como viver a generosidade na dinâmica do respeito e da gratuidade?

Em minha trajetória de vida, nas relações familiares, nos compromissos sociais e profissionais, a generosidade foi impulsionada por uma motivação interior.

Tenho procurado ser generosa, mas fico atenta às minhas culpas e necessidades de ser reconhecida e amada.

Não posso virar refém da minha generosidade.

Não posso viver orientada pela ideia da recompensa e do reconhecimento social. É impossível agradar a todo mundo.

E vocês? Como a generosidade orienta sua existência?

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)

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