Assistente social leva sua ancestralidade para a universidade: “Eu trago a história do povo Kaingang, meu corpo território Kaingang”

Cecília França

Foto em destaque: Gilza Kaingang/Reprodução Youtube Cuia UEL

Gilza Kaingang, assistente social graduada, mestre e doutoranda pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), escreve agora um novo capítulo da história dos povos indígenas no espaço universitário. Ela é a primeira pessoa indígena a assumir um cargo como servidora da instituição.

Desde março Gilza atua como assistente social no Sebec (Serviço de Bem Estar à Comunidade), em um cargo comissionado. Com isso, sedimenta sua caminhada dentro da UEL, que teve início em 2006 na graduação de Serviço Social. Hoje ela está no segundo ano do doutorado.

“Desde quando ingressei na universidade a gente vem compondo essas parcerias com vários professores, psicólogos e outros profissionais e técnicos que são parceiros da causa indígena, da causa do movimento negro, que têm essa empatia”, contou Gilza em entrevista à UEL FM.

Gilza Kaingang em entrevista à UEL FM/Reprodução Instagram

“Encontrei várias dessas pessoas, até porque tenho três filhas e elas nasceram na universidade, caminham comigo nesse espaço. Priorizo isso também como mãe Kaingang. Trazer minhas filhas para esse espaço também faz eu trazer meu modo de vida Kaingang. Ter essa rede de apoio para conseguir conciliar todos esses afazeres é imprescindivel na minha caminhada e dos indígenas enquanto povo”, afirma.

A UEL implementou o Vestibular dos Povos Indígenas em 2002. Gilza foi aprovada aos 18 anos logo nas primeiras turmas. Mas permanecer nem sempre foi fácil. Ingressante em 2006, ela chegou ao segundo ano do curso somente em 2011.

“Desde que ingressei a luta tem sido permanecer. Hoje eu entendo perfeitamente que a dificuldade é posta como um todo. Eu não tinha condições de permanência, era a primeira vez que eu saía da aldeia. Meu modo de vida era totalmente diferente do modo de vida que estava sendo apresentado pra mim. Esses desafios aumentam quando o estudante indigena não tem parceiros. Essas dificuldades fazem com que muitos de nós não consigamos avançar”, declara.

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Por isso a luta não é individual, mas coletiva e ancestral. E ao ocupar espaços Gilza se sente representante de todo um povo.

“Quando estou aqui eu trago a história do povo Kaingang, meu corpo território Kaingang da terra indigena São Jeronimo. Isso acrescenta não só para nós indígenas, mas também para a universidade, para a sociedade e para a humanidade como um todo”, acredita.

Hoje, Gilza vê a universidade mais estruturada para receber estudantes indígenas, que somam 42 na graduação, de acordo com ela. Eles estão articulados na ARTEIN – Articulação dos Estudantes Indígenas da UEL, que, dentre outras ações, integra a Grupo de Trabalho UEL contra o Racismo.

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“Nossa presença faz com que se repense esse racismo estrutural, institucional que é colocado sobre nossos corpos”, defende.

“A gente entende que estar aqui na universidade é um aprendizado para nós, mas também é uma oportunidade de trazer a nossa comunidade, o nosso conhecimento, a nossa ciência, a nossa tecnologia, o nosso modo de fazer e de sentir o mundo”.

Luta ancestral

O acesso de estudantes indígenas à universidade reconfigura esse espaço, muitas vezes excludente. Sedimentar caminhos para os que virão na graduação, na pós e, agora, como servidora alegra Gilza. Ela conta que na outra ponta, ou seja, dentro das Terras Indígenas, as mudanças também já são visíveis.

“A gente tem muitos profissionais indígenas que já se formaram, então temos, por exemplo, unidades de saúde dentro das TIs que têm toda a equipe indígena. Isso também é uma conquista e revela a expansão da universidade dentro dos nossos territórios”, aponta.

A luta que trouxe Gilza até esse momento não é de agora. “Desde quando eu nasci a gente luta; desde quando os meus nasceram a gente luta; a gente continua resistindo desde 1500, quando os invadores chegaram. Então essa luta sobre meu corpo é permanente”.

(Com informações da UEL FM)