Paraná registra queda de 59% nas matrículas da EJA a partir de 2019; para entidades, ação estadual precariza o acesso ao ensino público

Paloma Ferraz, especial para a Rede Lume

Foto: Manifestação contra o fechamento de turmas da EJA em 2020/Ivo Ayres

Mais duas turmas da EJA (Educação de Jovens e Adultos) serão fechadas em Londrina neste segundo semestre de 2025, no Colégio Estadual Professora Maria José Balzanelo Aguilera e no Colégio Estadual José Carlos Pinotti. A decisão do governo estadual agrava um quadro de precarização da qualidade do ensino público paranaense, visando economia onde deveria existir investimento.

Dados da APP Sindicato mostram que as ações implementadas  pela Secretaria de Estado da Educação (SEED/PR) no Governo Ratinho Jr. dificultam o acesso e até a permanência dos estudantes, resultando em evasão e, consequentemente, no fechamento de turmas e escolas que ofertam a EJA. No início de 2025, três turmas já haviam sido fechadas; duas em Londrina e uma em Cambé.

De 2019 até 2022, mais de 90 mil alunos deixaram de se matricular na modalidade ofertada. Isto é, uma queda de 59% nas matrículas da EJA no Paraná, já que o número caiu de 125.881 alunos para apenas 32.537.

Campanha lançada pela APP Sindicato ainda em 2020/Reprodução

Em nota enviada à Rede Lume, a SEED argumenta que os fechamentos das novas turmas ocorrem por baixa demanda (leia íntegra abaixo), porém, as denúncias sobre as reais motivações para  o fechamento das turmas e escolas são frequentes no Fórum da Educação de Jovens e Adultos. Para Ivo Ayres, professor e representante do Fórum da EJA, existe um desmonte total da educação pública para jovens e adultos no Paraná.

“O Fórum se opõe totalmente ao fechamento de qualquer turma ou escola da EJA. Lutamos pela educação desses jovens e adultos”, declara o professor. E vai  além: “Desde o início o Fórum vem trabalhando a serviço do trabalhador estudante. A EJA é pautada na necessidade de estudo para este público. Criar um sistema flexível de atendimento é necessário.”

Sobre as atualizações no ensino da EJA, como o ensino online e a realização de provas condensadas que entregam o certificado de forma prematura para o estudante, Ivo comenta: “Certificação vazia. O governo está interessado no índice. Quantas pessoas passaram? Se elas têm, de fato, o conhecimento ou não, já não interessa ao governo. A Certificação vazia é desprovida de conhecimento.”

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Márcio André Ribeiro, presidente da APP Sindicato em Londrina , reitera a importância da qualidade do ensino.

“Sempre fomos pautados por defender a educação pública do estado do Paraná em primeiro lugar. Muito além de uma luta corporativista, nós buscamos a excelência da educação pública. Nos preocupa muito que o Governo do Estado não dê prioridade à Educação de Jovens e Adultos.”

Sobre as novas formas de sintetização do ensino, o professor Márcio é claro: “Não funciona, de forma nenhuma.” E continua: “Nós entendemos que a educação é um investimento. Infelizmente, o governo estadual vê como um gasto, então, para diminuir os gastos, eles pensam em mil maneiras diferentes”, fala, referindo-se ao ensino a distância e às avaliações para certificado acelerado.

“Educação não é algo que você consiga fazer do dia para a noite. Esse trabalho é difícil, árduo, complexo. Leva tempo. Não tem como acelerar mais que o normal. Qualquer coisa que se faça além disso está comprometendo a qualidade do ensino”, finaliza Márcio.

NOTA DA SEED

A Secretaria de Estado da Educação (Seed) esclarece que, no Colégio Estadual Professora Maria José Balzanelo Aguilera, os inscritos para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) realizaram a Prova EJA, foram aprovados e concluíram seus estudos. Nessa modalidade, ao invés de assistir às aulas regularmente, os participantes fazem provas em datas específicas e, se aprovados, recebem a certificação. Esse sistema está disponível para todos os cidadãos paranaenses.

Já no Colégio Estadual José Carlos Pinotti, o número de interessados não atingiu o mínimo necessário para a formação de turma; portanto, eles foram encaminhados para que realizem os estudos no Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos (CEEBJA). Nenhum estudante está sem acesso às aulas.

A Secretaria de Estado da Educação reitera seu compromisso com a Educação de Jovens e Adultos (EJA), que é uma política pública que promove a inclusão social, com oportunidades de ensino para pessoas que não concluíram os estudos na idade regular.