Ato neste 7 de setembro começou na Paróquia Santa Cruz e terminou na ocupação Flores do Campo, onde centenas de famílias vivem sem acesso ao básico

Cecília França
com entrevistas e fotos de Filipe Barbosa

Foto em destaque: Voluntários distribuem café no Flores do Campo

A programação do 28° Grito dos Excluídos em Londrina terminou em um lugar simbólico: a ocupação Flores do Campo, onde cerca de 2 mil pessoas vivem sem acesso ao básico. “As famílias que chegam a gente acolhe. Os venezuelanos, que chegam só com a roupa do corpo, a gente acolhe, não tem discriminação, não tem racismo. Nós estamos aqui há 6 anos na luta”, conta Binho, um dos moradores do local.

“Nós tínhamos um ônibus que vinha aqui dentro, aí foi cortado (por conta da má condição da via). Nós estamos na luta pra ver se consegue ao menos jogar um cascalho na avenida principal. Para o pessoal que acorda bem cedo, pegar o ônibus aqui dentro é uma beleza, melhor que subir lá em cima, na estrada”, diz ele.

Outra luta dos moradores é pela iluminação, “porque aqui é tudo escuro à noite, só tem luz dentro das casas”. Binho contesta versões que apontam o bairro como perigoso e violento. “90% da comunidade sai cedo para trabalhar, chega de tarde, na luta. Aqui tem uma fama que o bairro é violento, perigoso, mas violento e perigoso qualquer lugar é. Eu posso falar porque eu conheço muita gente aqui, saio cedo para trabalhar, de segunda a sexta, e a hora que eu saio muita gente tá subindo aqui pra pegar o ônibus, a maioria”.

Os organizadores do Grito dos Excluídos levaram pães e sonhos para distribuir na comunidade neste 7 de setembro que marca os 200 anos da Independência do Brasil. O ato nasceu justamente como um contraponto às celebrações oficiais e, em 2022, questiona: “Independência para quem?”

A programação do ato teve início com um café da manhã solidário na Paróquia. O padre Dirceu Fumagali, da Comissão Pastoral da Terra e que acompanha as Pastorais Sociais da Arquidiocese, diz que o objetivo é fazer com que “o grito dos excluídos, que nesses 200 anos ficaram à margem, possa ecoar”.

“Nós sabemos que não haverá democracia, não haverá independência, enquanto o povo não se libertar de algumas amarras que nós temos no Brasil, uma delas a questão da violência estrutural”, destaca Fumagali.

Ele lembra que o Brasil foi forjado pela violência a partir da ocupação do nosso território – já habitado por indígenas – pelos europeus. O padre segue citando a escravização dos negros e o período da ditadura militar como exemplos da violência estrutural. “O estado brasileiro sempre usou da violência para excluir e reprimir as pessoas”, lembra.

Fumagali cita os 33 milhões de brasileiros que passam fome, segundo dados oficiais, e outros mais de 100 milhões em insegurança alimentar, além da falta de moradia digna como exemplos de como a independência ainda não se completou para as populações vulnerabilizadas.

“Nós simplesmente trabalhamos para produzir para outros. Nunca vamos ter independência quando não houver acesso aos três ‘ts’: terra, trabalho e teto”, pontua.

Cerca de 300 pessoas participaram do café no pátio da Paróquia e acompanharam os discursos de líderes sindicais, religiosos e de movimentos sociais em defesa de direitos e da democracia. A chuva impossibilitou a caminhada que seria realizada até o Flores do Campo e os participantes se deslocaram de carro.

Discursos contra o governo

Em um dia de celebrações pelo bicentenário da Independência do Brasil, o Grito dos Excluídos faz um contraponto com a realidade dos vulnerabilizados. O ato foi marcado por discursos contra o governo de Jair Bolsonaro (PL) e em defesa da democracia.

“Nosso grito é pela paz, nosso grito é por um projeto popular, nosso grito é pela vida, nosso grito é contra a fome”, declarou a vereadora Lenir de Assis (PT). Lembrando que nossa democracia é recente, completou: “Não aceitamos nenhum golpe à democracia. Democracia é uma oganização social, é um um poder exercido pelo povo. É disso que nós estamos falando”.

Silvia Helena Duarte, da Central de Movimentos Populares do Paraná, diz que o atual governo “ignora nossa dor, ignora a fome, o desemprego, ignora a degradação ambiental. E ameaça cada vez mais a nossa vida, a vida dos nossos filhos, dos nossos jovens, principalmente os negros, pobres, muheres, idosos, pessoas com deficiência, com sofrimento mental, da população de rua, LGBTQIA+, da comunidade rural”.

A agricultora diz que a luta popular é também a luta do MST. “O monstro que preside o Brasil entrega nossa vida, nossa liberdade, nossos sonhos para que sejam dominados pela minoria que detém dinheiro e poder. Estamos aqui hoje para resistir. Se não fosse nossa resistencia, a gente estaria muito pior”, finaliza.

Em busca de dignidade

Gilmar chegou ao Flores do Campo há 40 dias com a família. “Vim porque estou sem condições de pagar aluguel e apertou um pouco o orçamento. O pessoal da redondeza demoniza a gente que mora aqui por ser humilde, tem um certo preconceito, acha que é tudo bandido, sendo que 90% é tudo trabalhador, tudo pai de família. Somos excluídos, esquecidos da sociedade”, diz ele à Lume.

Para Gilmar, resta a esperança de que políticos realmente se empenhem em devolver a dignidade às pessoas que vivem sem moradia digna. “A gente tem esperança de que os políticos lembrem de nós, não só agora na hora da política, mas depois também, para dar uma revitalizada aqui, uma urbanizada, porque ninguém merece”.

A história do ‘grito’

O Gritos dos Excluídos nasceu em 1995 como uma iniciativa da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de se contrapor ao Grito do Ipiranga, que marca a independência. A primeira edição do ato teve como tema “A fraternidade e os excluídos”.