Meu nome é Ana Lúcia, sou mãe, curso Psicologia na Universidade Estadual de Londrina (UEL), pertenço ao povo Guarani, ao Tekoha Tenondé Nhepyrû, da comunidade Tekoha Guasu Guavira, localizada no município de Guaíra, na região Oeste do Paraná.

Nasci na terra indígena Porto Lindo, Mato Grosso do Sul, onde morei até meus 15 anos de idade. Desde 2007, pertenço de forma significativa à comunidade Avá-Guarani, devido à minha relação interétnica. É a partir desse pertencimento interétnico que apresento essa narrativa.

Os Avá-Guarani são povos indígenas que habitam a região Oeste do Paraná desde muito antes da chegada dos europeus. Viviam sem fronteira de território, não existia fronteira entre estados ou países. O território reivindicado por nós nessa região é composto por 17 aldeias nos municípios limítrofes de Guaíra e Terra Roxa, sendo nove em Guaíra e oito em Terra Roxa, onde vivem cerca de três mil indígenas Avá-Guarani. Temos parentes nos países vizinhos Paraguai e Argentina e no estado do Mato Grosso do Sul, assim como em outras aldeias dos Guarani no Paraná e demais estados brasileiros.

A retomada de território em Guaíra iniciou pelo Xamoi Claudio Barros e seus familiares em 1997. O nosso Xamoi resistiu a todas as violências, na esperança de um dia ter seu território demarcado e reconhecido. Porém, esse sonho foi interrompido em 2019, quando com 105 anos, ancestralizou. Mas o Xamoi deixou semente, que continua a sua luta pela demarcação de terra.

Ana Lúcia relata a história de luta do povo Guarani em terras paranaenses/Foto: Arquivo Pessoal

No ano de 2004, os Ava-Guarani avançaram na retomada dos seus territórios onde os seus antepassados nasceram e foram expulsos pelos exploradores de erva mate e, posteriormente, pela construção da hidrelétrica do Itaipu.

A nossa história em Guaíra começou a ser apagada quando os não-indígenas chegaram entre 1506 e 1514 e, também, pela companhia Matte Laranjeira, que escravizou nossos parentes, tirou de muito Guarani a própria vida e o seu bem viver. Em nome do progresso e na tentativa de nos matar, destruíram o lugar mais sagrado do Ava- Guarani: as Sete Quedas.

Sete Quedas eram um portal sagrado Guarani

Nas narrativas dos nossos mais velhos, as Sete Quedas eram um portal sagrado, que levava nosso espírito a nos conectar com o bem viver e Yvy marã´e’ỹ. A perda do local sagrado trouxe muito adoecimento para os Guarani, porque não é mais possível se conectar com o sagrado e o bem viver como antigamente. Mas ainda assim permanecemos vivos, pois enquanto as memórias estiverem vivas, as nossas histórias também permanecerão e continuarão vivas. 

É por meio das memórias que retornamos para o lugar que sempre nos pertenceu, este que está vivo e sabe de onde vem, sabe da sua história. Os não-indígenas dizem que somos invasores de terra, gritam em voz alta, quando, na verdade, os invasores são eles mesmos. Gritam alto para convencer a si mesmos dessa afirmação.

Eu pergunto: é tão difícil compreender que o Brasil foi invadido e não descoberto? Que a Matte Laranjeira escravizou os Avá-Guarani e os expulsou dos seus territórios? Que a Itaipu, considerada progresso para o estado do Paraná, alagou as aldeias indígenas Guarani e destruiu lares da família indígena Guarani? Ou que o Estado omitiu a presença indígena para vender suas terras?

Se nas memórias dos nossos mais velhos e da futura geração estão presentes e vivas essas violências, também devem estar vivas entre os que praticaram e ainda praticam violências contra nós.

Os nossos antepassados acreditavam nas histórias contadas pelos invasores e os não-indígenas fingiam acolher, mas nós estamos aqui, agora, questionando e exigindo os direitos ao nosso território, acesso à política pública de saúde, educação, moradia, direito a viver uma vida digna, respeito à nossa cultura, à nossa língua, aos nossos modos de viver. 

Quando começamos a exigir os direitos, a nossa comunidade passou a sofrer perseguição, hostilidade e preconceito, o que contribuiu para adoecimento psíquico e até para a morte de muitos de nós.

Apesar de não me sentir pertencente à universidade, por ser um espaço de ensino muito colonial e eurocêntrico, senti a necessidade de ecoar as vozes dos meus parentes por meio dessa minha escrita e reacendi a minha força espiritual para falar da nossa história, seja ela, no curso de Psicologia, em pesquisa científica, ou em outro espaço. Sabendo que, enquanto uma mulher indígena, preciso me empoderar para ter o meu lugar de fala. Como diz o parente Davi Kopenawa, “não vou ser engolida por máquina”, pois tenho a força do meu povo em mim, que me potencializa para continuar lutando.

É essa força que me empodera para trazer a nossa realidade para essa escrita, visto que o preconceito e o racismo nos afetam, também, dentro do espaço acadêmico. O aumento do racismo ocorre, justamente, por reivindicar direitos pela demarcação ou simplesmente por exigir os nossos direitos.

No território Tekoha Guasu Guavira, os ataques e incitações de ódio aos Avá-Guarani começaram em 2013, quando os proprietários rurais de Guaíra e Terra Roxa formaram a Organização Nacional de Garantia ao Direito de Propriedade (Ongdip).  Sites e redes sociais foram utilizados diariamente para realização de uma campanha anti-indígena, contra a atuação da Funai, contra os direitos indígenas no Oeste do Paraná, como também contra os povos indígenas de outros estados brasileiros.

Na página do Facebook, a Ongdip e o portal Guaíra compartilhavam, e ainda compartilham, diversos conteúdos relacionados à nossa comunidade, onde os seguidores se sentem na liberdade de praticar racismo e injúria racial contra pessoas indígenas. Comentários como “índio tem que morrer”, “tem que sentar o sarrafo nessa cambada de vagabundo” era comuns.

A articulação incitou o ódio da população da região o que, consequentemente, trouxe aumento da violência sobre o corpo indígena. E, para alcançar seu objetivo, divulga informações de forma distorcida na mídia e nas redes sociais. Outro meio de incitar ódio contra os Ava- Guarani foi a utilização de cartazes nos acusando de ser contra o progresso da cidade.

As comunicações foram colocadas no rádio, telejornais regionais e foi usado até carro de som para divulgar mentiras sobre a nossa luta. E, assim, pedindo apoio da população não-indígena para somar forças e expulsar os Ava-Guarani das terras de retomadas e impedir outra invasão, como denominaram as nossas retomadas das terras ancestrais.

Com a mídia manipulando e distorcendo a nossa presença e luta na região, passamos a ser agredidos de forma verbal e física, com lideranças sendo ameaçadas, muitos indígenas sendo atropelados e assassinados na cidade. Desde, estão temos perdido muitos jovens Ava-Guarani para o suicídio. 

As crianças e os adolescentes indígenas passaram a ser discriminados diariamente em ambiente escolar pelos professores e colegas, sendo muitas vezes negado o direito de frequentar a escola.  O Relatório Sobre Violações de Direitos Humanos contra os Avá-Guarani do Oeste do Paraná (CGY, 2018) relata que em 2014 uma criança indígena da aldeia foi deixada sem merenda na escola, o que a levou a um desmaio. Percebe-se que as violências e o racismo ultrapassam a questão territorial, até porque a escola e a merenda escolar são direitos garantidos pela lei a qualquer criança.

As violências contras corpos indígenas Avá-Guarani ocorrem na escola, na cidade e no poder público, pois a Organização Nacional de Garantia ao Direito de Propriedade (Ongdip) está articulada juntamente com os empresários, com apoio das autoridades municipal e estadual. Assim, realizaram campanha para não fornecer alimento ou venda de produto alimentício para nenhum Ava-Guarani.

Nos anos de 2013 a 2017, os Ava-Guarani passaram momentos de muitas violências, as quais continuam vivas na minha memória e de muitos outros parentes. Nesse período, eu ministrava aula de língua materna na escolinha da minha comunidade e quando nós íamos nos estabelecimentos comerciais para comprar produtos das nossas necessidades, nos eram negados e quando não eram negados, éramos alvo de palavras racistas e preconceituosas.

As violências não pararam e nós continuamos resistindo, então começaram a negar empregos, na tentativa de nos enfraquecer.  Quando os parentes saíam à procura de trabalho, a primeira pergunta que faziam era: “você é ‘indígena da invasão’?”. Se respondesse sim, diziam: “não tenho trabalho para você”. Outros diziam: “não posso dar trabalho para ‘índio da invasão’”.

Para continuar sobrevivendo, muitos de nós tiveram que negar sua identidade étnica, tiveram que declarar ser “paraguaio” para permanecer no emprego e assim poder sobreviver e continuar resistindo na luta pela demarcação da sua terra. Mas mesmo, assim, muitos foram demitidos, sem justificativa trabalhista, mas simplesmente por ser indígena.

Em meio às tantas violências, causadas pela organização anti-indígena, no ano de 2016, estava a minha família, assim como diversos outros parentes Avá-Guarani, sem emprego, sem apoio, e se viu na necessidade de buscar sobreviver em outro lugar. Mais uma vez, fomos obrigados a abandonar a nossa casa, território, mais uma vez, fomos violentados, expulsos do nosso território.  E, em 2017, a minha família retornou para a nossa comunidade em Guaíra, onde as violências ainda faziam parte da nossa realidade e a prática constante de segregação étnico-racial contra os Ava-Guarani estava afetando a existência e espiritualidade dos nossos jovens.

Havia necessidade de pertencimento, de aceitação, de ser respeitado e de ser acolhido. Sabíamos que aquele era nosso lugar, dos nossos antepassados, mas ao mesmo tempo a sociedade insistia em negar isso.

Os jovens, sentindo falta do território, dos rios, das florestas, falta do Nhandereko que nos traz o bem viver e, no meio disso, enfrentando preconceito, hostilidade e racismo. E a sociedade denominada “civilizada” nos dizendo que o modo como entendemos o mundo é inferior ao deles.

Com isso, cria-se uma crise de identidade dos nossos jovens, pois eles não se reconhecem pertencentes à comunidade e nem se reconhecem no espaço dos não-indígenas. Para a autora Bianchini (2020), “a demarcação de terras é fundamental para a vivência do nhandereko”.

Concordo com a autora, a demarcação é um direito, é essencial para nossa existência, enquanto pessoa indígena, para nosso modo de ser e o nosso bem viver. Pois é na terra que nós, indígenas, exercemos nossos costumes tradicionais, cultivamos alimentos, a terra é nosso seguro existencial, espiritual, é nossa mãe, que nos fortalece!

Na próxima semana, Ana Lúcia conta sobre o suicídio do povo Guarani.

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