Por Beatriz Herkenhoff e Maria Anita Brasileiro Falcão*

Convidei Anita para falar sobre sua experiência como mulher preta de periferia. Perguntei: Que heranças seus ancestrais deixaram e como você dá continuidade a esses legados?

A herança é transmitida

Por nossa ancestralidade, por histórias contadas, pela luta e pela resistência.

Por nossa conduta ética, desapegada e pela simplicidade como partilhamos nossos conhecimentos.

Pela forma como tratamos as pessoas nas relações comunitárias, familiares e no trabalho.

Pelas estratégias que construímos para superar as perdas.

Pelos recursos que agregamos para recomeçar quando tudo parece perdido, após um desemprego, uma morte, uma enchente.

Que heranças são transmitidas pelos povos indígenas e pelos negros, que são maioria em nosso país? Que heranças são transmitidas pelos trabalhadores que lutam pela sobrevivência? Que legados são deixados por mães que assumem sozinhas a educação de seus filhos e avós que se responsabilizam por seus netos?

Com a palavra Anita:

Estava refletindo sobre as heranças que recebi da minha família. A princípio pensei em dinheiro e bens materiais. Mas, como minha família foi sempre muito pobre, as heranças foram de princípios e amor ao próximo.

Meu pai nos marcou com seu exemplo. Foi a primeira liderança da comunidade, sempre se envolveu em campanhas do agasalho, do leite e do filtro. Ele identificava as famílias vulnerabilizadas, reunia os moradores para conversar sobre a falta d’água e reivindicar soluções à Cesan. Lutou pela energia elétrica, inclusive ajudando a carregar os postes pesados morro acima.

Eu e meus irmãos fomos tomando gosto por esse comprometimento comunitário e transmitimos para nossos descendentes.

Sou da geração da minha família que conseguiu estudar. Fui a primeira a concluir um curso superior.

Essa foi uma herança que recebi do meu pai: o desejo de que os filhos estudassem. Meu pai tinha mais de 40 anos quando concluiu o ensino fundamental.

Meu pai estimulou os filhos a ler. Nos tornamos uma família de leitores. Embora o orçamento financeiro fosse baixo, o dinheiro fosse contado, ele priorizava a compra de livros.

Minha mãe brigava com ele dizendo que precisava comprar coisas para a casa e que ele, em vez de se preocupar com isso, estava sempre pagando prestações de livros.

Herdei dele esse desejo por conhecimento. Minha mãe também era uma mulher muito inteligente, lia pouco, mas tinha muita sabedoria.

Minha avó era uma pessoa incrível. Muito pobre, vivia com um salário mínimo, não sabia ler nem escrever. Mesmo na pobreza, sempre oferecia à visita café e bolinho de chuva. Era muito alegre e gostava de dançar. Esse legado de acolher vem dela. A casa da minha avó vivia cheia,

Herdamos a transmissão do amor através da comida e da casa cheia e acolhedora.

Minha mãe passou fome, por isso sempre teve preocupação com o alimento.

Nossa família é extremamente acolhedora, gosto de cozinhar, amo receber amigos. Cozinhamos com fartura porque sempre chegam pessoas que não estávamos esperando.

Muitas vezes fazemos compras para vizinhos que estão necessitados. Compartilhamos o pouco que temos.

Minha mãe era muito organizada com a casa, com a questão dos alimentos. Muito cuidadosa, uma cozinheira exímia, fazia bife com acém, que ficava fantástico; ela amaciava a carne com o corte, com o martelinho. Tinha sabedoria para tudo, também como lavadeira. Era inigualável no cuidado com as roupas.

Era muito organizada financeiramente. Multiplicava o pouco que ganhava. Trabalhava demais, quase não se divertia.

Segui o seu exemplo, mas não herdei sua prática de trabalho excessivo, sem direito ao descanso e ao lazer. Trabalho muito, mas gosto do ócio e do relaxamento. Preciso do silêncio para restaurar minhas forças.

Herdei dos meus pais o compromisso com a comunidade onde vivemos.

Carrego um desejo, uma motivação para estar inserida na comunidade. Quero participar da vida comunitária, seja na igreja ou na escola de samba.

Neste momento toda a minha família está envolvida com a escola de samba Unidos da Piedade. Eu e meus três filhos participamos das atividades: Vinícius é ritmista; Marcela é da diretoria executiva; George é responsável pelas coreografias, e eu, pela ala das crianças.

No final do ano nossa família é responsável pelo projeto de Natal com as famílias da comunidade.

Essa é a pegada que quero deixar: estar presente na comunidade, contribuindo com a comunidade, principalmente com as crianças e adolescentes.

Amo ser catequista; é uma forma de sociabilidade, de apresentar outras possibilidades para as crianças e adolescentes. Juntar crianças com diferentes condições financeiras, crianças que estudam no Darwin com crianças que estudam na escola pública e com crianças que não têm o que comer. Despertar nelas o respeito, a sensibilidade, a solidariedade, o prazer de brincar, aprender e estar juntas.

Eu poderia morar em outro bairro, mas gosto da Fonte Grande. Gosto da política local, das pequenas e grandes ações que se materializam no cotidiano.

Isso vem da circularidade, da sociabilidade africana, o modo de ser dos negros, dos pretos que foram trazidos da África. A única forma que tinham de sobreviver era estar juntos.

Na sociabilidade africana, as pessoas sentam em círculo, olham nos olhos, não tem hierarquia, estamos todos na mesma condição, sempre juntos, de mãos dadas. Não tem como eu me sentir bem se tem alguém passando fome perto de mim.

Esse legado que herdei e estou deixando faz parte do Ubuntu. A circularidade acontece pela igualdade: eu só estou bem se os outros estiverem bem também.

A palavra Ubuntu tem origem nos idiomas zulu e xhosa do sul do continente africano e tem como significado a humanidade para todos. Seu fundamente assim se traduz: “Eu sou, porque nós somos”. Possui um potencial ético capaz de fortalecer um convívio social no qual a solidariedade, a confiança, o respeito e a generosidade são valores assumidos como fundamentais.

Esse relato de Anita nos mostra que, quanto mais pobres as pessoas são, mais elas partilham. Quando somos fracos dividimos o pouco que temos. Essa é a verdadeira vivência do amor ao próximo. Não posso estar bem se meu próximo não está bem.

Anita está deixando a sua pegada de amor, inclusão, acolhimento, compromisso, doação, alegria e generosidade no seu trabalho, na família e na sua comunidade.

E vocês? Que marcas estão deixando? Que legados? Que heranças?

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora dos livros “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022).

*Maria Anita Brasileiro Falcão, Assistente Social das Prefeituras de Vitória e Serra/ES, com formação em saúde da população de rua.  Sambista. Catequista de Comunidade Eclesial de Base. Militante do Movimento Negro. Vice-presidente da Escola de Samba Unidos da Piedade. Bisavó

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