Anderson Alves dos Santos foi morto por policiais dentro de sua residência, no Jardim Cristal (zona sul)

Nelson Bortolin

A cerimônia de corpo presente para despedida de Anderson Alves dos Santos, realizada na Igreja Pentecostal A Voz de Deus no Brasil, no último sábado, no Jardim União da Vitória (zona sul), foi marcada por choro e indignação. O operário, de 33 anos, foi morto pela Polícia Militar na manhã da sexta-feira, na casa dele, no Jardim Cristal, bem próximo do local.

Líderes evangélicos se revezaram nas orações e choraram abraçados nos momentos que antecederam o fechamento do caixão. A mãe e a mulher de Anderson estavam inconsoláveis e passaram mal.

Ninguém no local parecia acreditar na versão oficial dos policiais, segundo a qual, o rapaz reagiu armado a uma abordagem e, por isso, foi preciso atirar contra ele.

“Temos o costume de levantar cedo para orar. Na sexta-feira, o Anderson acordou 5 horas. Como pastor dele, a gente está sempre acompanhando. Ele chegou a me mandar uma mensagem falando sobre a oração. O Anderson estava trabalhando na obra da reforma do Fórum e a mulher dele estava fazendo a marmita que ele ia levar para o trabalho”, contou à Rede Lume o pastor David Martins do Prado.

O relato que o religioso fez na sequência foi a partir do que ouviu da mulher e da mãe de Anderson. “Ele se sentou no sofá para ler a Bíblia. E logo recebeu a visita dos policiais. Chegaram arrebentando a porta. Disseram que o Anderson era suspeito de ter matado uma policial. E tiraram do apartamento à força a mãe dele e a esposa”, relata o pastor.

A mulher, segundo David, ainda conseguiu ver o marido se ajoelhando diante dos policiais. Logo depois, já sem conseguir visualizar o que acontecia dentro do imóvel, ela e a sogra ouviram os tiros e se desesperaram, como mostra o áudio.

Em nota enviada à Rede Lume, a PM diz que “realizou abordagem com objetivo de dar fiel cumprimento a mandado de prisão”, sem especificar o motivo. “Durante a abordagem, o indivíduo não acatou aos comandos verbais da equipe e reagiu, sendo necessário a equipe repelir a injusta agressão e neutralizar a ação do indivíduo.”

Os PMs entregaram à Polícia Civil, como é de praxe nessas situações, uma “submetralhadora caseira” como sendo a arma que Anderson teria usado para reagir. O pastor duvida que o rapaz estivesse armado. “A única arma que ele tinha naquele momento era a Bíblia”.

Envolvimento com o crime

Segundo pessoas que deram testemunhos durante a cerimônia fúnebre, Anderson teve envolvimento com o tráfico de drogas em alguns momentos da vida.

O pastor David alega que o jovem se converteu em 2015 e deixou o crime por um período de mais ou menos três anos, quando recaiu e foi preso e condenado. Ficou quatro anos em regime fechado e depois progrediu para o aberto quando voltou para a igreja.

“Era uma pessoa que tirava sua própria roupa para vestir um morador de rua. Tinha um coração aberto e disposto”, conta.

Anderson participava dos trabalhos de evangelização da igreja. “Na quarta-feira, ele foi comigo evangelizar no Lago Igapó. Passou uma viatura por nós e ele me contou que estava sendo ameaçada por policiais desde o começo ano.”

Uma segunda chance

O pastor Davi diz que sua igreja acolhe e ajudas a reabilitar pessoas envolvidas no crime. “Todo mundo merece uma segunda chance. Pedimos para as autoridades, para nossa segurança pública, para que tenham um pouco mais de compaixão e amor pelas pessoas, que é o mandamento principal.”

Questionada sobre a versão da família, a assessoria da PM escreveu na nota enviada à Rede Lume: “Toda e qualquer informação a respeito do ocorrido e o que a família alega ter acontecido deve ser levada ao Ministério Público. Como de praxe, a Polícia Civil instaura inquérito para apurar a ação da PM. E também o 5º Batalhão instaura Inquérito Policial Militar, em ocorrências desta natureza.”