Aldeias da Terra Indígena Tekoha Guasu Guavira, em Guaíra, no Oeste do Paraná, foram atacadas na véspera de Natal

Da Redação

A Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), que congrega coletivos dos povos Guarani nas regiões Sul e Sudeste do País, denunciou graves ataques ao povo indígena Ava Guarani no município de Guaíra, região oeste do Paraná. Os ataques com rojões e incêndios ocorreram às vésperas do Natal e uma campanha de arrecadação foi aberta para aquisição de alimentos e reposição de pertences das famílias destruídos pelo fogo.

Contribuições de qualquer valor para a campanha “Ajude as famílias Ava Guarani da região oeste do Paraná” podem ser feitas para o PIX 082.373.199-58.

Segundo a CGY, os ataques envolveram produtores rurais e moradores em incursões armadas violentas contra comunidades em situação de acampamento nas aldeias Y’hovy e Yvyju Avary, áreas compreendidas nos limites da Terra Indígena Tekoha Guasu Guavira. Vídeos postados pela CGY mostram grandes danos materiais.

“Os ataques parecem ser retaliação por produtores rurais e moradores da região às movimentações das comunidades avá guarani dentro dos limites da Terra Indigena, em exercício legítimo de seus direitos territoriais, e que foram utilizadas pelos agressores como supostas justificativas para os ataques.”, diz o texto da CGY.

A Comissão informa que está atuando junto aos órgãos públicos em defesa dos direitos das comunidades, em especial, a garantia da vida e da segurança dos indígenas, apuração dos episódios e identificação de responsáveis e a proteção territorial das áreas.

A Polícia Federal informou que acompanha o caso e as investigações encontram-se em andamento.

Os ataques

No último sábado (23), a comunidade indigena da aldeia Y’hovy foi invadida por um grupo de pessoas não indígenas, praticando hostilidades e ataques com foguetes e rojões, desde a tarde até depois de anoitecer. “Um drone não identificado sobrevoou a aldeia, e em Guaíra foram difundidas informações inverídicas sobre a área e incitando o ódio da população contra os indígenas, acusando-os de ‘invasores’”, relata a CGY.

A chegada da Polícia Federal dispersou o grupo, porém os agressores saíram do local prometendo retornar no dia seguinte pela manhã, o que veio de fato a ocorrer no domingo (24), véspera de Natal. Ao menos sete cápsulas de munição de arma de fogo foram identificadas pela PF nas imediações da aldeia após o ataque, informa a CGY.

Na aldeia Yvyju Avary, a investida foi por um grupo de não indígenas que avançou de forma violenta sobre a área, também n véspera de Natal. Durante o ataque, os indígenas conseguiram fugir e se esconder na mata, porém os barracos, pertences, e até mesmo os animais de estimação da comunidade foram cercados pelos invasores, que atearam fogo nos bens da comunidade e mataram os animais, enquanto soltavam rojões e atiravam na direção dos indígenas. A comunidade denunciou o ocorrido em carta divulgada naquele mesmo dia. Leia abaixo:

“Hoje no dia 24 de Dezembro de 2023 na área de retomada fomos surpreendidos por fazendeiros que eles vieram com armas de fogo e arma branca queimaram nossos barracos, alimentos, nossos pertences materiais e agrediram a nós e fez vários tiroteios em nossa direção trouxeram bombas caseiras e pegaram nossos animais cachorros e torturaram os animais antes de matar e depois enterraram-os com tratores e roubaram nossos dinheiros, celulares e queimaram nossos documentos e também queimaram nossas motos no valor de 8.000 reais cada um eles estavam com intenção nos matar pois todos estavam armados com arma de fogo. E o tiroteio durou quatro horas. Corremos muito perigo junto com crianças, adolescentes, adultos e idosos.”

Carta da comunidade indígena da tekoha Yvyju Avary, da Terra Indígena Tekoha Guasu Guavira, em Guaíra

(Com informações da Assessoria de Comunicação da CGY)

Ava Guarani relata décadas de violência

A região oeste do Paraná é marcada pela violência extrema do conflito fundiário entre indígenas e produtores rurais, onde as comunidades resistem enfrentando ataques, assassinatos, sequestros e tortura já há décadas, além de preconceito e racismo cotidianos.

Em maio deste ano, a indígena Ana Lúcia Yvoty-Guarani, estudante de psicologia na Universidade Estadual de Londrina, escreveu para a Rede Lume, na coluna “Decolonialidades da Comunicação”, sobre a violência sofrida pelo povo Ava Guarani no Oeste do Estado, o que provoca, inclusive, alta taxa de suicídios entre os jovens da região.

“Os Avá-Guarani são povos indígenas que habitam a região Oeste do Paraná desde muito antes da chegada dos europeus. Viviam sem fronteira de território, não existia fronteira entre estados ou países. O território reivindicado por nós nessa região é composto por 17 aldeias nos municípios limítrofes de Guaíra e Terra Roxa, sendo nove em Guaíra e oito em Terra Roxa, onde vivem cerca de três mil indígenas Avá-Guarani.”, escreveu Ana.

“A retomada de território em Guaíra iniciou pelo Xamoi Claudio Barros e seus familiares em 1997. O nosso Xamoi resistiu a todas as violências, na esperança de um dia ter seu território demarcado e reconhecido. Porém, esse sonho foi interrompido em 2019, quando com 105 anos, ancestralizou. Mas o Xamoi deixou semente, que continua a sua luta pela demarcação de terra.”

“No ano de 2004, os Ava-Guarani avançaram na retomada dos seus territórios onde os seus antepassados nasceram e foram expulsos pelos exploradores de erva mate e, posteriormente, pela construção da hidrelétrica do Itaipu.”

Leia os dois textos de Ana Lúcia:

https://redelume.com.br/2023/05/27/guarani-luta-bem-viver/
https://redelume.com.br/2023/06/01/guarani-suicidio-jovens/