Apresentadora acredita que incidente envolvendo deputado federal bolsonarista na entrada do Estádio do Café, no último sábado, pode ter motivado seu desligamento

Mariana Guerin e Cecília França

Foto em destaque: Carol nos bastidores do programa-agosto de 2022/Reprodução Instagram

Uma confusão na porta do Estádio do Café, pouco antes do início da partida LEC x Chapecoense, no último sábado (9), terminou dias depois com a demissão da jornalista Carol Romanini, que apresentava o programa “A Hora da Venenosa”, na RICTV, afiliada da Record em Londrina.

Carol apresentou o programa vestida de vermelho na segunda-feira (12) e foi demitida sem qualquer aviso prévio na terça, quando já estava pronta para entrar no ar. Ainda na segunda, a emissora emitiu comunicado proibindo o uso de cores vermelhas na tela da TV. Nos bastidores, circula a versão de que o deputado federal Filipe Barros (PL), candidato à reeleição com o slogan “O 01 do Bolsonaro no Paraná”, teria pedido a demissão da apresentadora.

Carol faz parte da torcida do Londrina Esporte Clube e costuma ir sempre ao estádio. No sábado, ela estava parada na entrada do Café, quando percebeu uma confusão envolvendo membros da torcida do LEC e apoiadores do deputado.

“Estava tendo uma confusão no canteiro central da Avenida Henrique Mansano. O Filipe Barros estava lá e a polícia já estava controlando tudo quando eu vi um amigo meu atravessando a rua e acenei para ele”, contou a jornalista. Segundo ela, Barros teria gravado essa imagem e editado um vídeo, no qual acusava a jornalista de comemorar as agressões contra a família dele.

Em um vídeo publicado pelo deputado na sua rede social ele acusa membros da torcida alviceleste de agressão enquanto ele, alguns de seus familiares e apoiadores distribuíam material de campanha eleitoral na porta do estádio. O sobrinho de Barros teria sido atingido no rosto e o tio dele teria sido empurrado por torcedores.

Tanto o sobrinho como o tio do deputado foram encaminhados ao hospital sem ferimentos graves e realizaram exame de corpo de delito. Após o incidente, Barros registrou boletim de ocorrência e, na segunda-feira, acionou a Polícia Federal para investigar as agressões da Torcida Organizada Falange Azul.

Torcida acusa membro da equipe de Barros de agredir torcedora

Em nota publicada nas redes sociais, a Torcida Organizada Falange Azul contestou a versão do deputado federal e alegou que a confusão teve início quando um membro da equipe de Filipe Barros agrediu uma torcedora que se recusou a receber o panfleto da campanha.

“Após o ataque, a torcedora ainda foi xingada pelos assessores e cabos eleitorais e pelo próprio candidato. Muitos torcedores, incluindo diversas pessoas que sequer são sócias da torcida, mas que estavam ao redor, se revoltaram com a atitude e foram tomar satisfações”, descreveu a nota.

A Falange Azul lamentou o ocorrido e ressaltou ser contra qualquer tipo de violência. Também reforçou que o incidente não tem relação com opinião política. “Vários candidatos de diversas vertentes políticas fazem campanha no estádio com toda tranquilidade e paz. Nossa torcida possui pessoas de todas as ideologias, que convivem em grande harmonia, o estádio é um espaço democrático e sempre defenderemos isso.”

“A Torcida Londrinense e a Falange Azul repudiam qualquer tipo de agressão contra mulheres seja de quem for, a Falange também se solidariza com a torcedora agredida pela equipe do deputado”, completou a nota, que finaliza informando que a torcida irá tomar as “devidas providências jurídicas contra as informações caluniosas do parlamentar”.

Jornalista recebe ameaças pelo WhatsApp

Conforme Carol Romanini, na segunda-feira, um grupo de WhatsApp formado por torcedores do LEC, do qual ela faz parte, começou a trocar mensagens sobre a vinda do presidente Jair Bolsonaro a Londrina nesta sexta-feira (16). “Várias pessoas começaram a mandar figurinhas no grupo. Uma amiga minha mandou uma arminha, dizendo que era assim que a gente o receberia, e em seguida eu mandei a figurinha da faca.”

“Alguém desse grupo recortou apenas essas duas mensagens e repassou para a equipe do Filipe Barros. E aí começaram as ameaças contra mim”, declarou Carol.

De acordo com a jornalista, ela trabalhou normalmente na segunda à tarde. “Eu tenho três camisas minhas que são coringas e ficam na emissora. Naquele dia, eu tinha duas opções de camisas da loja que me patrocina para usar. Eu já tinha usado uma delas no programa anterior, então resolvi usar uma camisa vermelha que era minha.”

“Ao final do programa, às 15h30, a emissora retirou o episódio do dia do canal do Youtube e, por volta das 17h, recebemos uma recomendação da direção da emissora de que estava proibido o uso da cor vermelha no ar”, recordou. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Norte do Paraná (Sindijor Norte PR) emitiu nota de repúdio ao posicionamento da emissora (leia mais abaixo).

Na terça-feira, Carol chegou à emissora pela manhã, como de costume, e quando estava prestes a entrar no ar, às 14h30, ela foi avisada pelo operacional de que não haveria programa. “Começou a veicular conteúdo de Curitiba e o apresentador, inclusive, mandou um beijo para os telespectadores de Londrina, avisando que estaria com eles até o final de A Fazenda, que dura três meses. Ou seja, eu tinha sido demitida.”

Carol buscou a chefia, que teria informado que a demissão teria partido do grupo RIC. Ela, então, recebeu uma chamada de vídeo da advogada da emissora, confirmando seu desligamento. “Me senti humilhada. Nunca fui tratada com tanta falta de respeito”, confessou a jornalista, formada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) há mais de 20 anos.

À coluna “Na Telinha”, do UOL, a RICTV refutou a hipótese de interferência do deputado na demissão e disse que a dispensa já estava prevista devido a reestruturações da programação.

BO e medida protetiva

Nesta quinta-feira (15), Carol registrou Boletim de Ocorrência, pedindo medida protetiva, e amanhã deve ir à Polícia Federal. Ela também acionou seus advogados para buscar providências jurídicas contra a emissora e contra Filipe Barros, por conta das mais de mil ameaças que recebeu desde sábado no celular, no Twitter e no Instagram.

“Eu tenho medo desse deputado. Minha filha de 16 anos não sai de casa e nem vai para a escola desde que começaram as ameaças e eu não saio mais sozinha.”

“Vou entrar com uma representação contra o Filipe Barros porque ele expôs meu celular nas redes sociais dele e as pessoas não param de me mandar mensagens agressivas, me chamando de assassina. Estão pegando muito pesado. E ele incitou as pessoas contra mim”, lamentou.

Questionada se ela acha que ele a expôs por ser mulher, ela diz que sim: “Tinham muitos homens lá na porta do estádio e eu estava do lado da torcida. Não duvido que ele tenha me prejudicado, afinal eu trabalhava no grupo RIC, que é de um amigo dele”, opinou a jornalista.

Sem emprego, Carol pretende se dedicar às redes sociais e torce para não perder o patrocínio das marcas de alimentos, moda e beleza que a acompanhavam no programa. “Dói muito porque recebi mensagens de mulheres comemorando a demissão de outra mulher, desejando o fim da minha carreira. É tudo muito pesado e triste.”

A reportagem da Rede Lume procurou a assessoria do deputado federal Filipe Barros para comentar sobre sua possível interferência na demissão da jornalista da RICTV e foi informada apenas que “a informação não procede”.

As ameaças contra Carol Romanini ocorrem em um contexto nacional de hostilidade a mulheres jornalistas. Atacada pelo próprio presidente da república, a jornalista Vera Magalhães foi vítima de novo ataque nesta semana, por parte do deputado Douglas Garcia. Maria Fernanda Passos, apresentadora do Diário do Centro do Mundo, também foi vítima de ameaças virtuais por parte de um bolsonarista: “Vou te estuprar, te matar e matar sua família”, dizia a mensagem recebida pela profissional.

Sindicato: RIC proibia apenas vermelho

O Sindijor Norte PR emitiu nota de repúdio, na última terça-feira, quando teve acesso à mensagem de WhatsApp enviada aos jornalistas do grupo RIC proibindo o uso de vermelho. Para a entidade, “a proibição, em um momento de grave polarização eleitoral, evidencia um claro posicionamento do grupo em prol da candidatura do atual presidente à reeleição. Uma opção eleitoral incompatível com o caráter de uma emissora que é concessão pública. E é também um atentado às liberdades individuais dos jornalistas (repórteres e apresentadores)”.

A Lume teve acesso à nota de esclarecimento da diretoria corporativa de Produtos, Conteúdo e Convergência do Grupo RIC, na qual a empresa afirmou: “A RICTV uma empresa do Grupo RIC, esclarece que a diretriz informada à apresentadores e repórteres busca a neutralidade e tem como objetivo não desvirtuar ou dar margens a narrativas paralelas, focando apenas na informação apurada e checada.”

“Todos os nossos repórteres e apresentadores receberam direcionamento para apresentar os blocos sobre a corrida eleitoral com cores neutras, como cinza e azul marinho, evitando looks completos vermelho, bem como verde e amarelo. Como ocorre em todas as coberturas eleitorais”, encerrou a nota.

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