“Minha arte veio como forma de resistência e combate a todos os tipos de violência contra mulheres e crianças”, define a artista londrinense
Mariana Guerin
Fotos: Arquivo Pessoal
Conheci Kenia numa manhã de sábado. Ela estava organizando os materiais para a oficina de graffiti que iria ministrar a três jovens moradores do Conjunto Novo Amparo, na Zona Norte de Londrina, como parte do projeto Favela Library, da prefeitura de Londrina. Me recebeu com um sorriso, uma voz suave, e me convidou para sentar e ouvir sua aula. Eu saí de lá impactada pelo seu trabalho e decidida a contar sua história.
Kenia Leiko Kuriki, 38 anos, é a única mulher integrante do coletivo Cap Style, que reúne dezenas de grafiteiros em Londrina. Apesar de já ter contato com o graffiti há algumas décadas, faz pouco tempo que ela decidiu expor sua arte nas ruas da cidade. Mas ainda bem que ela criou coragem para colocar para fora toda a sua ancestralidade em desenhos feitos ora com pincel ora com spray, técnica que ela ainda está aperfeiçoando.

Nascida em Londrina, sua infância foi “protegida”, apesar de ter presenciado “muitas coisas ruins”. “Cresci nos Cinco Conjuntos, Zona Norte de Londrina. Tenho uma irmã que é dois anos mais nova e meu relacionamento familiar é bom.”
Na adolescência, ela gostava de estudar e não saía muito de casa porque a mãe não deixava: “Comecei a namorar aos 15 anos, com o Hugo, meu companheiro até hoje”, diz Kenia, que é casada e tem duas filhas.
“Muitos acontecimentos me marcaram, mas destaco o período em que conheci o movimento hip-hop, no final dos anos 1990”, recorda a artista, que teve seu primeiro contato com o graffiti na mesma época.
“Acompanhei oficinas ministradas na época e pude ver a importância da arte na vida das pessoas, a transformação que causa no ambiente e na vida. Conheci muitas crianças e jovens que viviam em vulnerabilidade social e tiveram suas vidas transformadas pelos ensinamentos do hip-hop, que sempre teve a preocupação de levar arte, cultura e informação para os que não têm acesso, atuando nas periferias da cidade”, comenta Kenia.
Formada em odontologia, ela trocou de profissão e hoje se dedica aos desenhos, seja nos muros, seja na pele, pois atua, também, como tatuadora. “Já realizei o sonho de constituir uma família, de me formar na faculdade. Exerci por 15 anos a odontologia e hoje realizo o sonho de ser artista e compartilhar o pouco que sei com as pessoas”, declara.
Para ela, o trabalho como grafiteira é gratificante principalmente porque ela trabalha com crianças e jovens de periferia: “É o lugar onde nasci e cresci e sei o quanto é necessário e importante mostrar para essas pessoas que elas podem ter suas vidas transformadas por meio do estudo e da arte, assim como a minha vida e de muitos outros foram transformadas”.
Ela conta que a arte surgiu em sua vida como uma terapia, “para diminuir a ansiedade e melhorar a saúde mental”. “Aprendi a tatuar e com o passar do tempo foram surgindo propostas de trabalho.”
“Por sete anos eu trabalhei como dentista e tatuadora, até que veio a pandemia e eu optei por trabalhar apenas com a arte, porque trazia menos risco para a minha saúde e para a saúde da minha família.”
“Por meio da minha profissão atual, realizei o sonho de estar mais com minha família, poder dar mais atenção para as minhas filhas e ter liberdade geográfica para trabalhar. Conquistei muitas coisas, realizei grandes obras, superei medos e hoje faço parte de dois coletivos artísticos que admiro muito, a Cap Style e a Casa Madá”, descreve Kenia, que, nas horas vagas, gosta de estar com as filhas e, claro, fazer graffiti.
Sua inspiração está mesmo em suas origens: “Busco inspiração em minha ancestralidade, principalmente em minha avó materna, que era benzedeira. É uma forma de resgate da sabedoria de cura, empatia e caridade que ela exercia com tanto amor”.
“A cura pela natureza também me inspira, a sabedoria e potência dos povos originários, a forma como valorizam a espiritualidade e seus ancestrais”, completa Kenia, que se define como feminista, mãe e mulher.


“Minha arte veio como forma de resistência e combate a todos os tipos de violência contra mulheres e crianças, pois todas as mulheres que são minhas principais referências sofreram algum tipo de violência em alguma fase de suas vidas”, comenta.
“Estamos sujeitas a violências e desrespeitos em todos os ambientes. No graffiti não é diferente. E assim como minha arte inspira e motiva artistas mulheres a se expressarem sem medo, eu também busco inspiração nelas, pois acredito que ocupando os espaços ganhamos visibilidade e respeito.”
E ela está muito feliz em fazer parte do coletivo Cap Style, que completa 20 anos neste ano. “Acompanho os artistas integrantes desde o início e eles foram minhas primeiras referências no graffiti.”
“Conquistei meu espaço dentro do coletivo por conta de muito trabalho e estudo. É um coletivo que incentiva as mulheres artistas e abre espaço para que possamos nos expressar. Acreditamos que, somando forças, podemos transformar o ambiente à nossa volta, tornando a vida mais leve e digna”, define a artista.
Hoje, ela vive cada dia com a missão de “evoluir para aprender, ensinar e iluminar”. “Não sei se essa frase me descreve, mas é a frase que me direciona”, confessa.
Eu já acho que a frase escolhida por ela é perfeita para definir o que senti após conhecê-la, naquela manhã de sábado: Kenia, você certamente é luz por onde passa!
*Mariana Guerin é jornalista formada em 2001, com experiência em reportagem e edição. Mantém a coluna Bocados de Histórias no site Rede Lume desde 2020 e adora escrever crônicas do dia a dia.
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