Artista venezuelana, que performava a palhaça Miss Jujuba, foi vítima de feminicídio no Amazonas

Cecília França

“Julieta presente!”, dizem as artes de divulgação da bicicletada que acontece na próxima sexta-feira, dia 12, partindo da Vila Cultural Canto do MARL (Movimento dos Artistas de Rua de Londrina), a partir das 17h30, com o objetivo de celebrar a arte da artista venezuelana Julieta Inés Hernandez Martínez e também denunciar a condição de insegurança das mulheres na nossa sociedade.

Julieta dava vida à palhaça Miss Jujuba. Venezuelana, era cicloviajante e estava no Brasil há oito anos. No dia 23 de dezembro encontrava-se no interior do estado do Amazonas, rumo ao seu país de origem, quando deixou de fazer contato com o grupo de amigos. No dia 5 de janeiro seu corpo foi encontrado ao lado de partes de sua bicicleta.

Um casal foi preso suspeito do latrocínio, estupro e ocultação do cadáver de Julieta.

Julieta como Miss Jujuba/Reprodução Instagram

A brutalidade do assassinato chocou a comunidade artística e bicicletadas em memória de Miss Jujuba devem acontecer em vários locais do país. Em Londrina, a iniciativa partiu da artista Mariana Corte Ferrari, que dá vida à palhaça Cora.

“Eu não conhecia a Julieta, nem seu trabalho, mas como na comunidade da palhaçaria muita gente se conhece, logo a notícia de seu desaparecimento chegou a nossas redes sociais, juntamente com as campanhas de procura por ela. Mesmo sem a conhecer me sinto próxima, pois compartilhamos da mesma arte e somos mulheres”, explica.

De acordo com Mariana, a bicicletada tem dois objetivos, começando por celebrar a artista que foi Julieta, “que levava alegria para lugares onde nem sempre a arte chega com facilidade.”

“Dedicando literalmente sua vida para a vocação em palhaçaria, e isso é de muita força, coragem e importância.”, completa Mariana.

Ela me expande, me nutre de trocas, me preenche de esperanças e afetos… continuo aprendendo até sempre, e com ela! Mesmo que doa, porque vale muito a penaaa Sou grata ao riso sagrado e Miss Jujuba por existir.

Postagem de Julieta sobre sua personagem Miss Jujuba feita em março de 2023, após curso de palhaçaria no Sudeste do Brasil

Outro objetivo é expor e cobrar mudanças na forma como a sociedade trata as mulheres.

“A violência do crime cometido contra Julieta foi de uma crueldade absurda, é chocante ler as matérias e imaginar o quanto ela sofreu em seus últimos momentos. Portanto a ‘Bicicletada’, simbolizando essa palhaça em sua bicicleta, é a maneira que encontramos de conscientizar sobre a violência contra a mulher”, ressalta.

‘Parem de nos matar’

Ser mulher em nossa sociedade significa estar sempre alerta, sempre temendo a violência. Julieta ainda carregava o marcador de ser uma mulher livre. Uma artista, migrante, cicloviajante.

“Ser mulher em nossa sociedade é sempre estar alerta, pois nunca sabemos de onde pode vir o problema, seja dentro de casa, fora de casa, no trabalho ou em relacionamentos, sofremos diariamente essas violências. Mas até quando? Até quando outras Julietas, mulheres fortes e livres serão podadas e mortas”, questiona Mariana.

Por isso, a bicicletada também pretende ecoar os gritos de “Parem de nos matar”.

“Eu não quero ser a próxima e não quero que mais nenhuma mulher passe por isso. A ‘Bicicletada’ servirá como um grito de PARE, pare de nos matar, pare de nos ferir, estuprar, roubar e violar”.

Feminicídio

A artista Amanda Marcondes, integrante do MARL e do Néias-Observatório de Feminicídios Londrina, destaca a importância de que o assassinato de Julieta seja reconhecido como um feminicídio – termo ainda não utilizado pela polícia do Amazonas, conforme registros da imprensa.

“Eu estava vendo um jornal de onde aconteceu o crime e o policial, mais uma vez, falava como homicídio e não como feminicídio, por mais que todo mundo esteja divulgando como tal”, expõe.

Para ela, marcar posição sobre o assassinato brutal de Julieta é também falar do direito das mulheres à liberdade.

“Pelo direito à rua, pelo direito das artistas de se manifestarem. Ela, enquanto artista, mulher, imigrante era consciente de tudo isso. Então é fazer com que esse caso ecoe, para que isso não aconteça novamente”, finaliza.

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