Com fotos que registram o contraste urbano, o publicitário Lunartty Souta mostra o que poucos querem ver, para sentir o mundo do seu jeito e reescrever sua história
Fotos: Arquivo Pessoal/Lunartty Souta
Com um olhar sensível ao contraste urbano, mostrando o que as pessoas normalmente não veem, o publicitário e fotógrafo curitibano Lunartty Michael Souta, 32 anos, desenvolve, desde 2015, dois trabalhos fotográficos autorais com temas pertinentes a cenas da cidade de Londrina: Diário da Rua e Profissões Invisíveis. “Eu busco mostrar para sentir e ser sentido e cada um sente da maneira que se permite sentir”, define o fotógrafo.
A ideia de criar o Diário da Rua surgiu num dia em que ele estava passeando com sua câmera em mãos pelo bairro onde morava, próximo à Avenida Maringá, e decidiu retratar o que viu quando cruzou a praça Dom Pedro I.
“Um dia saí para fotografar a rua com minha câmera analógica de forma aleatória e passei pela praça e comecei a fotografar o cenário e não as pessoas.”
Foi quando uma moradora do local chamada Vanessa começou a gritar com ele. “Quem você pensa que é para vir aqui tirar foto nossa, ela questionou. E eu concordei com ela”, recorda Lunartty.
Logo em seguida outro morador, André, o abordou pedindo dinheiro para comprar álcool para cozinhar ovos. “Eu disse que não tinha o dinheiro, mas que cozinharia os ovos para ele quando voltasse da minha caminhada.”
Naquele dia, ele estava em busca de fotografar uma prostituta para ilustrar o trabalho de uma amiga e quando conseguiu a foto, voltou à praça: “Peguei os ovos, levei para casa, cozinhei e levei de volta para o seu André e ele não acreditava que eu tinha voltado. Estava feliz e me pediu um abraço. Aquilo foi sensacional, inexplicável”, descreve o publicitário, que começou a visitar o local regularmente, sempre com a câmera em mãos.
“Na época em fumava e às vezes eu fumava com eles. Eu estava desempregado, então eu ia lá a qualquer horário, conversava com eles, sempre com a câmera na mão, mas não tirava foto. Eu ia de bicicleta e fotografava o trajeto. Uma vez eu levei umas bermudas e umas torradas para eles e eles ficaram felizes e pediram: ‘Tira uma foto nossa?’. E aí começou.”
“Às vezes eles estavam fazendo um almoço e eu já tinha uma liberdade e acabava tirando fotos deles arrumando as coisas, mas eram sempre fotos pedidas. E eles pediam para eu revelar a foto. Na época, tinha a Casa do Fotógrafo, na Maringá, e custava um real para revelar. Então, eles me davam um real, eu revelava e entregava a foto para eles”, conta.
Segundo Lunartty, quando eles viam a foto, acontecia algo surreal. “O mundo parava, eles ficavam vidrados olhando aquela foto. Aquilo foi me motivando cada vez mais e me mostrando o valor da fotografia, o quanto aquilo era valioso para eles. Então veio a ideia de criar um documentário.”
Sem muito planejamento, ele visitava a praça e fotografava a rotina das pessoas, mas sempre se cobrando como aquilo poderia mudar a vida delas. Ele tinha como referência outros trabalhos fotográficos com foco social, como o projeto Cores do Gueto, do fotógrafo de Londrina Gustavo Carneiro, que retrata crianças de comunidades e faz suas exposições na própria comunidade, para que a sociedade conheça o local e faça doações. “Isso muda a vida dessas pessoas.”
“O Buiu, que na verdade se chama Reginaldo, era o modelo oficial. Ele recebeu um benefício e me deu um dinheiro para comprar um álbum para ele. Ele sempre dava dinheiro para revelar as fotos e quando ele me via, ele pedia para eu tirar foto de todo mundo, revelava a foto e guardava no álbum”, cita Lunartty.

Mais de um ano do início do projeto, ele entendeu que a presença dele na praça já estava mudando a vida daquelas pessoas, que a fotografia era uma troca de valor. “Muitas vezes, eles usavam o dinheiro que seria para o consumo da droga, seja o álcool ou o crack, para revelar a foto, então tinha uma troca de prazer, de ter uma foto ao invés de consumir uma droga”, reconhece o fotógrafo.
Ele reforça que o Diário da Rua não é sobre pessoas que vivem nas ruas de Londrina, mas, sim, sobre os moradores da praça Dom Pedro I. “O projeto acabou por conta da revitalização da praça, que nada mais era do que tirar eles de lá”, comenta.
Documentar a rotina daquelas pessoas motivou o fotógrafo a pensar em outros projetos, como o Profissões Invisíveis. “Ele acontece nesse mesmo contexto de documentar o que as pessoas não veem, como os profissionais urbanos, que trabalham na pavimentação viária, na sinalização, na limpeza, na roçagem”, cita Lunartty, que pretende retomar a série, que hoje está engavetada.
Quando a luz da foto iluminou a vida de Lunartty
“O Diário da Rua surgiu com a intenção de documentar essa questão da população de rua porque são pessoas muito julgadas. E, além de tudo, foi para eu aprender com essas pessoas. Uma das maiores conexões que eu tive com o diário foi com meu próprio vício, porque quando eu comecei a fotografar, eu era dependente da maconha e eu parei de fumar em 2017, quando comecei a psicoterapia. A partir de 2018 eu já não era mais um usuário e desde então eu nunca mais fumei.”
“Quando eu me vi como dependente químico, eu vi o quanto aquilo era horrível, quanto você se sente incapaz e inferior, e eu acho que foi a minha conexão com o diário, de entender o que leva a pessoa à situação de rua”, analisa Lunartty.
Em seu trabalho, ele constatou que o álcool é a droga mais consumida pelas pessoas em situação de rua, principalmente porque ele aquece o corpo e tira a vergonha de pedir esmola. Ele mesmo fez a experiência de pedir esmola no farol e não conseguiu. “A esmola é a dignidade da pessoa em situação de rua porque para sobreviver na rua ou você pede esmola ou você rouba. E pedir esmola não é fácil, você se sente oprimido.”
De mecânico a fotógrafo
Nascido em Curitiba e criado em Telêmaco Borba, Lunnartty tem seu próprio estúdio fotográfico em Londrina, que fica numa edícula no fundo da casa onde ele vive com a esposa Bárbara. Mas sua trajetória profissional começou no segmento automotivo.
“Comecei a trabalhar como mecânico, fui para vendedor de peças, vim embora para Londrina em 2010 como vendedor de peças, com o objetivo de fazer faculdade, e acabei entrando no curso de publicidade e propaganda em 2012, que eu achei que tinha um pouco a ver comigo”, recorda.
Neste mesmo ano, ele perdeu o emprego e, sozinho em Londrina, precisou se virar. “Passei por alguns empregos na área de vendas de autopeças, trabalhei de garçom e de vendedor, que foi minha pior experiência profissional, mas me deu uma bagagem e tanto na fotografia.”
A primeira câmera fotográfica foi comprada em 2011, quando ele decidiu visitar a mãe, que mora no Rio de Janeiro. “Aí eu comecei a tirar foto aleatoriamente.”
Foi então que ele começou a se interessar pela rua. “Gostava muito de fotografar a rua, o reflexo urbano. Eu descobri o reflexo, a poça d’água, aquilo, para mim, foi fascinante. E foi me encantando muito. Ali eu começava a procurar sempre uma maneira diferente de mostrar as coisas.”
“Eu via a poça d’água, encostava a lente da câmera ali e enxergava dois mundos. E sempre mostrava a foto de ponta cabeça, ao ponto de gerar uma dúvida se aquela foto é daquele jeito ou se ela realmente está de ponta cabeça”, conta.
“Eu gostava da invisibilidade social, do contraste urbano, diferenças e sempre estava fotografando a rua, sem compromisso nenhum, sem técnica nenhuma, sem conhecimento nenhum, sem nada.”





Por meio de um funcionário da concessionária de onde ele havia sido demitido anos antes, ele teve a oportunidade de unir seus conhecimentos como vendedor de autopeças com o talento recém-descoberto da fotografia.
“Um funcionário queria criar um e-commerce e precisava de alguém para tirar as fotos das peças e para atender. Eu já estava na faculdade e já estava aprendendo algumas técnicas de fotografia e tive a minha primeira oportunidade de me profissionalizar.”
O professor de fotografia da faculdade foi quem o incentivou a comprar um bom equipamento e pensar na fotografia como profissão, identificando-se com produção de imagens de produtos. “Em 2017 eu começo a minha trajetória autônoma na fotografia, conquistando alguns clientes, entre eles um colégio, uma imobiliária e uma loja de panelas. Eu começava o mês já com um salarinho”, cita Lunartty.
Hoje ele vive da foto publicitária, mas gosta mesmo é de praticar fotojornalismo documental. “Sempre que posso eu vou fotografar a rua, gosto muito de fotografar com contraste de luz, é a minha identidade. Meu nome é Lunartty e as pessoas perguntam o que significa, então eu acabei criando um contexto: se eu virar o ‘n’ ele se torna um ‘z’ e, combinado ao ‘art’ do meio do nome, fica Luzartty, que é fazer arte com a luz, algo que busco no meu trabalho autoral” , explica.
Infância bagunceira e criativa
Ele lembra que teve uma infância “bagunceira”. “Fui uma criança bem agitada que gostava muito de inventar e criar coisas e brincar com os vizinhos e os primos”, recorda.
Com três anos, ele se mudou de Curitiba para Telêmaco Borba, onde foi criado pelos avós maternos. “Tenho dois irmãos por parte de mãe, com pais diferentes. Eu sou o do meio, tenho uma irmã dois anos mais velha e um irmão adolescente.”
“Quando minha mãe apareceu grávida, meu avô a expulsou de casa. Ela teve a minha irmã, depois eu, e quando ela me levou para conhecer a família, eu acabei ficando com meus avós e ela foi embora para o Rio de Janeiro, onde teve meu irmão. Ele mora com ela lá”, conta Lunartty.
“Quando criança, eu tinha a sensação de que não era bem aceito. Tinha esse sentimento comigo, porque eu era sempre o bagunceiro, o arteiro, fazia coisas de criança e às vezes pegavam no meu pé por conta disso e, com o tempo, eu fui entendendo que isso era mais uma emoção minha do que realmente verdade”, desabafa o fotógrafo.
Na psicoterapia, ele entendeu que o sentimento de rejeição poderia estar associado ao fato de a mãe dele ter se sentido abandonada na sua gestação. “Eu acabei carregando isso, mas atualmente tenho um relacionamento saudável com a minha família. Meus avós já faleceram, mas ficou tudo bem resolvido”, diz Lunartty.
Sua adolescência foi “um pouco fora do padrão” porque começou a trabalhar cedo, aos 14 anos. Ele estudava pela manhã e trabalhava à tarde e, no último ano do Ensino Médio, decidiu estudar à noite. “Eu não gostava muito de estudar, mas tinha boas notas. Era minha obrigação, o mínimo que eu tinha que fazer, até por conta da minha criação. Mas não tinha essa cobrança de passar no vestibular ou do que fazer na vida”, declara.

Tímido e tranquilo, ele não teve muitas namoradas na adolescência. Gostava mesmo era de passear e se divertir com os amigos, mas teve uma adolescência produtiva: “Sempre estava produzindo alguma coisa, ocupando o espaço público, então foi uma adolescência saudável. Valeu muito a pena os amigos que eu fiz”.
Um deles era muito criativo e gostava de tirar foto. “Ele fazia fotos diferentes e eu ajudava, mas nunca imaginava ser fotógrafo. Essa semente foi plantada nessa época e a colheita veio anos depois.”
A responsabilidade de trabalhar cedo impactou a vida do adulto Lunartty: “Eu venho de uma família pobre e o vô falou que com 18 anos eu já tinha que ter um emprego senão ia para a guarda mirim, então, eu acho que a criação, de forma geral, me marcou muito”, constata.
Na casa da família eram cinco pessoas e só ele e o avô eram homens. “Era uma família conservadora, mas nunca fui tratado com privilégios. Quando comecei a trabalhar, como eu não ajudava nada em casa, eu lavava minha roupa, fazia minhas coisas. Eu falo que meu avô me ensinou como pegar um martelo e a minha avó me ensinou a pegar uma vassoura”, brinca.
“Minha vó cuidava da casa e meu vô trabalhava. Ela foi dona de casa a vida inteira e me ensinou a cozinhar, a lavar a minha roupa, limpar meu quarto. Esses valores contribuíram muito quando eu vim morar sozinho.”
Lunartty também carrega muita admiração pelo avô: “Ele fazia tudo em casa, a casa foi ele que construiu, ele tinha o porão com as coisas dele e eu ficava fascinado com isso”.
“A minha tia desenhava, tinha tem um dom incrível. Ela é costureira, mas pintava quadro, fazia maquetes. É uma baita referência para mim em questão de arte, então, indiretamente, eu respirava arte em casa”, comenta o fotógrafo, que está se descobrindo artista aos poucos.
“A partir do momento em que eu comecei a me profissionalizar, fui ficando cada vez menos realizado. Eu fui deixando de fotografar para mim e isso é normal, mas eu gosto de, às vezes, inventar alguma coisa para as minhas horas vagas. Então vou dar uma volta, ver o movimento da rua. Às vezes eu saio só para olhar, só para observar a rua. É uma coisa que eu gosto muito. Por mais que fotografe menos a rua com a câmera, eu fotografo todo dia com meus olhos”, filosofa.
Fotografia trouxe estabilidade para sonhar
“Minha autonomia é um sonho realizado”, reconhece Lunartty, que veio estudar em Londrina em 2010 com apenas 20 anos e hoje vive uma vida autônoma. “Dentro da vida adulta, conseguir comprar um carro, uma moto, é um sonho. E dentro da minha realidade financeira, ter o que eu tenho hoje é um sonho que às vezes eu não acredito que realmente aconteceu, ter o meu estúdio, com os meus equipamentos.”
O relacionamento saudável também é um sonho realizado. “É uma coisa difícil de ter e eu e a Barbara já estamos há dez anos juntos, com muita cumplicidade, muita parceria e poucas brigas”, celebra o fotógrafo, que também carrega o sonho de ter uma casa própria, como todo brasileiro. “Também quero viajar muito e ver a Barbara se realizar profissionalmente.”
*Mariana Guerin é jornalista formada em 2001, com experiência em reportagem e edição. Mantém a coluna Bocados de Histórias no site Rede Lume desde 2020 e adora escrever crônicas do dia a dia.
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