Jornalista e professora, a paranaense Antoniele Luciano criou um site independente para contar histórias de protagonismo feminino em Curitiba; projeto incluiu oficinas de escrita criativa para mulheres

“Gosto de pensar que estamos o tempo todo em transformação. Por isso, tem uma frase de Heráclito que acho que tem a ver com o que levo para a vida: ‘Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontram as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou’.”

Essa metamorfose em constante evolução é a jornalista, professora de língua inglesa e portuguesa, mestre e doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Antoniele Luciano.

Nossos caminhos se cruzaram há alguns anos, quando nós duas trabalhávamos na redação da Folha de Londrina. Já longe das redações, fiquei muito encantada pelo seu trabalho com o “Maria vai e Faz” e passei a acompanhar suas conquistas pelas redes sociais.

“Em 2017, sentia que histórias de mulheres na mídia ainda eram assunto só para datas comemorativas. Lancei, então, um projeto independente chamado Maria Vai e Faz, voltado a contar histórias de protagonismo feminino em Curitiba”, conta Antoniele.

Segundo ela, foram relatadas cerca de 100 histórias em dois anos. “Mas eu queria impactar de outra forma também, através da educação. Ensinar está no meu sangue, não consigo fugir disso.”

Aos poucos, o Maria Vai e Faz começou a incluir oficinas de escrita criativa para mulheres. “Em paralelo, comecei a dar aulas na rede pública. Nessa época, eu já havia ingressado no mestrado, para pesquisar mulheres negras na literatura. Hoje, sinto como se não fizesse coisas separadas porque, para mim, está tudo conectado. É possível articular escrita, literatura e mulheres em uma aula de língua portuguesa, por exemplo. Consegui, finalmente, alinhar discurso e prática.”

Maria Vai e Faz: do sítio dos avós à vida na cidade com a mãe

Nascida em Jandaia do Sul, Antoniele foi criada como filha única e até os sete anos viveu com os avós, no sítio. “Foi uma infância muito alegre, com direito a muito mimo e apresentações de balé no clube da cidade e desfile nos dias de carnaval, com fantasia nova a cada ano. Apesar do aconchego que foi ter os dois tão perto de mim, segui com minha mãe para Ourinhos, no interior paulista, em 1994.”

“Lembro que morar com minha mãe foi um dos meus primeiros sonhos. O outro era morar na cidade, porque eu e meus avós morávamos em um sítio, onde meu avô produzia leite e café”, recorda a jornalista, que sempre viu na mãe, professora como ela, um exemplo de coragem.

“Passou uma gestação sozinha na maior cidade da América Latina e enfrentou anos indo e vindo de São Paulo a cada 15 dias para me ver até conseguir passar em um concurso público e ter a estabilidade necessária para me levar com ela”, conta Antoniele.

Juntas, mãe e filha enfrentaram muitas dificuldades no interior paulista. “Éramos só nós duas e me lembro até hoje da burocracia que foi para alugarmos uma casa, mesmo ela sendo funcionária pública e não depender financeiramente de ninguém. Hoje damos risada do passado e somos gratas pelo que construímos juntas ao longo dos anos.”

O pai, que também era professor, ela nunca conheceu. “Aos 32 anos, descobri onde ele estava, mas ele já havia falecido há alguns anos. Ainda assim, pude conhecer parte dos meus irmãos pelo lado paterno. Posso dizer que foi uma surpresa muito boa. Minhas irmãs se mostraram acolhedoras. Temos um bom relacionamento. Fico contente em ter completado as lacunas da minha história, de ter conhecido outros personagens desse enredo”, confessa a jornalista, hoje com 36 anos.

‘Escrever sempre foi algo muito caro para mim’

Geminiana, ela sempre gostou de descobrir coisas novas. “Passei por muitas fases. A que saía pouco de casa e lia sete livros por mês e a que queria ir em todas as festas possíveis. Mas durante todo o tempo eu tinha em mente que queria ser alguém que fizesse algo no qual acreditasse de verdade e que pudesse colocar em prática o olhar crítico que eu já tinha naquela época.”

Foi assim que ela descobriu que queria ser jornalista. “Tinha 16 anos e ia nas oficinas de redação do colégio e a turma batia palmas para o meu texto. Naquele tempo, eu realmente pensava que poderia transformar o mundo ao meu redor com o jornalismo e a escrita.”

“Escrever sempre foi algo muito caro para mim, era um jeito de organizar o mundo. Ainda era uma criança quando ganhei o primeiro diário, aos 8 anos. Guardo esses escritos até hoje. Gosto de ler as impressões da Antoniele menina. É bom ver o quanto crescemos”, compara.

Sua relação com a cultura é curiosa, especialmente agora que está cursando uma parte do doutorado nos Estados Unidos: “Hoje brinco que ouço muito mais MPB do que quando estava no Brasil. É bom ouvir algo que, de alguma forma, se traduz em conforto. Também gosto muito de grunge, indie rock e rock nacional. Cresci ouvindo Renato Russo, que é uma das minhas grandes referências”.

“Também sempre gostei muito de ler. Consegui transformar a literatura em parte do meu trabalho como pesquisadora, então, nas horas vagas, tento ler, na medida do possível, temas diferentes daqueles que fazem parte da minha pesquisa.”

Antoniele gosta de descobrir “novas” autoras antigas, ainda desconhecidas do público. “Mas é uma linha tênue porque daqui a pouco elas se tornam pesquisa também, é difícil separar.”

“Minha relação com a TV, por outro lado, ainda é muito relacionada ao noticiário. Talvez seja por conta da vivência nas redações. Confesso que não tenho muita paciência para acompanhar séries e outros programas. Quando tenho condições, gosto de viajar, não importa se tiver que ir sozinha. O mundo é muito grande para ficarmos sempre no mesmo lugar. Adoro passeios em contato com a natureza, ajudam a recarregar as energias”, descreve.

Sua escolha pelo jornalismo sempre esteve ligada à vontade de mudar o status quo, questionar padrões, autoridades, ser a voz de quem não pode falar e contar histórias escondidas no cotidiano. “Eu vim de uma cidade pequena e cheguei a ouvir de algumas pessoas que não conseguiria ir muito longe porque não conhecia ninguém importante ou que essa profissão não era boa, não tinha espaço. Nenhuma dessas previsões se concretizou.”

Antes da formatura, ela já estava contratada. “Depois, passei em um dos trainees mais concorridos para jornalistas, o saudoso Talento Jornalismo, do grupo GRPCOM. Escrevi para veículos importantes no Paraná e no Brasil, como a Gazeta do Povo e o UOL; trabalhei com grandes profissionais. Há cinco anos, no entanto, percebi que precisava diminuir o ritmo na redação, fazer algo diferente”, conta.

‘Mercado editorial sempre foi mais difícil para mulheres’

Foi quando ela decidiu direcionar sua atividade profissional para causas que eram importantes para ela, como o trabalho das mulheres. “Na literatura, eu percebi que o mercado editorial sempre foi mais difícil para mulheres, especialmente as negras, sem falar nas representações carregadas de estereótipos.”

Ela, então, começou a pesquisar sobre a trajetória da escritora Conceição Evaristo. “Ela ficou quase 20 anos com a primeira obra escrita engavetada e depois, no auge da carreira, não foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, mesmo com um trabalho primoroso e uma grande mobilização de leitores, que fizeram petições com mais de 40 mil assinaturas a favor da escritora”, relata a jornalista.

A partir dessa pesquisa, ela conheceu outras autoras, até se deparar com a obra de Esperança Garcia, tema de seu doutorado.  “Escravizada no Piauí, em 1770, em uma época em que negros não poderiam ser alfabetizados, Esperança escreveu uma carta ao governo pedindo melhores condições de tratamento. Relatos como esse nos ajudam a entender a história que não nos foi contada sobre o povo negro, no sentido de que podemos ressignificar lugares até então cristalizados sobre eles no imaginário social”, avalia a pesquisadora.

Para ela, as mulheres negras também merecem ser vistas como produtoras de conhecimento, como agentes de resistência e mudança. “Isso está na nossa história e literatura e precisa ser contado, de alguma forma. É um engajamento que vem de longe. Hoje, já conseguimos mais abertura para tratar sobre esses temas na academia, mas ainda temos um longo trabalho pela frente porque foram anos de apagamento histórico.”

Antoniele explica que o texto escrito por Esperança Garcia se enquadra no que a academia chama de “narrativas de escravizados”, um gênero que é bastante comum nos Estados Unidos, país que também carrega uma história de escravidão.

“Minha vinda para a University of Georgia (UGA), uma instituição fundada em 1785, em Athens, no estado da Georgia, tem como objetivo buscar mais elementos sobre esse gênero textual, uma vez que no Brasil não temos tantos exemplares nem tantas fontes bibliográficas sobre o assunto como aqui.”

Doutorado sanduíche é oportunidade de pesquisa e de vida

“Essa tem sido uma grande oportunidade não só de pesquisa, mas de vida, já que envolve vivenciar outra cultura, sair da zona de conforto, com a tarefa de voltar com algo que possa ser compartilhado depois no nosso país”, diz a jornalista, que também teve realizado o sonho de conseguir financiamento para desenvolver sua pesquisa em terras norte-americanas num período de corte de verbas da educação no Brasil.

“É uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e profissional gigantesca da qual mais pessoas deveriam ter acesso. Hoje eu já penso em criar alguma iniciativa para que outros pesquisadores saibam quais os passos trilhar, como passar por todo o processo de seleção, da elaboração de um plano de trabalho à procura por uma universidade que nos aceite no exterior e às provas de proficiência necessárias. Por um tempo, eu também cheguei a duvidar que fosse possível alcançar isso.”

Dançando balé, sendo aplaudida pelos colegas da escola, atuando como trainee num grande grupo de comunicação, escrevendo para diversas redações, contando histórias de personagens femininas, ensinando mulheres a escreverem suas próprias histórias ou estudando sobre nossas ancestrais, Antoniele é a Maria que vai e faz.

“Minha avó dizia que eu sou uma pessoa de muito gosto. E eu concordo com ela. Pude crescer com minha mãe, cursar a faculdade que eu sonhei, trabalhar por muitos anos com o que idealizei, conhecer diferentes realidades, países e culturas, graças a esse trabalho. Também vieram coisas materiais”, cita a jornalista.

“Mas os sonhos vão se modificando à medida que nós vamos mudando. Hoje espero ter condições de continuar vivendo através do que eu acredito. Quero entregar algo bom para outras pessoas, ser útil, de alguma forma. Deveria ser o mínimo garantido para qualquer ser humano, mas ainda vivemos tempos difíceis para os sonhadores.”

*Mariana Guerin é jornalista formada em 2001, com experiência em reportagem e edição. Escreve a coluna Bocados de Histórias no site Rede Lume desde 2020 e adora escrever crônicas do dia a dia.

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