Ódio às chamadas minorias embasa discurso de grupos de extrema-direita e fomenta atos de violência como os ataques em escolas
Cecília França
Foto em destaque: Ato religioso em memória das vítimas do ataque ao Colégio Helena Kolody, em Cambé/Filipe Barbosa
O avanço dos discursos de ódio no Brasil, em anos recentes, retroalimentam grupos conservadores e reacionários de extrema-direita e favorecem episódios de violência como ataques em escolas. No artigo “O que nos falta aprender sobre atentados escolares em tempos digitais”, assinado pela advogada Juliana França David e publicado no site Conjur em 5 de abril, a autora discorre sobre como os ataques são impulsionados pela misoginia e o ódio a outras chamadas minorias, como negros.
A autora cita estudo da antropóloga Adriana Dias que mostrou um crescimento de 270% nas células de grupos neonazistas no Brasil entre 2019 e 2021, em todas as regiões do País, ainda com maior concentração nos estados do Sul. Citando atentados como os de Realengo e Suzano, a advogada destaca o maior número de mulheres entre as vítimas como algo sintomático.
De acordo com o artigo, ataques como o cometido no Colégio Estadual Helena Kolody, em Cambé, no último dia 19 de junho – que culminou na morte de um casal de jovens e só não teve maiores proporções porque o atirador foi imobilizado por um senhor que trabalhava nas redondezas – são articulados e incentivados em fóruns virtuais.

“A cultura de ódio contra as mulheres e negros, em boa parte desses ataques, é uma questão preocupante, que muitas vezes é ignorada ou minimizada. Esses fóruns são frequentados por jovens, principalmente homens, que propagam mensagens de misoginia e ódio contra as minorias, muitas vezes incentivando o assédio, e até a violência contra essas pessoas.”
Vídeos gravados pelo atirador responsável pelas mortes no Helena Kolody – encontrado morto dias depois na Casa de Custódia em Londrina – mostram que, além de falar em cometer um atentado de grandes proporções, ele destilava menosprezo pelas mulheres e falava em cometer atos hediondos, como estupro e decapitação.
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Uma análise do perfil das vítimas do massacre de Realengo revela que todas eram jovens estudantes do ensino médio, com idades entre 13 e 15 anos, e somente duas não eram do gênero feminino.
“Realengo”, em 2011, revelou uma triste realidade sobre a cultura de ódio contra as mulheres, que se manifestava, no passado, em fóruns online conhecidos como “chans”.
Em 2012, descobriu-se que o atirador de Realengo fora influenciado por uma seita masculinista, que deu origem a um fórum online chamado “Dogolochan”.
Juliana França David, em artigo publicado no Conjur
Professora e ativista vivenciou avanço da misoginia
A professora da rede estadual de ensino, ativista feminista e doutoranda em Sociologia Meire Moreno vivenciou o avanço dos discursos conservadores e reacionários de extrema-direita e seus impactos no ambiente escolar. Para ela, “A misoginia, assim como o racismo e a LGBTQIA+fobia, são fatores que motivam esses grupos e são conceitos chave para compreendermos essa violência e ataques que têm ocorrido no interior das escolas, não só aqui no Brasil, mas em outros lugares do mundo”.
“Eu me lembro que o primeiro coletivo feminista de que fiz parte aqui em Londrina era o Eva Coletivo Feminista. Nossa principal atividade era oferecer nas escolas oficinas com perspectiva de gênero: educação sexual, conceito de gênero, práticas feministas, práticas anti machistas, eram os conteúdos principais das nossas oficinas. Nós éramos convidadas praticamente toda semana por escolas de todas as regiões de Londrina, inclusive dos distritos. Em 2015 começamos a perceber um recuo das equipes pedagógicas em nos chamar para ofertar esses conteúdos na rede estadual de ensino. Isso coincidiu com o Escola sem Partido e a campanha de grupos reacionários contra o que se denominou ‘ideologia de gênero’”, explica.

Naquele momento, segundo Meire, começaram as perseguições nas escolas contra equipes pedagógicas, professores e professoras que motivavam esses debates.
“Aos poucos os convites (para as oficinas) foram desaparecendo, a ponto de, em 2017, a gente já não ter mais nada na agenda. Isso tem a ver com uma prática misógina e masculinista desses grupos, que adotam uma política anti mulheres e, de alguma forma, avançam contra algumas conquistas que nós tivemos nos últimos anos”, afirma.
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Meire destaca que mesmo quando os ataquem em escolas não miram vítimas mulheres eles têm conteúdo misógino por se direcionarem a contextos de vulnerabilidade.
“Existe uma necessidade de demonstração de força, de potência através de violência, que é coerente com práticas masculinistas, de conservadores, reacionários, que embasam as suas ideias e perspectivas em noções de inferioridade das mulheres em relação aos homens”, acredita.
Para a professora, uma análise séria sobre as causas e como lidar e impedir esses ataques precisa passar, necessariamente, pela perspectiva de gênero, de raça e, também, pelo conceito de sexualidade, “porque eles colaboram para explicar esse contexto de violência”.
“As sugestões para fortalecer o policiamento nas escolas, para instalação de detector de metais, na tentativa de transformar a escola em prisão, não vai resolver o problema, porque é estrutural. Ele só será resolvido se a gente conseguir, de fato, estabelecer uma educação para os direitos humanos, e esse é um trabalho que precisamos construir com a máxima urgência”.
Violência se revela desde o discurso
A ativista feminista, atriz, produtora, roteirista e diretora Marina Stuchi, doutora em Estudos Literários, acredita que o debate sobre violência simbólica é urgente para podermos entender quais discursos têm sido consumidos pelos jovens para alimentar o ódio que culmina em episódios de extrema violência como os ataques em escolas.
“A violência simbólica é a violência que está no discurso. Por isso, é uma violência presente no nosso dia-a-dia, em todos os lugares. Vamos pensar o que esse jovem acessava, quais eram os discursos que ele acessava, do que ele estava se alimentando culturalmente, simbolicamente, discursivamente”, questiona.
Marina alerta que discursos nocivos que fomentam ódio a minorias e a misoginia estão presentes em filmes, letras de músicas e também em grupos de conversas virtuais nos quais jovens acabam nutrindo essas intolerâncias.
“O discurso é aquilo que te alimenta, que molda sua cabeça, seus pensamentos e, por consequência, seus atos. Então a gente tem que estar muito atento ao que tem sido consumido em termos discursivos. Acredito que esse é um dos maiores trabalhos que a gente deve fazer hoje em dia no combate a qualquer tipo de violência”, orienta.
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