Amaue Jacintho, natural do Norte Pioneiro, representou associação de mulheres indígenas do Paraná durante o Fórum Paranaense de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher

Cecília França

Foto em destaque: Amaue com sua filha/Reprodução Youtube

Na última quarta-feira (19), a indígena Guarani Nhandewa Amaue Jacintho representou a Associação de Mulheres Indígenas Organizadas em Rede (Amior) no III Fórum Paranaense de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (Fovid), que termina nesta sexta no Auditório do Pleno do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná (TJPR). Durante seu discurso no púlpito, ela não estava sozinha. Segurava no colo sua filha Ágatha, de 3 anos, que a acompanhou na viagem do assentamento onde residem até a capital.

Amaue iniciou a fala sozinha, contextualizando a dificuldade de se denunciar a violência contra as mulheres indígenas dentro dos territórios e o crescimento de 500% no número de feminicídios entre a etnia, índice constante no Relatório Técnico sobre Homicídios contra Mulheres e Adolescentes Indígenas no Brasil, desenvolvido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em parceria com o Ministério dos Povos Indígenas. Foi bastante aplaudida ao pontuar que a violência de gênero não é natural dos povos indígenas, mas um reflexo do patriarcado imposto por séculos pela branquitude.

Neste momento da fala, Amaue precisou acolher a pequena Ágatha, que chorava na plateia, produzindo a simbólica imagem de uma mulher indígena com sua cria no úlpito de um espaço decisório de poder. “Ela é igual à mãe, grita quando não gosta de algo”, brincou.

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Nascida na terra indígena de Laranjinha, no pequeno município de Santa Amélia, Norte Pioneiro, Amaue encontra-se desterrada justamente por ter denunciado a violência de gênero dentro dos territórios. Sobrevivente de feminicídio, ela se juntou a outras mulheres indígenas e esta mobilização levou à criação do Observatório da Violência contra Mulheres Indígenas do Paraná pela Defensoria Pública do Estado (DPE-PR) e à fundação recente da Amior.

Pluralidade de vozes

O FOVID foi marcado pela pluralidade de vozes, com representações de mulheres negras, indígenas, ciganas, quilombolas, transexuais e com deficiência.

“No Brasil, as mulheres que mais sofrem violência continuam sendo mulheres negras, de baixa escolaridade e em idade reprodutiva. De acordo com a pesquisa, 45% das mulheres negras entrevistadas relataram já ter sofrido algum tipo de violência física ou agressão ao longo da vida”, pontuou a presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Paraná, Ivanete Paulino Xavier.

“Além de estarmos vulneráveis à violência dentro de casa, também temos dificuldades de ter acesso às informações sobre os nossos direitos e sobre a busca de ajuda. Estou aqui representando parte de uma população muito marginalizada, muito vulnerável e que precisa de uma atenção diferenciada”, destacou a fundadora do Fórum Permanente de Luta da Pessoa com Deficiência de Curitiba, Mirella Prosdócimo.

“A violência está em todos os segmentos étnicos e está na etnia cigana. Não é só a violência física, mas também a ciganofobia. Precisamos garantir igualdade de espaço para as mulheres ciganas em todos os segmentos”, afirmou a secretária executiva nacional da Confederação Brasileira Cigana, Nardi Casanova.

“Nós precisamos nos unir, precisamos nos fortalecer, para que isso não aconteça. Todos nós temos direitos de viver dentro da sociedade, de ser mulher, para gente poder ocupar o nosso espaço onde a gente quiser”, destacou a presidente da Comunidade Quilombola Família Xavier, Silmara Xavier.

Promovido pelo TJPR, por meio da Cevid (Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar), o III Fovid acontece até esta sexta-feira, dia 21 de junho. A programação conta, ainda, com palestras e oficinas conduzidas por autoridades e especialistas da área. Ao final, são formulados enunciados com o objetivo de firmar entendimentos nos âmbitos jurídico e psicossocial e estabelecer protocolos que sirvam de referência para as equipes que atuam no estado.

(Com informações da assessoria do TJPR)