Associação das Mulheres Indígenas Organizadas em Rede pede justiça por jovem de 22 anos: “Não podemos permitir que tais atrocidades sejam silenciadas ou tratadas com indiferença

Cecília França

A mulher indígena Kaingang de 22 anos, vítima de estupro coletivo em Nova Laranjeiras, região central do Paraná, no último fim de semana, faleceu no hospital no domingo (22). Seu corpo ainda não foi liberado, permanece no Instituto Médico Legal (IML) para perícia. De acordo com a Polícia Civil de Laranjeiras do Sul, que investiga o caso, as informações ainda são desencontradas. A jovem residia no território Rio das Cobras, mas foi socorrida às margens da BR-277.

De acordo com notícia veiculada pela Catve, ao ser encontrada por populares e encaminhada pelo SAMU ao hospital, a vítima teria apontado 15 homens como os responsáveis pelo estupro, que teria ocorrido nas proximidades do território. Ela apresentava sinais de mordidas e sangramentos pelo corpo. As informações ainda não são confirmadas pela polícia, que aguarda o laudo do IML, porém, foram confirmadas pela Associação das Mulheres Indígenas Organizadas em Rede (AMIOR) junto a moradores da comunidade.

A AMIOR divulgou duas notas sobre o caso, entre domingo e segunda (23). Na primeira, a associação demonstrava repúdio pelo crime; na segunda, lamentava o óbito e pedia justiça.

Este ato desumano fere a dignidade humana e rompe os laços fundamentais de respeito e proteção que deveriam prevalecer entre todos, principalmente em comunidades indígenas. Repudiamos a covardia desses agressores, que traíram não apenas uma jovem vítima, mas também suas tradições ancestrais.”, destaca a AMIOR em nota.

“A violência de gênero, em todas as suas formas, é um projeto de dominação que atravessa fronteiras culturais, e deve ser combatida com firmeza. Não podemos permitir que tais atrocidades sejam silenciadas ou tratadas com indiferença. As vidas de nossas mulheres indígenas são sagradas.”

Leia notas completas no Instagram da AMIOR.

Recorrência

De acordo com a Polícia Civil de Laranjeiras do Sul, casos de estupro não são raros na região, porém, poucos chegam ao conhecimento da polícia.

A AMIOR, em nota, reitera que esse crime bárbaro não é um evento isolado, “reflete um ciclo de opressão e violência estrutural que, infelizmente, se instalou em no chão das nossas Tekoas (aldeias)”.

Na postagem da AMIOR nas redes, uma moradora do território Rio das Cobras afirma que “Já são vários casos de estupro, mas ninguém toma providências.”

Basta de violência contra as mulheres indígenas; as mulheres indígenas são sujeitos de direitos? A nossa vida importa pra esse estado? Pra essa sociedade? É revoltante constatar que não importamos nem quando crianças nem quando adultas”, desabafa Amaue Jacintho, uma das fundadoras da AMIOR.

Invisbilidade

O estupro é um crime recorrente no Brasil. Dados do Anuário Brasileiro da Segurança Pública mostram que, em 2023, ocorreu um crime de estupro a cada seis minutos, um total de 83.988 casos de estupros e estupros de vulneráveis registrados. Estes são apenas os casos que chegam aos órgãos competentes.

Em 2023, a Funai emitiu alerta sobre a invisibilidade ser ainda maior entre crianças e adolescentes indígenas. Para a coordenadora de Gênero, Assuntos Geracionais e Participação Social da Funai, Lídia Lacerda, “As crianças e jovens indígenas são duplamente vitimizados, primeiro pelo agressor e posteriormente pelos equipamentos estatais inábeis à prestação de serviço diferenciado. O tema é bastante complexo e é necessário envolver a comunidade e promover espaços de escuta, principalmente, para as crianças e os jovens indígenas”.

A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55). Se preferir contribuir com um valor mensal, participe da nossa campanha no Apoia-se https://apoia.se/lume-se.