Por Beatriz Herkenhoff*
Fotos: Carlos Monteiro
Sonhar nos encoraja a ter esperança e sair do comodismo.
Ao longo de minha existência fui sonhando e ultrapassando barreiras. Muitas conquistas! Embora muitos sonhos não se concretizaram, deixando um amargo sabor de frustração e desânimo.
Mas, como tenho uma índole otimista, nunca desisti e fui pautando minha vida entre sonhos e realizações.
No atual momento do Brasil, às vezes fico paralisada com tantas fake news e desmontes de direitos humanos e sociais garantidos constitucionalmente. Assustada com o aumento do feminicídio e do ódio aos pobres. Triste com assassinatos de lideranças e o desmatamento de nossas florestas.

Pe Júlio Lancelloti afirma que o desprezo aos pobres passou a dominar nosso imaginário. Ao invés de lutarmos pelo fim da pobreza, estamos lutando contra os pobres.
Diante do aumento do desemprego e da fome, mulheres, crianças e idosas são forçadas a ir para as ruas para garantir um prato de comida. Os povos originários estão ameaçados pela não demarcação de suas terras.
Que nossa sensibilidade seja tocada. Não podemos ficar indiferentes a essa crise humanitária.
Ao refletir sobre tudo isso preciso sonhar. Raul Seixas encoraja-me ao lembrar que sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade.
Por isso, uno-me também ao sonho do Papa Francisco ao convocar o Sínodo do Amazonas, ao reunir em Porto Maldonado, Peru, povos indígenas de quase todos os países da Pan Amazônia.
O Papa Francisco reafirma a riqueza dos saberes e da diversidade indígena, a necessidade de defender a Amazônia e seus povos.
O meu sonho se expande para os povos da floresta, camponeses da terra firme, seringueiros, indígenas e quilombolas, extrativistas e coletores.
Homens e mulheres que sobrevivem do que a terra e a floresta lhes dão generosamente.
Aprendo com esses agricultores familiares, que cultivam pequenas porções de terras com agroecologia familiar (técnicas tradicionais ancestrais). “Cuidam da terra e a terra cuida deles na mesma proporção. Seu modo de vida é baseado no bem-viver”.
Infelizmente, suas ações estão ameaçadas pelos grandes projetos econômicos, pelo avanço do latifúndio, do agronegócio, da pesca comercial, dos garimpos, das mineradoras e pelo permanente processo de desmatamento da Amazonia.
Diante de tantos desafios, quando a ansiedade e a angústia querem dominar, mais uma vez sou convidada a sonhar.
Ao tomar essa decisão identifico-me com a música de Gonzaguinha “Nunca Pare de Sonhar.”
“Ontem um menino
Que brincava me falou
Hoje é a semente do amanhã
Para não ter medo
Que este tempo vai passar
Não se desespere, nem pare de sonhar
Nunca se entregue
Nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo, nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será”.
Fiquei pensando em todos os sonhos que me impulsionaram a acreditar num mundo melhor, mais humano, mais justo, mais igualitário, mais democrático, mais dialógico e respeitoso.

Ao viver o hoje com esperança, percebo que o hoje é semente do amanhã. A forma como ajo, como amo, como cuido de mim, do outro e do planeta são sementes que se transformarão em lindos jardins.
Ao longo de minha vida espalhei sementes por onde andei e hoje vejo os frutos e as mudanças. Um ciclo virtuoso que torna o nosso planeta um lugar melhor para se viver.
Não semeei sozinha, semeei com amigos e familiares que acreditam que a vida deve incluir a todos. As sementes multiplicaram-se porque foram plantadas coletivamente.
Continuo refletindo sobre a música e observo como as crianças, com seu sorriso, espontaneidade e alegria, acreditam no amanhã e permitem por meio de sua confiança que a luz do sol brilhe em meu olhar. Expulso a escuridão que quer tomar conta.
As crianças, em sua pureza e leveza, nos convidam a ir além. Ficamos motivados a mover montanhas para protege-las e vê-las felizes.
Elas nos levam a lutar para que a vida seja mais generosa, menos violenta, menos escassa, menos desigual e menos preconceituosa. Nos mobilizamos para que tenham brinquedos, saúde, segurança, terra, moradia, uma cama quentinha, comida à sua mesa, caderno e lápis para rabiscar e transformar seus sonhos em realidade.
Que tenham oportunidade de estudar, de ser criança, de crescer rodeadas de amor. Que sejam respeitadas e valorizadas pela cor da sua pele, seja ela branca, preta ou amarela. Que sintam alegria ao se olhar no espelho, que assumam sua beleza e identidade.
E quando eu acordo, é como se o menino da música repetisse: “não tenha medo que este tempo vai passar. Não se desespere, nem pare de sonhar. Nunca se entregue. Nasça sempre com as manhãs”.
E ao ouvir o que a criança me diz, eu reafirmo a potência de recomeçar sempre, de reconstruir o humano viver, o amor que acolhe e inclui. Fortalecer a sensibilidade e o compromisso com os mais pobres.
Ao dialogar com o menino, percebo que o meu sonho não pode se fechar nos meus próprios interesses.
A felicidade daqueles que me rodeiam depende da felicidade de todas as famílias do meu Brasil e do mundo.
Como ser feliz com milhões de pessoas passando fome? Como sentir-me plenamente realizada se o que tenho não é acessível a uma grande maioria?
A plenitude que desejo para mim só pode se concretizar se incluir todas as famílias.
O sonho nos impulsiona a seguir adiante com fé e esperança. Quando sonhamos com um futuro melhor, colocamos nosso foco, energia e garra na realização do que desejamos.
Mas retrocessos acontecem. Acompanhamos as atrocidades e extermínios realizados por Hitler na Segunda Guerra Mundial. Quando relaxamos e pensamos que suas ideias foram sepultadas para sempre, nos surpreendemos com o avanço do fascismo no mundo e no Brasil. Ideário que destrói todas as conquistas da nossa civilização.

E mais uma vez eu sonho e vejo que não podemos perder a ternura. A sensibilidade e solidariedade precisam comandar o nosso olhar sobre o mundo. As mudanças exigem vários caminhos, mas, em momento eleitoral não podemos nos omitir.
A sociedade no seu conjunto pode escolher governantes comprometidos com as causas sociais, com políticas públicas que garantam o direito à educação, à saúde, à moradia, ao saneamento básico, ao trabalho, à um salário digno, ao lazer, à cultura, à vivência da fé, à dignidade das pessoas em situação de rua, à delimitação das terras indígenas, ao fim do desmatamento na Amazônia, entre outros projetos. Não podemos ficar em cima do muro.
E após votar, temos que arregaçar as mangas para reconstruir nosso país, voltar a realizar trabalhos educativos que envolvam as bases. Mobilizar pequenos e grandes grupos para que a redução da desigualdade social e o fim da pobreza seja o objetivo de todos.
Convido cada um/uma a “ter fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Nós podemos tudo, nós podemos mais. Vamos lá fazer o que será“.
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).
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